Sessão Pim-Ball!

"Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!"
Oh! Peregrina luz do meu deleite
Ao recordar o amor que cedo dei-te
Aflige meu corpo a febril tortura.

Lembrou-me a hora quando a sós -- loucura! -
Breve infinito -- tua boca beijei-te...
Depois, solene, meus votos jurei-te
E tenho o céu testemunha da jura.

Tu, entretanto, aos meus braços fugiste,
Traindo-me, a ti mesma traíste,
Atada ao negro manto da mortalha.

Vivi, deveras o melhor que pude
Sem me faltar amores, fé e virtude:
"Ganha-se a vida, perde-se a batalha."

Paulo de Morais

27 de Abril de 2001
Monte Machado de Assis (
Dom Casmurro)

Antônio Carneiro, Sinfonia Azul (Portugal, sec.XIX)

Grito Negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

José Craveirinha
Moçambique

Onde Estão Os Poetas?

O mundo vai morrer latindo
como um cão raivoso
desdentado.
A manchete do dia à noite:
"ONDE ESTÃO OS POETAS?"
Ninguém sabe.
Ninguém nunca soube de nada.
Estão todos podres.
Desconhecidos.

P.J.Ribeiro
(de
Besouros Falantes, Totem Edições, 2003)

Tarsila do Amaral, Retrato de Oswald

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