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BAGG'AVE : SONETOS E ROCK'N'ROLL
Eis que me chega pelo correio mais um pequeno grande livro. Trata-se do 'Bagg'Ave', publicação do poeta paulista Jayro Luna, editado e prefaciado pelo autor, com 44 páginas contendo 33 poemas abordando o homem e suas relações com a sociedade, através da música. (...) Não conheço o autor nem outras publicações do mesmo, sequer alguns dados biográficos, por isso restringirei-me a tecer comentários tão somente ao conteúdo bagg'aviano. No Bagg'Ave, o autor vai buscar sua temática na música, e nesse caso, a música é o Rock'N'Roll... E o rock (a música) é muito mais do que uma música (o rock), é toda uma relação socia/sensual, é toda uma filosofia, é todo um jeito de (vi)ver o Mundo, e Jayro vai fundo. Jayro nos fala das gerações roqueiras e dos seus valores, desde o tênis e a calça lee aos discos dos grandes astros e seus conflitos existenciais. Pelos textos bagg'avianos, percebe-se que o autor percebeu que a sociedade capitalistacomputadorizada está aí, firme e forte, com suas redes/rédeas e infinitas relações, e sacou (como muitos) que o Rock como tudo, é transformado em consumo e as vitrines são milhões. Que o Rock é o marketing, é a batida, é a alienação. O Rock é bailes para garotas e garotos nos fins de semana. É o rebelde e revolucionário, é o alternativo/artesanal. (...) Jairo brinca com as palavras e seus sons-significados-significantes, e seus poemas têm música como toda a poesia, e a esta música alia outra música, a música cantada/tocada vinda da relação homem-instrumento. Então as onomatopéias, melopéias, metonímias e aliterações dançam entre línguas claras e metáforas e os pensamentos são em versos, em prosa, imagens e muito mais, pois como o próprio autor declarou: "sobre a discussão se o soneto já morreu ou se o que vale são os versos livre ou a forma estudada do poema concreto, prefiro ficar com a posição do Chacrinha: - 'Vale Tudo'!" Acontece que o 'vale tudo' de Jayro é pra valer mesmo, e as formas utilizadas por ele, (percebe-se) são fruto de pesquisas e trabalho. Há poemas figurativos, concretos, palavras cruzadas, sonetos e alguns que eu, nem ousaria tentar definir. A forma mais utilizada, porém, é a do soneto, e são sonetos na mais pura forma tradicional (catorze versos dispostos em dois quartetos e dois tercetos), sonetos que matariam Petrarca de inveja. Ainda tem o soneto inglês, formado de três quartetos independentes e um dístico, com rimas em abab/bcbc/cdcd/ee. (...) Sonetos e rock'n'roll, quem imaginaria? Ao meu ver, aí é que reside em Jayro, a originalidade, com conteúdo (tema) e forma nada originais, ele origina algo 'novo', interessante, como por exemplo no soneto "Flash Back", onde as rimas foram realizadas nas línguas inglesa e portuguesa: "músical" com "know-how"; "tacape" com "seven-up"; "moleque" e "flash back". Os exemplos não ficam por aí, e estas linhas não pretendem fazer apologia ao Bagg'Ave, apenas externar uma das mais gratas surpresas que eu tive neste início de 1985, dentro da chamada produção alternativa/independente.
Douglas de Almeida, Revista Sem Perfil, Salvador, BA--set/out,1985, p. 22-24. Na publicação original o texto vem acompanhado da transcrição de alguns poemas de Bagg'Ave.
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