Sessão Pim-Ball!

A TANATOS

Que gosto tem, no final da tarde, cálida criatura,
Tornar-se a figura que assusta minh'alma
Dando fim a toda calma, e se afastar levando consigo
A última parede do meu abrigo?
Seus olhos são archotes fumegantes de pavor,
Sua boca traz blasfêmias do inferno mas, mesmo assim,
Pobre enfermo, acendo para você uma vela
Em sinal de reverência.
O tempo escoa sobre os andrajos deste corpo imundo,
Já pende a carne carcomida e ofereço-a a você,
Minha querida!
Tem à sua frente um adorador, leve-me,
Meu amor,
Envolva-me em seus braços e faça, finalmente,
Desta existência demente
Uma louca estátua posta no inferno.

Rogério Florentino Pereira, do livro O Jardim.

Mais informações sobre os autores Abílio Mateus Júnior e Rogério Florentino Pereira podem ser obtidas no site Cumbuca Poética (http://www.geocities.com/cumbucapoetica), que é um dos mais bem bolados da internet, tem um visual que explora a arte gótica, o macabro em tom byroniano. Tem poemas de Baudelaire, Fagundes Varela, Fernando Pessoa, reproduções de quadros de Munch (como o "Grito" - também reproduzido aqui, Goya e outros. Vale a pena conferir e curtir...

ÉBRIO

Afundarei meu copo em poças rutilantes,
E vítreas figuras surgirão qual bacantes,
Dançando, cambaleando entre largos jorros
Do mais puro elixir, dos mais uivantes morros.

Um fresco licor descerá pela garganta
Animando a alma, dizendo-lhe: "Te levanta!
E corra qual louco devasso pelas ruas,
Exalando o meu perfume nas falas tuas."

"Seja digno do meu fatídico domínio.
Apresente-me a outros, cause-lhes fascínio;
Ostente com soberba o fulgente castelo,
Que abriga meu reino e o teu humano flagelo."

Livre de mordaças, mas preso ao nobre vício,
Jogarei meus sonhos em fundo precipício,
Sem remorsos, tristezas ou torpes mágoas...
Apenas ébrio, mergulhado em rubras águas.

Abílio Mateus Júnior, do livro
Danças da Escuridão (SP, Scortecci).

O Grito, Edward Munch

"Na realidade, existia mesmo algo por trás de toda essa produção clandestina. A impossibilidade do acesso dos novos poetas ao sistema editorial não era apenas por questão de falta de vagas ou excesso de critérios de qualidade, mas principalmente por um controle ideológico exercido sobre a literatura impressa na época: os editores simplesmente não queriam ver 'seus' livros barrados pela censura e apreendidos. Mais tarde, com o abrandamento da censura na área política, a poesia marginal acabou virando moda e, mesmo aparecendo a

possibilidade de acesso às editoras, muitos poetas preferiram continuar, sozinhos ou em grupo, imprimindo e vendendo por conta própria, pois viam que isso era até mais fácil e compensador, além de dar plena liberdade de criação. O resultado foi que o mercado paralelo se ampliou e se sofisticou, a tal ponto que agora fica difícil em falar numa marginalidade material."
(
Glauco Mattoso in: Poesia Marginal, São Paulo, Brasiliense, 1986, p. 68)

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