Sessão Pim-Ball!

Atração  (11/10/03)

Olhavam-se há alguns meses, porém quase não se falavam. Ele por insegurança talvez, ou por qualquer outro motivo. Ela por achá-lo distante e inatingível. Mas aquilo que tem que acontecer, que está traçado, acontecerá cedo ou tarde, independente de medos e anseios.
Todos os dias, no mesmo horário se encontravam na aula de anatomia, Paulo com seu físico atlético, dinamismo e exibicionismo, tentava despertar atenção de Ana, que também era muito bonita e atraente, porém ela evitava maior contato com ele, pois sentia que a aproximação seria perigosa. No entanto, decorrido vários meses o inevitável foi acontecendo e eles foram ficando próximos. A princípio se dirigiam poucas palavras, depois viraram colegas, passando a fazer exercícios juntos. Paulo era professor de educação física, por isso possuía bons conhecimentos em anatomia, e passou a orientar Ana, ajudando-a com a matéria.
A aproximação foi tornando-se maior a cada dia e a atração também, ela começou a admirá-lo, a gostar de sua companhia e querer passar mais tempo a seu lado.
Certo dia saíram juntos da aula e ele lhe ofereceu uma carona, ela que já não conseguia mais fugir a seus encantos, mesmo sabendo que era perigoso e talvez até fatal, aceitou o convite. No caminho conversaram sobre vários assuntos e sentiam que o clima romântico estava no ar, mas ao chegar em frente ao prédio onde Ana morava se despediram com um beijo no rosto e uma simples boa noite. Ambos sentiam maiores desejos naquele beijo, que tocou de leve os cantos de seus lábios, mas Ana desceu rapidamente evitando algo a mais.
Passou uma semana até que pudessem se encontrar novamente, e lá estavam envolvidos com a matéria e com seus sentimentos. Ao término da aula Ana se despediu de Paulo, este pediu que ela o esperasse, e assim ela o fez, não podendo imaginar o que estava preste a lhe acontecer. Saíram juntos da aula, seguindo a pé, pois ambos estavam sem carro naquele dia.  Chegando na esquina da casa de Paulo pararam e permaneceram por alguns minutos conversando, até que ele pediu que ela o acompanhasse à sua casa, a fim de pegar seu carro para levá-la embora. A princípio Ana recusou o convite, mas Paulo com seu jeito envolvente a convenceu, e assim seguiram. Ao entrar na sala, ele pediu que ela o acompanhasse até o próximo cômodo, quando se depararam com o quarto dele. Ele gentilmente convidou-a a entrar e apontou a cama para que se sentasse, ela inesperadamente lhe pediu um copo com água, ele saiu e voltou rapidamente entregando-lhe o copo. De um só gole Ana bebeu a água, tamanho era seu nervosismo. Paulo ligou o rádio baixinho e sentou ao seu lado na cama e papearam por mais de uma hora, de repente ele pediu licença e saiu, voltando após dois minutos e trancando a porta do quarto. Neste momento Ana sentiu seu corpo gelar e pediu que Paulo a levasse embora, então ele segurou sua mão, ajudando-a a levantar da cama, quando ela já estava em pé ele a segurou pela cintura , encostou-a em seu guarda roupas e começou a acariciar seu corpo. Uma mistura de medo e prazer tomaram conta de Ana, ela não sabia o que fazer, então permitiu que ele dominasse a situação. Trocaram carícias, carinhos e confissões. E a partir daquele momento o temível acontecia, Ana entregava-se a paixão por Paulo.
Algumas horas depois Paulo levou-a embora, parando seu carro em frente ao prédio e se despedindo com longos e sentimentais beijos e abraços. Também prometendo um ao outro que se encontrariam mais vezes, enquanto fosse do desejo de ambos. Após carinhos e promessas Paulo partiu, deixando Ana.
Ana entrou em seu condomínio, flutuante e apreensiva, com a certeza de que sua vida daquele dia em diante jamais seria a mesma. Colocou a chave na fechadura e abriu a porta de seu apartamento, quando de um impulso Tavinho pula em seu colo e lhe pergunta: trouxe o chocolate que te pedi mamãe? Ela tira o chocolate da bolsa e o entrega, quando Maurício vem em sua direção, beija-lhe os lábios e pergunta: Como foi a aula hoje amor? Ela responde: Cansativa.

Jeane Lima

AS FLORES DO MAL
por Antonio Júnior (*)Salvador (Bahia)


     Na infância costumava ir de mãos das com mamãe visitar a bisavó Silvina. Íamos a pé da casa de vovó Nininha, conversando com um ou outro conhecido no caminho, num ritual colorido de amor. Ela morava num casarão soturno na beira de um rio, decorado com imagens de santos, molduras ovais guardando retratos amarelados de antepassados e sombras, muitas sombras. Enquanto mama trocava confidências com a velha senhora, que passava os últimos anos de sua existência imobilizada numa grande cama de molas, eu perambulava pelo jardim exatamente no centro da casa. A paisagem bucólica, tão distinta de tudo que eu conhecia em Itabuna, parecia uma promessa de dias mágicos, de um futuro encantado.
     Embevecido, não sabia quais das flores apreciar. Colhia uvas verdes e miúdas, voltando às flores. Rosas brancas meninas, gerberas amarelas, margaridas graúdas, cravos vermelhos, lírios, ramos de aster, palmas de Santa Rita, narcisos e hortênsias. Perdia-me durante horas no jardim florido, a mente vazia, hipnotizado pelos odores, cores e belezas. O coração em suspense. Segurando o choro, acompanhava o vôo de abelhas, borboletas e colibris, intrigado com formigas, gafanhotos, louva-a-Deus e lagartas-de-fogo, e sentindo a presença de fadas e duendes.
     São lembranças que perderam a doçura, sufocadas por uma realidade de injustiças, brutalidades e mesquinharias. Do jardim, só o vestígio de uma flor ou outra, e geralmente sem perfume, crias de laboratório. Vivemos dificuldades patéticas e trabalhamos noite-e-dia para pagar contas de inutilidades. A classe política, sempre de olho nas urnas, organiza estratégias e finge ideologias para a manutenção do poder. Velhos dinossauros vendem a idéia de moralismo e autoridade, falando de democracia com resquícios do regime militar. Identifiquei-me com o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, quando disse que "a política é uma guerra. Tenho mais tendência para ser diplomata do que guerreiro".
     Sem um jardim modelo para passar as tardes, desconfio que as flores murcharam e morreram. Estamos numa época do sintético, do artificioso, do puramente estético. Veja, meu caro leitor, o caso da conexão Sul da Bahia-Itália de tráfico de crianças. É alucinante. Casais italianos são vistos na região adotando meninos miseráveis por cinco mil dólares. Conseguem triplicar esse valor com a venda no exterior de orgãos, enquanto juízes e advogados enchem o bolso.  Ah, são tempos insensíveis, de extermínio de indígenas, epidemias e violência gratuita. Mesmo assim, pretendo viver muitos anos mais, driblando a insensibilidade e a amargura, agarrando-me à lucidez e à ternura. Mas o que fazer com a falta que faz o jardim florido de minha infância?

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