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Em 1968, seria lançado o já clássico disco Tropicália ou Panis et Circensis, e nele está a canção famosa Géleia Geral, com letra-manifesto sua e música de Gilberto Gil. Para título dessa canção, usou a expressão pregada por Décio Pignatari em 1963 num texto publicado na revista Invenção, um trocadilho com "Geléia Real": "Alguém tem de ser medula e osso na Geléia Geral brasileira". A polêmica e badalada coluna de Torquato com o mesmo título, Geléia Geral, um espaço crítico-criativo-poético publicado no jornal Última Hora entre agosto de 1971 e março de 1972, seria analisada pelo mesmo poeta concretista: "Seu modo de proceder na montagem/colagem/bricolagem tinha uma certa orientação, não era errático". O tom da coluna, agressivo e descrente de qualquer função didática, chegava a se dirigir aos leitores com um "Alô, alô idiotas". Nela, defendia as manifestações artísticas de vanguarda, divulgava o universo pop internacional e a cena underground brasileira. Militante ferrenho da implantação da contracultura no Brasil, abriu fogo contra o Cinema Novo, questionando o seu comprometimento político ao acusá-lo de lacaio de cargos e verbas oficiais; e atacou incansavelmente o debochado Pasquim. Certa vez ao encontrar Jaguar, um dos humoristas do periódico, arrancou-lhe os óculos, pisou-os e disse: "Um cego não precisa de óculos". Como editor, fundou o alternativo Presença e montava pouco antes de morrer, junto com Waly Salomão, Navilouca, que Caetano Veloso viria a co-patrocionar o primeiro e único número, como homenagem e reconciliação póstuma, e faria história. O destemido Waly radiografou o colega como "Astro doido a sonhar. O nosso moço das ânsias. Pobre? Fauve! Fauve? Fraco herói underground. Fraco? Forte herói underground. Leão alado sem juba". A erudição, lirismo, originalidade e poesia que vinha das entranhas de Torquato Neto deram aos músicos do tropicalismo uma poderosa contribuição. Tímido e muito doente quando menino, por um curto tempo sossegado e tranqüilo, mergulhou na tristeza poucos anos antes de morrer. Intelectual revoltado com o mundo, humorista ferino, carismático com o estado emocional abalado, criador em crise, exigindo demais de todos, desejava "muito além do que já houvera feito". O poeta de jeito desajeitado terminou buscando o socorro social, internando-se no hospital psiquiátrico de Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro, e por alcoolismo em clínicas especializadas, num total de nove internações por livre e espontânea vontade. "Para se desintoxicar e dar um tempo", ele dizia. Sua dor era visível. "Torquato apareceu um dia depois de uma internação em sanatório com o cabelo completamente tosado, um skin head avant-la-lettre, e eu sofri uma premonição terrível e insuportável de uma ovelha negra tosada se oferecendo ao cutelo do matadouro", lembra Waly Salomão. Em 1968, com o AI-5 e o exílio de amigos como Caetano e Gil, viajou pela Europa com o artista plástico Hélio Oiticica, morando algum tempo em Londres. Vivia-se a época da caça às bruxas do inconformismo político, as forças cegas da ditadura militar não alisavam, e os tropicalistas foram considerados como elementos nocivos e subversivos, perigosos para a segurança nacional. Calado, deprimido, recolhido e magoado com a desastrosa viagem a Londres e o rompimento com os baianos no duro exílio, abateu-se ainda mais com as mortes súbitas de Jimi Hendrix (que ele teria conhecido) e Janis Joplin. No final da década de 60 e início de 70, no País do Futebol, proibia-se pensar. Mesmo assim, Torquato Neto incentivou a originalidade do insurgente Cinema Marginal e de seus ícones Júlio Bressane, Ivan Cardoso, Rogério Sganzerla etc. Num super-8 de Ivan Cardoso, Nosferatu no Brasil, faz o papel-título, numa brincadeira com o seu apelido na vida real, e atuando com Scarlet Moon de Chavelier. De volta a Terezina, em 1971, filmou sob a direção de Carlos Galvão, Adão e Eva no Paraíso de Consumo. No Rio, compôs aberturas e trilhas sonoras de novelas populares como Minha Doce Namorada e O Homem que Deve Morrer, mas terminou brigando com a TV Globo e com o Conselho Nacional de Direitos Autorais. O amigo Ivan Cardoso dirigiu o documentário Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália, com muitos depoimentos comoventes, entre eles o de Gilberto Gil, "Tenho uma foto dele e Caetano comigo, pendurada na parede. Sempre a vejo. Gosto dele daquele jeito. Meio português, meio campesino. Como aqueles meninos que você vê nos filmes de Buñuel. Parece um daqueles devotos de Lourdes ou de Fátima". E o de Caetano Veloso, "No período mais próximo da morte dele, vi muito pouco Torquato. Que era uma pessoa que eu via muito. Então você sente uma angústia no sentido que parece que poderia ou deveria ter feito alguma coisa, ter estado perto de algum modo. Mas eu ficava sem ser arrebatado por uma emoção de sentimento, de saudade ou de choro. Até que já alguns anos depois fui a Teresina. Conheci o pai dele, o dr. Hely, ficamos conversando e ele me serviu uma cajuína. Foi quando eu consegui chorar a morte de Torquato". Haroldo de Campos definiu-o no mesmo filme, "Verlaine escreveu sobre os poetas malditos - que eram aqueles simbolistas rejeitados pela sociedade. E o Torquato tem muito desse aspecto". Outro poeta, Chacal, num verão de 72 na Bahia, encontrou "Torquato de olhos e boca vermelhos, cabelos em chamas pela Avenida Sete. Essa foi a imagem que me ficou na cabeça, Torquato pela Sete, vertiginoso, volátil, dando pérolas aos porcos, em sua geléia geral lisérgica". Em 1988, a banda Titãs resgatou para o pop contemporâneo o poema Go Back, musicado pelo tecladista e cantor Sérgio Britto. Autor de algumas das mais bonitas letras da nossa música popular, poeta bacana, vértice tropicalista, um dos nomes mais influentes do panorama cultural de sua época, o nordestino que desatinava e desafinava o coro dos contentes, não segurando a barra dos anos de chumbo, ao analisar sua situação, escreveu: "É preciso não beber mais. Não é preciso não sentir vontade de beber e não beber: é preciso não sentir vontade de beber. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública". Não foi possível parar repentinamente de beber a agonia do mundo, mas Torquato Neto pôs em curso a poética da resistência cultural. Sua linguagem blasfema e antropofágica faz repensar o Brasil. O terrível é que morreu com asco de sua razão de ser: a literatura. Havia encerrado sua possibilidade de poesia. Perdera a fé nas palavras. Meses antes do suicídio planejado, distribuiu a vasta coleção de literatura de cordel, queimou a maioria de seus escritos e quebrou a máquina de escrever, dizendo que nunca mais voltaria a usá-la.
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