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Jornal Eletrônico de Poesias e Artes Editora: Epsilon Volantis ISSN: 1807-8311 Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral. São Paulo, jul.ago. de 2008/set out. de 2008. Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003 |
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Moinho de poemas
Mas, afinal, quem era Luiz Delfino? Nascido em Santa Catarina, “é, pela variedade e extensão de sua obra, o maior poeta do Brasil. […] Contentamo-nos em afirmar ser ele de todos os nossos poetas, sem dúvida, o de mais imaginação, o de surtos mais possantes, e talvez o de vocabulário mais rico.” À vista de apreciações tão discordantes, cabe perguntar, não qual era o verdadeiro Luiz Delfino, mas, antes, qual o autêntico Sílvio Romero, autor de ambos os julgamentos a poucos anos de intervalo. São fatos que se prendem à pequena história da vida literária, mais que à história da crítica, relacionados com uma conjuntura em que o pobre Luiz Delfino entrou mais ou menos como Pilatos no Credo. Tendo velhas contas a ajustar com Machado de Assis desde as críticas desfavoráveis aos seus Cantos do fim do século, Romero encontrou o pretexto em 1882: alegando existir a opinião generalizada de que o poeta e o romancista eram então “legítimos representantes do Naturalismo no Brasil”, escreveu o furibundo panfleto de 50 páginas in-12.º que mandou imprimir nas oficinas da Província de S. Paulo (O Naturalismo em liberatura). Composto em estado de desordem colérica, o panfleto só nos interessa neste momento no que se refere a Luiz Delfino: ridicularizando-o por ser médico e rico, analisa-lhe alguns poemas a fim de demonstrar-lhes a obscuridade ou a verbosidade, para concluir: “não passa de um Leconte de Lisle de dois palmos de altura.” Daí para ser “o maior poeta do Brasil” na geração de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira (que se referiu aos seus “soberbos sonetos”), além de Raimundo Correia, Rodrigo Otávio ou Teófilo Dias a incongruência mais do que evidente derivou de um daqueles rompantes apaixonados e algo esquizofrênicos nele peculiares, explicação lembrada por Lauro Junkes: com o falecimento de Tobias Barreto em 1889, foi apresentado projeto de lei ao Congresso, concedendo à viúva uma pensão de Estado. Aprovado na Câmara, mas encontrando resistência no Senado, Luiz Delfino, então deputado, “pronunciou um dos seus mais inflamados discursos para defendê-lo, elogiando o pensador e jurista Barreto, mas sem referência ao fato de ter sido poeta. Aprovado o projeto, e tendo Sílvio Romero tomando conhecimento da defesa e elogio partidos de Luiz Delfino, alterou radicalmente sua opinião crítica sobre a poesia deste: de poeta medíocre e palavroso, passou a considerá-lo o maior lírico do Brasil” (Luiz Delfino. Poesia completa. I: Sonetos; II: Poemas longos. Org., est. e bibl. por Lauro Junkes. Rev. e atualização lingüística Terezinha Kuhn Junkes. Florianópolis: ACL. 2001). Pode-se lamentar que esta edição inverta a ordem natural de leitura num poeta cuja biografia literária vai da sensibilidade e das técnicas românticas para o novo código parnasiano. Se o soneto, de fato, foi a forma por assim dizer espontânea e predileta do Parnasianismo, era no poema longo que os românticos se sentiam mais à vontade, o poema de graves harmônicas místicas, sociais, filosóficas, históricas ou políticas. As “idéias novas” passavam para a temática poética, como, por exemplo, o poema “Solemnia verba”, dedicado por Luiz Delfino à Espanha, em 1879, ou, no ano seguinte. “A morte do Legendário – o Marquês de Herval”: “Montado em seu ginete de batalha, / Ele impunha terror mesmo à metralha […].” Em 1884, refletindo outro clima social, divulgou alguns poemas abolicionistas, como “À arena”, “À Nação’ e “In excelsis”, em que é, talvez, menos dramático e eloqüente do que Castro Alves: “Eu sou a musa nova, a musa da esperança. […] Vem de lá uma voz, que clama: ó mocidade, / Semear a ciência é ter a liberdade”. Contudo, tanto nos poemas longos quanto nos sonetos, ele se entregava à facilidade e ao descuido, como em “Fiat libertas”, inspirado pelo 13 de maio: “Ao ver que não há mais na pátria um só escravo… / Ouço o rumor de um bravo”. No soneto “Tela apagada”, escreve que em agosto do ano anterior havia “mais calor, menos frio”; em outro, refere-se à mulher amada “enfiando uma idéia noutra idéia”; mais grave é o ridículo da expressão infeliz: “E tudo que ela encerra, e nela abunda, / se esconde […]”, encadeamento constrangedor, se jamais houve algum, apesar da vírgula salvadora. Até a gramática acaba contundida nessa produção desenfreada. Querendo dizer que fugia de uma admiradora, escreve: “vai fugi-la”, incidindo mais uma vez nas regras de regência. Em outro soneto (“O nariz”), deve-se ler que Cellini “pule”, e não “pole”, o marfim novo (verbo polir); da mesma forma, “todos a fogem”, escreve o poeta a respeito da serpente, desejando certamente dizer: “todos lhe fogem”. No impulso do artifício gratuito, ele descreve todas as partes do corpo feminino (quase todas…), numa série sistemática de sonetos: o cabelo, a fronte, os seios, o cotovelo e assim por diante, e mesmo a “unha do dedo mínimo do pé”, terminando numa tragédia de boneca: “Mas esta unha, num dedo escuso, é certo, / Roça-te a carne, um nada, aos pés… desperto / Logo, logo o teu sangue – às armas – grita”. Recolhida em volumes pelo filho Tomás entre 1926 e 1943, a obra esparsa de Luiz Delfino soma 1.293 poemas, dos quais 1.157 sonetos, num total de 36.987 versos. Grandioso monumento histórico, a edição da Academia Catarinense de Letras é, apesar de tudo, um ato de justiça com relação ao escritor que, chegando a ser votado Príncipe dos Poetas Brasileiros, não pode ser ignorado na história da nossa poesia. (Fonte: Gazeta do Povo, Paraná, 1.7.2002 em: http://www.revista.agulha.nom.br/wilsonmartins012.html) |
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Eva
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O DEUS DO SILÊNCIO Não sei por que; porque dizer não ouso: Seguindo estância e estância o antigo rito, No templo de Ísis, adorava o Egito O deus sem voz, o deus misterioso.
Milhões d'olhos de um vago olhar aflito Cobrem-lhe o corpo; e em lânguido repouso, Guardando um gesto altivo e desdenhoso, Pousava à boca um dedo de granito.
E como um olho só, tudo isso olhava Do fundo de uma orelha, que o envolvia: E aos pés vendo a turba imbele e escrava,
O mudo olhar inquieto ardia em lava... Porém... quanto mais via, e mais ouvia, Menos falava o deus que não falava.
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ÍMPETO DE LOBO Helena estava em frente da janela, Por onde o vento francamente entrava; E a morder-lhe o pescoço, levantava Os fios de ouro dos cabelos dela. A cabeça inclinada à luz da vela, Que ora estava serena, ora oscilava, Escrevia: — a letra miúda escorregava, Vermiculando o chão branco da tela. Eu, atrás dela, em sua alcova estreita, Como quem um qualquer segredo espreita, Ardia ao fogo atroz de mil desejos... Agarrar, como quem fizesse um roubo, A nuca, e como em fome e em sede um lobo Tragá-la aos poucos, gole a gole, em beijos... |
AOS VERMES Tendes também espaço no horizonte, Vermes, que o eterno sol redoira e anima; Dou-vos asas, subi: à minha fronte Que sombra escassa e vã lançais por cima!... Eu ato, quando quero, o vale ao monte, O Olimpo ao Céu, e os deuses que a musa intima: E estrela a estrela amarro, e lanço a ponte, Em que anda o grupo harmônico da rima. É um coche de pérola o soneto: E quando dentro dele os mundos meto, A estrofe ala-se, e canta, e canta, e o tira. No caminho saúdam-no as Quimeras: E ao vê-lo, a um tempo, calam-se as Esferas, Aos seios de oiro atravessando a lira. |
A RIMA Um sussurro de estrofes, que hás ouvido, Helena, que te acorda, e leva, e embala, Essa harmonia foi preciso dá-la Às canções, como o corpo ao teu vestido. Ele é sem ele um ser emudecido, Vivo sim! que respira, e que não fala; Uma flor que perfumes não exala, Um pé que pisa e passa sem ruído. É o vento que mexe o bosque inteiro; É do hálito teu o aflar e o cheiro: E o som do fogo a arder não é diverso. A rima, a rima, a sonorosa rima, Bater de asas de pássaros, que anima, E dá vida, e rumor, e vôo ao verso...
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O IMPOSSÍVEL Queres que fale em Deus? — Que contra-senso!... Que falar pode a pobre criatura? Há na semente uma árvore futura; Equilibram-se os sóis no espaço imenso. Dentro e fora de nós nevoeiro denso: Sei que a vida é por mim, por ti, que dura; Há quem o veja e meça-lhe a estatura? Não o afirmo, nem nego. — Cismo e penso... Deus não tem atributo algum humano: Deus é Deus, porque é Deus, Helena amada... O seu nome em meus lábios não profano. A nossa inteligência limitada Não conhece o arquiteto, a obra, o plano; E o que sabe melhor não sabe nada... |
TELA APAGADA Como isto aqui mudou!... Agosto, o ano passado, Tinha mais sol, mais luz, mais calor, menos frio; Mas tudo o mais é o mesmo: a água do mesmo rio, A ponte de madeira, as mangueiras, ao lado, Velhas, grandes, em flor, o lanço esburacado Do muro, e o líquen nele, e a avenca, e o luzidio Lacrau, que salta, e vira, e já volta ao desvio; O cão ganindo; e a um canto, à esquerda, ao longe, o prado. Bambus em renque, em meio o caminho, e no espaço, Longe do morro, ao fundo, a casa; e no terraço Sobre o jardim, talhando o ar cintilante, a imagem De um anjo, — um áureo nimbo à coma, o olhar humano Como jamais pintou Corrégio ou Ticiano: Quem, levando-a, apagou a esplêndida paisagem!...
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