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ORFEU SPAM 12 Jornal Eletrônico de Poesias e Artes Editor: Jayro Luna ISSN: 1807-8311 Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral. São Paulo, janeiro / fevereiro / março de 2006 Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003 |
Sessão Marginália: Antônio Miranda
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Professor e chefe do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília, Brasil, ministra aulas e cursos por todo o Brasil e países ibero-americanos. Também é consultor em planejamento e arquitetura de Bibliotecas e Centros de Documentação. Doutor em Ciência da Comunicação (Universidade de São Paulo, 1987), fez mestrado em Biblioteconomia na Loughborough University of Technology, LUT, Inglaterra, 1975. Sua formação em Bibliotecologia é da Universidad Central de Venezuela, UCV, Venezuela, 1970. Poeta, escritor, dramaturgo e escultor, já publicou romances, poesias e peças para teatro (gênero pelo qual é conhecido lá fora) em vários países. Em 1967, por decisão própria, exilou-se para viver intensamente um período de efervescente agitação cultural na América Latina, dedicando-se à produção literária e artística. Sua criatividade foi reconhecida com prêmios pela crítica internacional (Medellin - Colômbia, San Juan de Puerto Rico). Miranda viveu e publicou em Buenos Aires (Argentina), Caracas (Venezuela), Bogotá (Colômbia) e Londres (Inglaterra). Tu País Está Feliz, peça de teatro estreada em 1971, foi representada em mais de 20 países e só publicada no Brasil em 1979. |
AUTO-RETRATO
Às vezes sou um, às vezes sou outro: todo mundo é assim, ou é assado.
Eu, sem fugir à regra, transgredi.
Fui, ao mesmo tempo, eu e o outro -um para dentro, outro para os outros mas, confesso, sou igual a todos num disfarce que é a outra face de uma falsa dicotomia.
Nem religioso eu sou, nem romântico , muito menos ideólogo ou assumido de qualquer coisa, na minha infidelidade, falta de fé. E, no entanto, obstinado quase otimista porque realista -na reversão da contradição.
Sou um pouco o Orlando da Virginia Woolf o Patinho Feio disfarçado de Dorian Gray.
Li uma montanha inexpugnável de livros tentei reescrevê-los, sem qualquer humildade subi, letra a letra, degraus estonteantes delirantes, construindo arquiteturas etéreas
no círculo vicioso das virtualidades banais.
Deveria rasgar todas as frases deletérias todas as imprecações, todas as contrafações verbais e venais que produzi – lixo execrável.
Deveria envergonhar-me de minha falsa polidez de minha insensatez, minhas impropriedades mas sempre tenho a firmeza dos inseguros enquanto os crédulos, os convictos não resistem às próprias contradições.
Transgredi mas, juro, apenas verbalmente. No mais, sou casto na minha perversidade. Sou beato na minha mais íntima heresia. E mais despretensioso do que a minha soberba.
Deu para entender? Nem Deus pressente aquela dor que finjo que deveras sinto ao plagiar aquele poeta que nem mesmo venero. MEU NOME
Antonio, menino,
vamos conversar:
Prá que tanta rebeldia, socando ponta de faca?
Aonde te levam estas pernas de caminhar tantas fugas, recusas, tanto ensimesmar?
Antonio, menino, por que blasfemas?
Que te leva ao prazer do sofrimento ao pensamento avesso ou travesso a contradizer o sim e a reiterar sempre o não?
De onde vêm estas idéias de suicídio enquanto amas saturado e satisfeito?
Tantas páginas escreves! Tantas leituras apressadas, tanta angústia de ser tantas perguntas impossíveis, desejos sonhos absurdos, planos inconseqüentes!
Que amigos são esses que não voltarás a encontrar? Que lugares tu buscas que deixarão de existir? Que amores te queimam que se vão dissipar? Que idéias te movem que logo vais superar?
Acaso essa birra vale o que a motiva?
Frente a frente, somos dois desconhecidos que se negam, contradizem, se acusam.
Espelho maldito a revelar o nosso estranhamento.
Não me acuses do que não fostes capaz! Nada sou daquilo que pretendias ser!
Nunca fui amado tanto quanto querias! Nem amei tanto quanto querias que eu amasse...
Antonio, por favor, reconheça o teu fracasso e deixa espaço para eu existir sem ter que justificar-me diante de ti!
Deixa eu ser feliz no meu conformismo - de achar que tenho o que mereço enquanto tu deliras e deliras!
Por que estragas o meu sossego tão frágil azedas a minha felicidade tão precária?
A partir de hoje o meu nome é Outro.
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B ORGESPara Elga Pérez Laborde I No labirinto dos espelhos por caminhos multiplicados ao infinito; lá no fundo ou no começo.
Onde o tempo e o espaço se confundem, porque coexistem memórias do olvido.
Em território ampliado extensivo, além dos planos e altiplanos sucessivos, transformados.
Paisagens mutantes, antes miragens, talvez passagens ou descaminhos entre tudo e o nada absoluto.
Lá está aquela máscara disforme que encobre uma outra face que oculta outras tantas mais: metamorfoses.
Desvendamentos, desvelamentos. Excertos, estratos, desconcertos. Um ser que não mais existe, nunca mais.
Ou que existe em transição. Um ser de superfícies, camadas numa couraça de resistências impossíveis.
II Um ser em que não me reconheço que em sendo deixa de existir que não tem começo e nem princípio(s).
Um ser em precipício, levitando sobre os espaços e os tempos de um esclarecimento - o sentimento do universo.
Num território de realidades que seriam transfigurações encontro Borges, onírico, flutuando entre as palavras.
Ou pelos sentidos, pressentimentos pairando sobre mitos e ruínas latentes, no sentido dos sonhos consentidos.
Referências, transparências, transcendências. Sonhos sonhados ou ruminados, ou imaginados, essências.
Borges confessa: a realidade não interessa; sua visão perpassa as tessituras do fabulário.
Na ceguidade iluminada - origem e devenir das formas - ele me vê bem além de mim, ele se vê.
Eu não consigo vê-lo, apenas me aproximo de sua substância de símbolos e de significados - se isso é possível.
Ele dialoga com os mortos e enxerga além das evidências e, negando a própria existência, nos descobre.
Pois é de descobertas e dessassombros que construímos nossos espelhos no labirinto infinito e imperfeito das revelações.
Como Dante e seu Poeta preferido indo aos epicentros da condição humana, às suas projeções e representações.
Com Borges, o mago, o vidente um pré-socrático, um demiurgo um transgressor por via dos questiona mentos.
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Obras de Antônio Miranda:
Canções Perversas
Retratos & Poesia Reunida
São Fernando Beira-Mar
Perversos
A Senhora Diretora
Canto Brasília
Brasília, capital da Utopia: visão e
revisão
A quadratura do Ó; ou a maravilhosa
história do fanzoca que idolatrava Emilinha Borba. Romance com capa de
Inácio da Glória.
Calzoncillos con Nubes o si prefieren SOS
Colombia. Jesucristo Astronauta; auto sacramental sobre lo profano y lo divino.Texto inédito utilizado na montagem de espetáculo musical montado por Carlos Gimenez para o grupo Rajatabla, de Caracas (Venezuela), 1972. O título original - La Consagrada Família - será mantido na versão em português. De Creencias y Vivencias. Uma plaquete com o texto original do longo poema que depois foi transformado em programa de rádio pelo produtor venezuelano Napoleón Bravo, sob a direção de Ibrahim Guerra. Caracas, Venezuela. Tipografia Remar, 1969. 17p. Livro de poesias com capa de Carlos Poveda. De Crenças e Vivências. (Versão em português) La Fuga: anticuento. Tradução de Lucrecia Manduca. O anticonto com seu estilo vanguardista, de metalinguagem, escrito originalmente no Rio de Janeiro (1966) cujos originais em Português estão desaparecidos. Caracas, Tipografia Remar, 1969. 33p. Veja e versão em português: A Fuga Cuerpo que los dias.Coletânea de poemas escritos entre 1958 e 1967, a maioria de viés mais líricos, outros de crítica social. Poemas publicados em Caracas. Faculdade de Humanidades, Universidade Central da Venezuela, 1967. 31p.
Versos Itinerantes. Amazônia.Versos
escritos a partir de uma viagem pela região amazônica no início da década de
60 do século passado, vertidos ao castellano por amigos do poeta.
Caracas, 1967. 61p. Com ilustrações de Rubem Chávez. |
(Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br)