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ORFEU SPAM 11 Jornal Eletrônico de Poesias e Artes Editor: Jayro Luna ISSN: 1807-8311 Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral. São Paulo, outubro/novembro/dezembro de 2005. Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003 |
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Sessão Revisão: Frei Manuel Calado Frei Manuel Calado do Salvador nasceu em Vila Viçosa (Portugal), em 1584. Professou na Ordem de S. Paulo em 8 de abril de 1607. Passou cerca de trinta anos no Brasil (Bahia e Pernambuco). Esteve presente em vários acontecimentos do período da invasão holandesa em Pernambuco. Por pouco não foi condenado à morte pelos holandeses. Após a restauração pernambucana (15/07/1646) regressou à Corte e apresentou à Censura a primeira parte de sua obra acerca da guerra com os holandeses: O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade, publicada em 1648. A obra é predominantemente em prosa, mas em alguns trechos é dominada pelo verso. De caráter clássico e barroco, varia entre o criativo poético e a narração histórica laudatória. Para Massaud Moisés "O Valeroso Lucideno encerra palpitante reportagem da guerra holandesa, levada a efeito por um cronista empenhado na exaltação do destemor português, mas que registra, como sem querer, a presença do brasileiro e a progressiva maturação de nossa linguagem literária durante o século barroco." (Hist. da Lit. Brasileira: Origens, Barroco, Arcadismo: 1990, p. 168).
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Livro Quarto - Capítulo II - fragmento Estrela matutina, é tempo agora Que a cítara me deis, para que cante Vossos favores, cristalina Aurora, Que do incriado Sol vindes diante; Se me favoreceis, Virgem Senhora, Das escuras quadrilhas triunfante, Cantarei docemente em voz suave, Com saudoso acento, agudo, e grave.
Estava Lucideno sobre o leito Do importuno trabalho descansando, Revolvendo mil traças no conceito, Diversos pensamentos espalhando: Bate-lhe o coração dentro no peito, Os sentidos lhe ocupa o sono brando, Tanto adormeceu, sonhou que via O Santo Português, que lhe dizia:
Como estás Lucideno descansado, Importando-te tanto o trabalhar? Quando o fero Holandês tem decretado De os moradores todos degolar; Este infausto decreto, e inopinado Em dois dias pretende executar, E em se mostrando ao mundo a nova Aurora Se parte ao Arrecife sem demora.
E reformado ali de armas, e gente, Com suas tropas posto a som de guerra, Ardendo em ira, e em furor ardente Os moradores matará da terra; Portanto não te mostres negligente, E se zelo Cristão em ti se encerra, Corre depressa, porque senão corres Não dirás com verdade que os socorres.
Por duas vezes viste a porta aberta Por si, do tempo aonde me servias, No que te prometi vitória certa Se esta honrosa empresa acometias: Portanto Lucideno, alerta, alerta, E se em meu patrocínio te confias, Parte depressa, e investe ao inimigo, Não se acovardes, que eu serei contigo.
Tanto que o Holandês se reformar De soldados, e armas sem demora Determina sair a degolar Os moradores nesse ponto, e hora: Levanta-te, e procura caminhar Antes que o inimigo saia fora Aos Apopucos, Vila, e Beberibe, Várzea, Tejupió, Capivaribe.
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Livro VI - Capítulo I - fragmento Quando o garrido arnês da Flora bela (Alegria total da Primavera) Tinha entregada a rorida capela Ao mês, que entrar em Lagos não deverá, Chegou ao Arraial com boa estrela O forte Lucideno, aonde o espera O morador, e os míseros soldados, Todos ficam com vê-lo consolados.
As estâncias visita, e as provê De mantimento, porque o traz consigo Em abundância, e certo bem se crê, Que é pai dos pobres, e leal amigo: Diz-lhes que em defensão da Santa Fé Não têm que recear a morte, ou perigo, Que quem morre em serviço de seu Deus, Alcança fama, e grangeia os Céus.
Todos com raro brio se oferecem A fazer as heróicas proezas, Com que por todo o mundo resplandecem, As valentes espadas Portuguesas: O socorro oportuno lhe agradecem, Todos louvam seu ânimo, e grandezas, Que não se ausente mais cada um lhe pede, O qual o que lhe rogam lhes condece.
Com isto se despede, e vem tomar Descanso da viagem que fizera, E juntamente chega a visitar Sua amada consorte, que o espera: Detém-se uma só noite, e vai tratar De celebrar (segundo prometera) Festas a Santo Antônio Português, Que mercês tão grandíloquas lhe fez.
Traçada a festa, senão quando vinha De Iguarassu correndo um cavaleiro, Que o Lucideno deiz que marche asinha, Se quer o Belga ter por prisioneiro: Dá-lhe aviso, em como o Belga tinha Três naus, nas três passagens, que primeiro, Em tempo de águas vivas, nos serviam Por onde à Ilha os Portugueses iam.
Com esta festa, de que aqui se fala, Era do glorioso Santo Antônio, Notai o que ordenou para estorvá-la O maldito, e Flamígero Demônio: Lucideno o aviso escuta, e cala, Qual astuto, e sagaz LacedeMõnio, Diz-me a Musa, que fale um pouco a prosa, Pois no escrever é mais compendiosa.
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