ORFEU SPAM APOSTILAS
MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS
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Todos por Um
Santos
Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Oxalá que os poetas românticos do Porto
Calçada do Cordeal
A bola de vidro rola vis-a-vis
Rua do Ouro
Chora, porquê? Ora, chora.
Seis horas. Foi-se o pessoal.
A um rato morto encontrado num parque
Fidelidade Tantos pintores... |
O Jovem Mágico
O jovem mágico das mãos de ouro que a remar não se cansa muito e olha muito depressa (como se fosse de moto) veio hoje ficar a minha casa
Vivia longe já se sabia tão longe que era absurdo querer determinar Metade campo metade luz aí era a sua casa o sítio onde era longe
mesmo de olhos fechados (como ele estava) e de braços cruzados (como parecia dormir) o jovem mágico das mãos de ouro que era todo de empréstimo à minha noite
que falou por acaso que nem se chamava assim (segundo também contou) tinha vivido há muito ele, que estava ali, era um falsário um fugido de outro basta ver os meus olhos
nada sabemos de nós a não ser que chegámos sem uma luz a esconder-nos o rosto belos e apavorados de estranhos casacos vestidos altos de meter medo às aves de longo curso
nem há noites assim não há encontros ao longo das enseadas não há corpos de amantes não há luzeiros de astros sob tanto silêncio tão duradouro treva
e não me fales nunca eu sou surdo eu não te oiço eu vou nascer feliz numa cidade futura eu sei atravessar as fronteiras das coisas olha para as minhas mãos que te pareço agora?
No entanto surgiu como simples criança conseguia sorrir sentar-se verter águas com as mãos na cintura livre natural ele que era um fantasma um fugido de outro
um que nem mesmo se chamava assim o jovem mágico das mãos de ouro desaparecido nu de todos os sítios da Terra
Rua do Ouro
Ai dele que tanto lutou e afinal está tão só. Tão sòzinho. Chora. Direcção da Companhia Tantos de Tal. Cincoenta e três anos. Chove, lá fora.
Chora, porquê? Ora, chora. Uma crise de nervos, coisa passageira. É, talvez, pela mulher que o adora? (A êle ou à carteira?)
Seis horas. Foi-se o pessoal. O homem que venceu está sòzinho. Mas reage:que diabo. Afinal... E olha para o cofre cheínho.
Sim estou só ainda bem porque não? ele diz batengo com os punhos na mesa. Lutei e venci. Sou feliz E bate com os punhos na mesa.
Seis e meia. Ó neurastenia o homem que venceu está de borco e sente uma grande agonia que afinal é da carne de porco que comeu no outro dia.
É da carne de porco ele diz vendo a chuva que cai num saguão. É da carne de porco. Sou feliz. E ampara a cabeça com as mãos.
Durante toda a vida explorou o semelhante. Por causa dele arruinaram-se uns cem. Agora, tem medo. E o farsante diz que é feliz diz que está muito bem.
Sim, reage. Que diabo. Terei medo? E vê as horas no relógio vizinho. Mas, ai, não é tarde nem cedo. Ele, que venceu, está sòzinho.
Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros Os outros, os que o queriam vencer! Arruinou-os, matou-os aos poucos. Então não o queriam lá ver?
Sim, reage: Esta noite a Leonor amanhã de manhã o Sàlemos e depois? Ah o novo motor veremos veremos veremos
Mas pouco do que diz tem sentido. Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho. O homem que venceu está vencido. O dinheiro tapou-lhe o caminho.
Os filhos? esperam que êle morra. A mulher? espera que êle morra. O sóciuo? Pede a Deus que êle morra! Só a Anita não quer que êle morra!
Ai, maldita carne, murmura vendo a água que há no saguão. Tinha demasiada gordura! E veste o casaco e o gabão.
Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se. Vai sair. Talvez vá jantar? É inverno. Lá fora, faz frio.
O homem que venceu matou-se na margem mais escura do rio ao volante dum belo Packard
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