ORFEU SPAM APOSTILAS
HELDER MACEDO nasceu em 30 de Novembro de 1935.
O seu primeiro livro de poemas foi Vesperal (Colecção Folhas de Poesias, Lisboa, 1957). O mais recente é uma antologia poética reúne selecções de dez títulos: Viagem de Inverno e Outros Poemas (Editora Record, Rio de Janeiro, 2000).
Publicou três romances, com edições em Portugal (Editorial Presença) e no Brasil (Editora Record): Partes de África, Pedro e Paula e Vícios e Virtudes. Pedro e Paula será publicado em tradução italiana (Einaudi) e espanhola (Tusquets) em 2001.
É também autor de uma vasta obra ensaística, da qual o livro mais recente foi, Viagens do Olhar: Retrospecção, Visão e Profecia no Renascimento Português (Campo das Letras, Porto, 1998), escrito em colaboração com Fernando Gil (Prémio do PEN Clube Português e Prémio Jacinto do Prado Coelho da Associação Internacional dos Críticos Literários).
Reside em Londres, onde é professor catedrático de estudos portugueses no King's College (Camoens Professor of Portuguese). Foi Secretário de Estado da Cultura em Portugal, no governo de Maria de Lourdes Pintassilgo, (1979).
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[Principiamos onde o outro acaba]
Principiamos onde o outro acaba pois um ao outro oferecemos mais que a verdade consentida a cada um, a vida inteira descobrindo nossa no mistério paralelo revelado.
[Nunca mais rosas mancharão teu ventre]
Nunca mais rosas mancharão teu ventre que eu desvendei para poder partir. Ganhei a vida quando te perdi.
Conhemos juntos o cair da noite escorriam dedos pelo teu cabelo. Nunca mais rosas meu amor perdido.
Alfange branco decepando o abismo, sonho crispado no que fôra angústia, dor libertada.
[Os laços lentamente deslaçados]
Os laços lentamente deslaçados ergo o meu canto sem razão nem regra ao mundo sem fronteiras que me afronta. O rosto que compus já não comporta o fogo original que aprisionou. Falso destino meu que me guiaste além de onde é possível fingimento, se a alma gretaste de raízes ocas, às verdadeiras que já não comando, deste o caminho que tinha vedado. E sei agora, que me desconheço, que só inteiro poderei voltar ao fértil todo amorfo donde fim. Cinco poemas de Viagem de inverno 2 Um salto de raposa sobre a estrada último sol à beira da fronteira. Depois somente a sombra duma lua diurna a câmara dos ecos e círculos de corvos sobre a neve.
Viagem de inverno metáfora fechada deslizando em espelho opaco gotícula de sémen pulsando sobre pele infecundada contexto desconexo
viagem literalmente de inverno literalmente viagem por estradas escorrendo rios turvos nas ondas congeladas das montanhas com troncos encravados mastros brancos de frotas soterradas
até que muito ao Leste o hotel aberto vazio e duvidoso galo campestre em luxo desplumado e onde o chefe já perdera a estrela por exagero de maçã nos molhos.
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7 Paguei a conta da viagem grátis anos depois a prestações com juros agravados quando era já difícil recordar para onde vim e ao que vinha quando aqui cheguei.
Não sobra nunca muito a quem só chega nem o regresso que seria outro chegar ao não-lugar que só existe no se ter deixado e assim ficou como um jardim coberto em selva escura.
Tenho ainda o recibo e a mala velha onde trazia o guia de turismo traduzido da língua original que já esqueci ou nunca soube noutra língua também desconhecida.
18 O laranjal coberto de limões
no corpo suculento da memória os sulcos desgastados do inverno
no areal perene das marés músculos frouxos celulite veias
em ti amor em ti no que nós somos o incenso e a mirra do desejo
a erecção precária e persistente nos lábios das entranhas do luar
a noite a luz a sombra a madrugada.
20 Fui ver e era mesmo uma raposa como a outra que atravessou a estrada aguardando deitada na varanda onde o gato capado dorme os dias indiferente à vida libertária em bocejos de carnes enlatadas.
Se a raposa chamava tinha de ir dei ao gato a ração obrigatória e a varanda era a selva a rua o mar a raposa vermelha um autocarro dos que não chegam nunca ou já passaram e exigem sempre o pagamento exacto.
Donde parece que a moral da história ficou suspensa entre raposa e gato num protesto aos transportes colectivos quando afinal a rua extravasou a selva é sem regresso e sem saída e todo o viajante é solitário.
23 Eu sabia por ela as estações os esquilos os corvos as gaivotas. Chegada a primavera abria os nós em flores precipitadas e carnudas de longas redondezas tacteantes que batiam no vidro da janela. Não dava fruto a minha castanheira e na verdade não era sequer minha ou só seria porque nos olhámos cada manhã por mais de trinta anos. Mas dava flores e esquilos e gaivotas verão outono corvos primavera sem contabilidades biológicas doutras fertilidades transmissíveis. Dava flores como se desse versos sem precisar por isso de escrevê-los como os amantes se amam num só corpo sem ver onde um começa e o outro acaba aberta toda em lábios vaginais com uterinos longos falos brancos. Também este ano floriu no tempo certo. Mas o inverno chegou em plenas maias. Disseram que a raiz rachou ao meio que o centro do seu tronco estava oco não percebiam como tinha flores. Cortaram membro a membro a minha árvore ficou só a raiz e o seu vazio e sobre o campo em volta a neve quente das suas flores perplexas impossíveis.
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