ORFEU SPAM APOSTILAS
Alexandre O'Neil
Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões (1924-1986) nasceu e faleceu em Lisboa. Dedicou-se à publicidade e desde cedo se juntou às primeiras manifestações do Surrealismo em Portugal. Publica em 1948, e dentro desta corrente, o volume de colagens A Ampola Miraculosa, integrado na colecção dos Cadernos Surrealistas. Afasta-se do grupo surrealista e colabora nos Cadernos de Poesia. Obras: No Reino da Dinamarca (1958), Abandono Vigiado (1960), Poemas com Endereço (1962), Feira Cabisbaixa (1965), De Ombro na Ombreira (1969), As Andorinhas não têm Restaurante (1970), Entre a Cortina e a Vidraça (1972), A Saca de Orelhas (1979), Uma Coisa em Forma de Assim (1980), As Horas já de Números Vestidas (1981).
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Redacção
Uma senhora pediu-me
Não de amor por ela,
À parte aquelas
Sem objecto, o poema
Amigo
Mal nos conhecemos
«Amigo» é um sorriso
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Não o erro perseguido, explorado, «Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Há Palavras Que Nos Beijam
Há palavras que nos beijam Como se tivessem boca, Palavras de amor, de esperança, De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas Quando a noite perde o rosto, Palavras que se recusam Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas Entre palavras sem cor, Esperadas, inesperadas Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama Letra a letra revelado No mármore distraído, No papel abandonado)
Palavras que nos transportam Aonde a noite é mais forte, Ao silêncio dos amantes
Soneto a duas mãos
A mão que me sustenta e eu sustento é mão capaz das vinte e cinco linhas e do selado azul de um requerimento ou doutras diligências comesinhas...
Habituada por secretarias, esperta, decidiu de um grave acento, a vírgulas guindou torpes cedilhas e mastigou papel, seu alimento...
Contraiu calos, revoltou-se às vezes, contra certos despachos, tão soezes que até o dedo auricular se ria...
Com dois dedos de aumento se curvava e logo, altiva, à esquerda se mostrava... Agora? Estão as duas na poesia...
Inventário
Um dente d'ouro a rir dos panfletos Um marido afinal ignorante Dois corvos mesmo muito pretos Um polícia que diz que garante
A costureira muito desgraçada Uma máquina infernal de fazer fumo Um professor que não sabe quase nada Um colossalmente bom aluno
Um revolver já desiludido Uma criança doida de alegria Um imenso tempo perdido Um adepto da simetria
Um conde que cora ao ser condecorado Um homem que ri de tristeza Um amante perdido encontrado Um gafanhoto chamado surpresa
O desertor cantando no coreto Um malandrão que vem pe-ante-pé Um senhor vestidíssimo de preto Um organista que perde a fé
Um sujeito enganando os amorosos Um cachimbo cantando a marselhesa Dois detidos de fato perigosos Um instantinho de beleza
Um octogenário divertido Um menino coleccionando estampas Um congressista que diz Eu não prossigo Uma velha que morre a páginas tantas
Um Adeus Português
Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o mais rigoroso amor a luz dos ombros pura e a sombra duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo à roda em que apodreço apodrecemos a esta pata ensanguentada que vacila quase medita e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira onde passo o dia burocrático o dia-a-dia da miséria que sobe aos olhos vem às mãos aos sorrisos ao amor mal soletrado à estupidez ao desespero sem boca ao medo perfilado à alegria sonâmbula à vírgula maníaca do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo em trânsito mortal até ao dia sórdido canino policial até ao dia que não vem da promessa puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite gerada por um dia igual
Não podias ficar presa comigo à pequena dor que cada um de nós traz docemente pela mão a esta pequena dor à portuguesa tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces esta roda de náusea em que giramos até à idiotia esta pequena morte e o seu minucioso e porco ritual esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira da cidade onde o amor encontra as suas ruas e o cemitério ardente da sua morte tu és da cidade onde vives por um fio de puro acaso onde morres ou vives não de asfixia mas às mãos de uma aventura de um comércio puro sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante que vai ser que já é o teu desaparecimento digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti
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Soneto
Sonetos garantidos por dois anos. E é muito já, leitor que mos compraste Para encontrar a alma, que trocaste Por rádios, frigoríficos, enganos ...
Essa tristeza sobre pernas faz-te Temeroso e cruel e tonto e traste. Nem pior nem melhor que outros fulanos, Não vês a Bomba e crês nos marcianos ...
E é para ti que escrevo, é para ti Que um verso lanço - O mão! - como o destino, e nele ponho mesura, desatino,
Rasgo, invenção, lugar-comum, protesto? Antes para soldado ou para resto, Escroto de velho, ronco de suíno ...
Velha Fábula em Bossa Nova
Minuciosa formiga não tem que se lhe diga: leva a sua palhinha asinha, asinha.
Assim devera eu ser e não esta cigarra que se põe a cantar e me deita a perder.
Assim devera eu ser: de patinhas no chão, formiguinha ao trabalho e ao tostão.
Assim devera eu ser se não fora não querer.
(-Obrigado, formiga! Mas a palha não cabe onde você sabe...)
Gaivota
Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro, dos sete mares andarilho, fosse quem sabe o primeiro a contar-me o que inventasse, se um olhar de novo brilho no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida as aves todas do céu, me dessem na despedida o teu olhar derradeiro, esse olhar que era só teu, amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração no meu peito morreria, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu o meu coração.
A meu favor
A meu favor Tenho o verde secreto dos teus olhos Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor O tapete que vai partir para o infinito Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor As paredes que insultam devagar Certo refúgio acima do murmúrio Que da vida corrente teime em vir O barco escondido pela folhagem O jardim onde a aventura recomeça.
Portugal
Ó Portugal, se fosses só três sílabas, linda vista para o mar, Minho verde, Algarve de cal, jerico rapando o espinhaço da terra, surdo e miudinho, moinho a braços com um vento testarudo, mas embolado e, afinal, amigo, se fosses só o sal, o sol, o sul, o ladino pardal, o manso boi coloquial, a rechinante sardinha, a desancada varina, o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos, a muda queixa amendoada duns olhos pestanítidos, se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos, o ferrugento cão asmático das praias, o grilo engaiolado, a grila no lábio, o calendário na parede, o emblema na lapela, ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato!
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Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos, rendeiras de Viana, toureiros da Golegã, não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço, galo que cante a cores na minha prateleira, alvura arrendada para ó meu devaneio, bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, golpe até ao osso, fome sem entretém, perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, rocim engraxado, feira cabisbaixa, meu remorso, meu remorso de todos nós...
O tempo dum corisco
Dos turcos desce a palavra e aqui entreluz, naufraga.
A palavra a ninguém salva.
Melhor metê-la, sem esperança, sem recado, na garrafa.
Sempre é da minha lavra.
Duas moscas ou a mesma? 1 - Onde já vi esta mosca? - Mas em toda a parte, filha, desde o bolo de noivado à minha tépida v'rilha!
2 Eis a mosca popular aferroada aos miúdos, avioneta escolar para fugir aos estudos!
A saca de orelhas Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes 1 Não te ataques com os atacadores dos outros. Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção. 0 mesmo deves fazer com os açaimos. E com os botões.
2 Não te candidates, nem te demitas. Assiste. Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira. Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.
3 Tira as rodas ao peixe congelado, mas sempre na tua mão.
Depois, faz um berreiro.
Quando tiveres bastante gente à tua volta, descongela a posta e oferece um bocado a cada um.
4 Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre um caixote com serradura à tua espera. Pode haver. Se houver, melhor...
Esta deve ser a tua filosofia.
5 Tudo tem os seus trâmites, meu filho! Não faças brincos de cerejas sem te darem, primeiro, as orelhas.
Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.
6 Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que te puseram em cima da cabeça? Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.
É provável que te sintas logo muito melhor.
Sai, então, de baixo da pedra.
7 Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra. Poderias atrapalhar os trabalhos. Os de pedra sobre pedra, entenda-se.
Mas dá sempre um "Bom dia!" ao pessoal do estaleiro. Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.
8 Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia. Oxalá o consigas!
(...)
11 Resume todas estas sentenças delirantes numa única [sentença: Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa
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