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Décio Pignatari

(Jundiaí SP 1927)

Publicou, em 1949, os poemas Noviciado e Unha e Carne na Revista Brasileira de Poesia. Na época, integrava o Clube de Poesia, em São Paulo SP, liderado por poetas e críticos da Geração de 45. Em 1952 fundou o Grupo Noigandres, com Augusto de Campos e Haroldo de Campos, que publicou cinco antologias poéticas. Entre 1956 e 1957 participou do lançamento oficial da Poesia Concreta na Iº Exposição Nacional de Arte Concreta, no MAM/SP e no saguão do MEC/RJ. Publicou, em 1958, o Plano-Piloto para Poesia Concreta, em co-autoria com Augusto de Campos e Haroldo de Campos, em Noigandres n.4. Nas décadas seguintes, traduziu várias obras em francês, inglês e russo. Foi um dos criadores da editora e da revista Invenção, lançada em 1962 como veículo da Poesia Concreta. Em 1964 lançou o Manifesto do Poema-Código ou Semiótico, com Luiz Angelo Pinto. Foi membro-fundador da Associação Internacional de Semiótica, em Paris (França), em 1969. Nas décadas de 1980 e 1990 colaborou em vários periódicos, entre os quais a Folha de S. Paulo, e foi professor de Semiótica e Comunicação da FAU/USP. Publicou vários livros de ensaios, entre eles Cultura Pós-Nacionalista (1998). Sua obra poética inclui os livros Carrossel (1950), Exercício Findo (1958), Poesia pois é Poesia (1977) e Poesia pois é Poesia, 1950/1975. Poetc, 1976/1986 (1986). Décio Pignatari, criador do poema-código e semiótico, é um dos principais nomes da poesia Concreta.

 

beba coca cola
babe         cola
beba coca
babe cola caco
caco
cola
         c l o a c a

 

 

ra terra ter

rat erra ter

rate rra ter

rater ra ter

raterra terr

araterra ter

raraterra te

rraraterra t

erraraterra

terraraterra

 

 

caviar o prazer

prazer o porvir

porvir o torpor

contemporalizar

 

 

abrir as portas

abrir as pernas

abrir os corpos

 

     um
         movi
         mento
     compondo
    além
                  da
 nuvem
       um
     campo
           de
     combate


         mira
     gem
            ira
                 de
        um
             horizonte
puro
      num
          mo
          mento
  vivo

 

 

O Lobisomem

O amor é para mim um Iroquês

De cor amarela e feroz catadura

Que vem sempre a galope, montado

Numa égua chamada Tristeza.

Ai, Tristeza tem cascos de ferro

E as esporas de estranho metal

Cor de vinho, de sangue, e de morte,

Um metal parecido com ciúme.

 

(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar

Onde estou à mercê:

É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,

Passando por entre uns arvoredos colossais

Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).

 

Outro dia eu senti um ladrido

De concreto batendo nos cascos:

Era o meu Iroquês que chegava

No seu gesto de anti-Quixote.

Vinha grande, vestido de nada

Me empolgou corações e cabelos

Estreitou as artérias nas mãos

E arrancou minha pele sem sangue

E partiu encoberto com ela

Atirando-me os poros na cara.

E eu parti travestido de Dor,

Dor roubada da placa da rua

Ululando que o vento parasse

De açoitar minha pele de nervos.

Veio o frio com olhos de brasa

Jogou olhos em todo o meu corpo;

Encontrei uma moça na rua,

Implorei que me desse sua pele

E ela disse, chorando de mágua,

Que era mãe, tinha seios repletos

E a filhinha não gosta de nervos;

Encontrei um mendigo na rua

Moribundo de fome e de frio:

“Dá-me a pele, mendigo inocente,

Antes que Ela te venha buscar.”

Respondeu carregado por Ela:

“Me devolves no Juízo Final?”

Encontrei um cachorro na rua:

“Ó cachorro, me cedes tua pele?”

E ele, ingênuo, deixando a cadela

Arrancou a epiderme com sangue

Toda quente de pêlos malhados

E se foi para os campos da lua

Desvestido da própria nudez

Implorando a epiderme da lua.

Fui então fantasiado a travesti

Arrojado na escala do mundo

E não houve lugar para mim.

 

Não sou cão, não sou gente - sou Eu.

 

Iroquês, Iroquês, que fizeste?