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Dario Vellozo (Rio de Janeiro, 1869 - Curitiba,1937)
Dario Vellozo mudou-se para Curitiba em 1886, cidade em que vem a desenvolver praticamente toda sua obra. Trabalhou no jornal Dezenove de Dezembro, cursou o Partenon Paranaense e o Inst. Paranaense. Em 1909 fundou o Instituto Neo-Pitagórico, baseado em sua filosofia helênica que buscava revivências da festa da primavera. Editava ele mesmo seus livros e os anais do Instituto. Discípulo de doutrinas ocultistas, lia e divulgava as obras de Swedenborg, Saint-Martin, Papus, Stanislas de Guaita, Fabre d’Olivet, além do satanismo de Huysmans, a poesia simbolista em geral e Dante Alighieri.
Tinha sempre em alta conta a poesia de Verlaine, Mallarmé, Baudelaire, Eugênio de Castro e Cruz e Sousa.
Fundou a revista O Cenáculo (1895-1897) e participou de várias outras: Revista Azul, Esfinge, Ramo de Acácia, Pitágoras, Brasil Cívico.
Obras: Poesia: Efêmeros (1890); Esquifes (1986); Alma Penitente (1897); Hélicon (1908); Rudel (1912); Cinerário (1929); Atlântida (1938).
Argonauta
A João Itiberê
I
Flambelantes leões de áurea juba inflamada
Rugem na carne em flor - sol de ouro a rutilar...
Soam trompas, flamejam púrpuras, fanfarras
Troam.
Asas abrindo, a galera entra a vogar...
(Galeras! Frota do Amor, da quimera passada!)
Vai-se! Levando as amarras,
Soltas no mar as amarras
Leão de asas sobre o mar!
Carne! Flama do Irã! Jarra de Babilônia,
De fragrâncias fidalgas!
Astartéia, domando os ciclopes da Iônia!...
Nostalgia das algas!
Saudades de Ísis morta, entre lótus, boiando!
Quem esgotou do Amor as fragrâncias fidalgas?
Babilônia, eu te vejo, entre flamas brilhando!
Flambelantes leões! - desejos que rugiam
Na trirreme do Sonho, em meu sangue levada,
E para o Coração, entre flamas, subiam...
Argonauta! - que importa a loucura passada?
Soam trompas de novo, e de novo fanfarras
Ouço troar...
Solta às frotas do Amor as brilhantes amarras!
Ah! Mas que nostalgia há nas vagas do mar!...
Ísis, talvez, que vai passando...
Ísis que vai recordando
Velho idílio de amor sob a luz do luar!...
...............................................................
II
Ai, sortilégio! Ai, malefício!
Alma, onde vai, triste e perâmbula?
A que suplício,
Argonauta do amor, de minha alma sonâmbula?
Ísis,, que Gênio as minhas frotas guia
Para esse Além misterioso?
Frotas de opala... da nostalgia...
Frotas de um sonho delicioso.
Sei que me levas, Argonauta!...
A que regiões do Além sidéreo?
Frotas de opala!... Ai, Nauta, Nauta!
Vamos vogando para o Mistério!...
Cruz e Sousa
(19-3-98)
A Leôncio Correia
Passa no Azul, cantando, uma trirreme de ouro...
Velas pandas... No Azul... Que levita inspirado
Reza o ebúrneo Missal, de um requinte ignorando,
Entre astros monacais e iatagãs de mouro?!...
Rutilam brocatéis de púrpura e de prata...
Fulgem Broqueis, à popa... A trirreme estremece...
Ísis! - quem te acompanha a estranha serenata
E para o Além da Morte entre os teus braços desce?!...
A morte é a eternidade; é um poente de Outono...
Mago! - tu vais dormir o glorioso sono
Entre Broqueis de ônix, e iatagãs de mouro...
Vais dormir!... Vais sonhar!... (Nobre e celeste oblata!)
Segue no Azul, cantando, uma trirreme de ouro...
Rutilam brocatéis de púrpura e de prata.
No Reino das Sombras
Plenilúnio. O luar molha as colunas dóricas...
Junto ao pronau medito, evocando o teu rosto.
Que saudade de ti, dessa tarde de Agosto,
De tintas outonais e visões alegóricas!
Saudade!... O coração lembra idades históricas...
Na Atlântida eras tu pitonisa... Ao sol posto,
Dizias da alma irmã os arcanos... Teu rosto
Banhava-se na luz das estrelas simbólicas...
Tantas vezes perdida! Imerso em luz ou treva,
De vida em vida, à flor do céu, te procurava,
Na dor da solidão... e, quando a lua eleva
A lâmpada votiva, eu te procuro ainda,
-Alma branca,alma irmã,alma em flor, alma eslava-,
Na poeira de sóis da solitude infinda.
Palingenesia
Ocaso! Opalas e amaranto,
Jalne e opala;
Curva azul de horizontes,
Montes...
Além, o Sol trescala
Ânforas de óleo-santo,
Lírio e nenúfar...
Unção da Noite, prece.
Voguemos!
O Ocaso é mar
De violetas e crisântemos...
Ceifeiro a messe
De meu amor vai ceifar!
O Sol mergulha,
E a Noite crepes negros estende,
Crepes da alma,
Luto da alma,
Crepes sobre o mar!
Esperança! Esquife de hulha!
Impiedade,
Crueldade,
Esperança - Flor dos Lírios - vão te incinerar!
Carregam traves...
Fumega a pira!
Lira,
Entra a cantar!
Ó Torre do Ideal, fechada a sete chaves,
Torres de ametista e de luar!
Abri-vos!
Quero subir, subir mui alto,
Sobre a Terra, no Azul, além! - no Astral...
(Lázaros! Sonhos, meus! Espectros redivivos!)
As tuas sete chaves, Torres do Ideal!
No asfalto
Esporas tinem, de caveleiro...
(Quem abrira?)
Esporas de ouro de cavaleiro!
Cavaleiro ou coveiro?
Alguém... do Au délà...
Velas ao Oriente...
O Oriente é mar.
Ave, Istar!
Morro de frio em minha ermida branca,
Alva de luar...
Urzes crescem na ermida,
Urzes da vida,
Urzes da ermida branca...
Que mão de piedade arranca
Urzes de bruma de meu tédio, Istar?
Mendigo
Cego e morto de fome...
Dá-me a luz de teu nome,
O sol de teu olhar!
-Amigo!
-Istar!
Alto e longe!
Minhas vestes de monge
São de chumbo, Istar;
Prendem-me à Terra,
Vestes de húmus: corpo, algar!
-Benze-me! Asperge-me com um ramo de alecrim!
Mirífica, eleva-me!
Eterífica, eleva-me!
Sete chaves! Torre de Marfim!
Arcano da Harmonia,
Harpa ceciliana,
Soberana!
Horto de Anael!
Tens a meiguice de Maria,
Rachel!
Tens a meiguice de olhar de monja,
Istar.
Meu olhar é uma esponja
Que bebe a luz de teu olhar,
Vais tão alto e tão longe!
Cego! Que serei eu?
Monge
Que nos reps da noite se envolveu.
Atanor,
Terra,
Em teu cálix de húmus e de amor
Encerra
Meu corpo, ó Mãe misericordiosa!
E meu astral
No seio de uma rosa
Irá brilhar...
Lírio escultural,
Istar,
No cálix de esperança de teu olhar.
Vais alto longe e distante...
Para o Levante?
Para o Poente?
Onde quer que tua alma se ausente,
Minha ermida levanto,
À luz de ocasos de amaranto,
Saudosamente,
Discretamente,
Nos sete palmos de um campo-santo.
Paredra
Vênus pagã, olhos de sete-estrelo,
A cabeleira rútila fulgindo...
Amei-te!... amor, nos olhos teus fulgindo,
Volúpia; luz do sol de teu cabelo.
A luxúria findou. Astro maldito,
Rolei do azul aos pélagos hiantes...
Procurava a minha alma... além, distantes,
Lótus colhi nos edens do Infinito.
Morreste. Ao val da Sombra, compungido,
Boa que foras para meus delírios,
Levei teu nobre coração partido.
Só então, osculando o altar de pedra,
À luz morrente de funéreos círios,
Tua alma ouvi... - a minha Irmã, Paredra.
ATLĀNTIDA - poema épico
[do Prelúdio]
Íon, no Espaço
Poeira komica na amplidão,
-Terra!-
Num círculo de aço,
Na órbita que o Destino retraçou;
Terra de servidão!...
Terra de expiação!...
Terra de redempção!...
Dominínio de Mayá, - a encantadora,
Que vida e morte encerra,
De philtros cheia a ânfora sonora;
-TERRA!-
Um mundo para o Homem,
Cujo corpo o teu limo formou;
Um nada do Infinito;
Penumbra das almas, cuja essência
A Essência Eterna irradiou;
Caçoula em que Formas se consomem,
Quando a alma revoa,
Livre à Carne, ao Desejo, que agrilhoa!...
-Terra!
[Canto I: A Morte de Poseidonis]
(...)
Inquire o Mago:
-Á proa, à proa... A onda esconde
Neste momento, Mestre, o cimo que rebrilha...
Olhai-o agora!... Vede!... aumenta e maravilha.
-É, Runá, de Tupã Boiera, a serra imensa,
A terra dos palmais que das ondas se adensa.
Pindorama, o país das tribos temerosas,
-A taba hospitaleira, as almas valorosas.
Sumakê, tu serás o íris da esperança;
A redourar na rede o sonho de criança;
Runá, - de Paititi a cidade fulgor
Levantarás, - e ireis com denodo e labor
Edificando o Reino, Atlântida futura,
De beleza moral e sublime cultura.
Servidores leais dos Santuários Brancos,
Dos Goécios contereis os terríveis arrancos.
A Magia do Bem vencerá a do Mal:
O Amor expungirá o culto de Baal.
Os templos do deus LUZ a Concórdia, a Amizade
Ao país levarão, de cidade em cidade.
A Flama brilhará na altiva Cordilheira,
Fanal - esclarecendo a Humanidade inteira.
Os pósteros virão das lindas do Planeta,
Pés roxos, a sangrar, do arrocho da calceta.
E a todos abrireis as plagas e os palmares,
E ditosas sereis na paz de vossos lares.
[Canto II: O Reino de Paititi]
(...)
-Tu conheces, Aztlan, a Ciência dos Magos,
Sabes a LEI, o termo a que a Razão atinge,
Os arcanos da ESTRELLA, a visão dos oragos,
A voz do Teocallis, o sigilo da Esfinge;
Sabes que o coração é o casulo da vida,
Onde murmura a alma a perene lembrança
Do passado, do além, da forma esvanecida,
De uns olhos de mulher, de um riso de criança;
Tu sabes que a MATÉRIA é maga e feiticeira,
Faz e desfaz; - é Água, é Ar, é Fogo, é Terra;
É onda que marulha, estrela condoreira,
É favônio que ameiga, é tormenta que aterra.
Eterno - o TEMPO. Os Kalpas se sucedem...
Os astros se compõem e decompõem;
Da Terra, os continentes que antecedem,
Continentes futuros pressupõem...
Algo os Antis possuem dos Lemúrios;
Mas, todo o seu saber dos Atlantes vem;
Seus costumes, ciência, aras e augúrios
Da Atlântida longínqua sobrevem.
[Canto III: O Roteiro Sagrado]
(...)
Maviosa manhã. Os pássaros e as flores
A alma da Natureza irradiavam;
As flores - eram asas multicores,
Os passarinhos - flores que cantavam.
Caricia a Guanabara: as ondas mansas,
-Guanumbis voejantes, - rutilavam;
Era o céu breviário de esperanças
Que às montanhas as brisas confiavam.
Junto a frondoso ipê o chefe e a filha.
De Miriti o lábio lhe dizia
A dor de Sumakê: - Era uma ilha
O seu olhar que o pranto submergia...
E falou-lhe o Pagé:
-Cacique forte,
Entre os fortes da terra, Sumakê
Asa precisa, mais veloz que a morte,
Que a leve junto ao Pai... O Mestre vê
Descendo já da Noite a rampa... Crê,
Não regresse jamais do extremo Norte.
-E que pensas, Pagé?
-A lei cumpramos
Da hospitalidade, obedeçamos
Ao ESPÍRITO SUPREMO. 9;
-Dizes bem!... - Sumakê, a onda leve
Quando queres cortar?...
-Breve, o mais breve!
-Hoje mesmo. Verás que o duro remo
Ao rijo punho do Tamoio verga;
A costa e a mata a vista mal enxerga
Na rápida passagem... Teu gemido
Cala no peito; lava de alegria
Os olhos tristes e a alma... Antes que o dia
Suba ao meio do céu, terás partido.
[Canto IV: No limiar dos Mistérios]
(...)
-Mestre, - inquire o Piaga, -
Se eu quisesse aprender da Atlântida a Ciência,
Onde a iria encontrar?
Poseidonis ruiu... A sombra vaga
Na memória dos homens... A demência
Do Mar afogou-a no mar!...
Nenhum vestígio!... Templos e muralhas,
Os papiros sagrados, - Runá disse, -
Perderam-se também;
Velam a terra líquida mortalhas;
Chocam-se as ondas, como quem carpisse...
E a voz dos Ecos: -Nada mais!... Ninguém...
Nos olhos do Piaga o olhar do Mago
Lento cruzou, fixou-se... Perscrutava
O pensamento íntimo que o afago
Das palavras do jovem revelava.
Intenso e terno o olhar de Aztlan,
Nostálgico e profundo,
Tons da saudade e piedade vã,
Nos ocasos de um mundo.
Nos esmaltes do olhar, de estranho magnetismo,
A renúncia da vida, o êxtase divino,
A força de atrair dos abismos do Abysmo
A vítima do Amor, o exausto Peregrino.
A renúncia da vida!...
A morte do Desejo!...
O almejo
Da grande Solitude!...
O almejo do Silêncio, o almejo imenso
De subir para DEUS numa espiral de incenso,
De encontrar no INFINITO a vereda perdida,
De imergir no NIRVANA em toda plenitude!
DEUS!
A ESSÊNCIA ETERNA, a Eviterna Substância,
UMA e infinita;
O sorriso da Infância,
O ósculo da LUZ, a asa, o adeus...
A alma que volve aos céus e nos astros palpita.
DEUS: A Causa sem Causa, o mistério da ESFINGE...
[Canto V: Céltida Druidica]
(...)
Sacrifícios humanos! Sangue a rodo,
Sangue que as Larvas bibulas absorvem,
Do alto monte de Morven
Baixando,
Tumultuando,
Negrejando
O horizonte...
Lodo!
Sacrifícios humanos!... Rubra fonte
De sortilégios e de malefícios!...
Do alto monte
Que Ossian celebrou,
A luz das madrugadas
Foge... Edifício de ossadas
Que a Morte acumulou,
Monte de sacrifícios
Onde a lâmpada antiga se esgotou.
[Canto VI: Athene]
(...)
ATHENAS!
Um prelúdio de sol na ânfora da noite...
Um prelúdio de sol!...
Prelúdio!... - Dilúculo nascente,
Áureo-purpúreo arrebol
De uma aurora que surge a aclarar o OCIDENTE!...
Ouro-carmíneo, ouro-lilás, ouro de opala,
Ouro de asas de falenas,
Íons de luz, de aroma...
Íons que exala
A Flor de Lótus da alvorada
No constelado manto de Urânia.
[Canto VII: Terra Universal]
(...)
Que o Destino se cumpra!
Que da ATLÂNTIDA o Gênio a mente forme
Do homem fraternal!
E seja a Terra dos Palmares,
Na UNIDADE - intangível,
A Pátria Universal,
A TERRA UNIVERSAL!
Aeronaves da PAZ, - por sobre a Terra
Abre as asas da FRATERNIDADE!
Ma suprema Cultura a PAZ se encerra,
É o Estado civil;
Chave de um ciclo - a ATLÂNTIDA descerra
As Portas de Ouro do Brasil.
O povo do BRASIL: - um hino à LIBERDADE,
O ouro do BRASIL: - o amor à HUMANIDADE!
Do passado remoto ergue-se a voz da ATLÂNTIDA,
Na aurora que desponta,
Linda voz matinal
De arauto e de adail:
- A exaltação da Pátria Universal,
A exaltação da TERRA UNIVERSAL!
E na abóbada azul a luz que monta,
O canto rosicler da inspirada Profântida,
Asa espiritual,
Asa branca e sutil,
A legenda da História,
O lema da vitória:
ATLÂNTIDA: - BRASIL!
(Apostila 5 de Simbolismo - Literatura Brasileira)