ORFEU SPAM APOSTILAS
Luis Aranha
(São Paulo SP, 1901 - Rio de Janeiro RJ, 1987)
Participou, em 1922, na Semana de Arte Moderna, em São Paulo. Entre 1922 e 1923 colaborou na revista modernista Klaxon, publicando os poemas O Aeroplano, Paulicéia Desvairada, Crepúsculo e Projetos. Em 1926, formou-se bacharel na Faculdade de Direito de São Paulo. Nomeado por concurso para o Ministério das Relações Exteriores, em 1929, serviu, nos anos seguintes, em Portugal, Itália, Vaticano, Venezuela, Chile, Alemanha, Japão e Ceilão. Teve alguns de seus poemas publicados no artigo Luis Aranha ou a Poesia Preparatória, de Mário de Andrade, na Revista Nova, em 1932. O artigo foi publicado novamente em 1943, como parte integrante do livro Aspectos da Literatura Brasileira. Em 1938 foi delegado do Brasil na Conferência Panamericana, em Lima (Peru). Em 1946, integrou o conselho da Delegação Brasileira na Conferência da Paz, em Paris (França). Seus poemas foram reunidos e publicados em 1984, no livro Cocktails, editado por Nelson Archer. Luis Aranha pertence à primeira geração do Modernismo; sobre sua poesia afirmou o crítico Antonio Risério: "a obra incompleta de Luis Aranha aponta para o futuro. Seus poemas estão entre as criações mais arrojadas que o modernismo produziu em seus disparos iniciais. Um projeto poético inovador, radical, engajado até a medula na criação de uma poesia adequada às novas realidades do mundo urbano-industrial.".
Poema Pitágoras
Meu cérebro e coração pilhas elétricas
Arcos voltaicos
Estalos
Combinações de idéias e reações de sentimentos
O céu é uma vasta sala de química com retortas cadinhos tubos provetes e todos os
Vasos necessários
Quem me quitaria de acreditar que os astros são balões de vidros
Cheios de gases leves que fugiram pelas janelas dos laboratórios
Todos os químicos são idiotas
Não descobriram nem o elixir da longa vida nem a pedra filosofal
Só os pirotécnicos são inteligentes
São mais inteligentes do que os poetas pois encheram o céu de planetas novos
Multicores
Astros arrebentam como granadas
Os núcleos caem
Outros sobem da terra e têm uma vida efêmera
Asteróides asteriscos
Bolhas de sabão!
Os telescópios apontam o céu
Canhões gigantes
De perto
Vejo a lua
Acidentes da crosta resfriada
O anel de Anaxágoras
O anel de Pitágoras
Vulcões extintos
Perto dela
Uma pirâmide fosforescente
Pirâmide do Egito que subiu ao céu
Hoje está incluída no sistema planetário
Luminosa
Com a rota determinada por todos os observatórios
Subiu quando a biblioteca de Alexandria era uma fogueira iluminando o mundo
Os crânios antigos estalam nos pergaminhos que se queimam
Pitágoras a viu ainda em terra
Viajou no Egito
Viu o rio Nilo os crocodilos os papiros e as embarcações de sândalo
Viu a esfinge os obeliscos a sala de Karnak e o boi Apis
Viu a lua dentro do tanque onde estava o rei Amenemas
Mas não viu a biblioteca de Alexandria nem as galeras de Cleopatra
Nem a dominação dos ingleses
Maspero acha múmias
E eu não vejo mais nada
As nuvens apagaram minha geometria celeste
No quadro negro
Não vejo mais a sua nem minha pirotécnica planetária
Rojões de lágrimas
Cometas se desfazem
Fim da existência
Outros estouram como demônios da Idade Média e feiticeiros do Sabbath
Fogos de antimônio fogos de Bengala
Eu também me desfarei em lágrimas coloridas no meu dia final
Meu coração vagará pelo céu estrela cadente ou bólido apagado como agora erra
Inflamado pela terra
Estrela inteligente estrela averroísta
Vertiginosamente
Enrolando-o na fieira da Via-Láctea joguei o pião da terra
E ele ronca
No movimento perpétuo
Vejo tudo
Faixas de cores
Mares
Montanhas
Florestas
Numa velocidade prodigiosa
Todas as cores sobrepostas
Estou só
Tiritante
De pé sobre a crosta resfriada
Não há mais vegetação
Nem animais
Como os antigos creio que a terra é o centro
A terra é uma grande esponja que se embebe das tristezas do universo
Meu coração é uma esponja que absorve toda a tristeza da terra
Uma grande pálpebra azul treme no céu e pisca
Corisco arisco risca no céu
O barômetro anuncia chuva
Todos os observatórios se comunicam pela telegrafia sem fio
Não penso mais porque a escuridão da noite tempestuosa penetra em mim
Não posso matematizar o universo como os pitagóricos
Estou só
Tenho frio
Não posso escrever os versos áureos de Pitágoras !...
PAULICÉIA DESVAIRADA
Convulsões telúricas
Estesia
Fendas
Mário de Andrade escreve a Paulicéia
Nem o sismógrafo de Pachwitz mede os tremores do teu
coração
Ebulição
Sarcasmo
Ódio vulcânico
Tua piedade
Escreveste com um raio de sol
No Brasil
Aurora de arte século XX
Como na pintura Annita Malfatli que pintou o teu retrato
Catodografia
Um momento de tua vida estampado no teu livro
Roentgen
Raios X
Mas há todos os brilhos
Ar rarefeito de poesia
Kilômetros quadrados 9 milhões
Tubo de Crookes
Os raios catódicos de teu lirismo colorem as
materialidades incolores
Aquecimento
No tubo
Havia também uma cruz
Tua religião
Fluorescência
Fosforescência
Não és futurista
Há nos teus poemas raios ultravioletas
Torrentes de cores
Teu retrato
Teu livro
Porque o arco-íris é seu pincel
E é tua pena também
CREPÚSCULO
Pantheon de cimento armado
A luz tomba
Refluxo de cores
Mel e âmbar
Há liras de Orfeu em todos os automóveis
Reses das nuvens em tropel
Céu matadouros da Continental
Todas as mulheres são translúcidas
Ando
Músculos elásticos
Andar com a força de todos os automóveis
Com a força de todas as usinas
Com a força de todas as associações comerciais e
industriais
Com a força de todos os bancos
Com a força de todas as empresas agrícolas e as
explorações de linhas férreas
Os capitais amontoados em pilhas elétricas
Forças presidenciais e forças diplomáticas
A força do horizonte vulcânico
As forças violentas as forças tumultuosas de Verhaeren
Sou um trem
Um navio
Um aeroplano
Sou a força centrífuga e centrípeta
Todas as forças da terra
Todas as distensões e todas as liberdades
Sinto a vida cantar em mim uma alvorada de metal
O meu corpo é um clarim
Muita luz
Muito ouro
Muito rubro
Meu sangue
Eu sou a tinta que colore a tarde!
PASSEIO
À noite
Asfalto branco da rua
Meu amigo catedral perto de minha cabana
Garoa
Salto de luz sobre os trilhos da treva
O vento varre meu pensamento
Uma aranha de um metro desce do ar
E o meu guarda-chuva sob o lampião aceso
Drogaria de Éter e de Sombra
DROGARIA
SOCIEDADE ANÔNIMA
Produtos Químicos e Farmacêuticos
Especialidades em artigos para toilette
Perfumarias Finas
Aparelhos e objetos de cirurgia
Importação direta
Atacado e varejo
Preços módicos
Informações gratuitas
As contas são liquidáveis invariavelmente
No fim de cada mês
Vende-se
Livro de Ouro do Veterinário
Manual do Farmacêutico
Formulário de Chernoviz
Tratado de Versificação
Eu era poeta...
Mas o prestígio burguês dessa tabuleta
Explodiu na minha alma como uma granada.
Resolvi um dia,
Incômodo mensal das musas,
Ir trabalhar numa drogaria
E executei o meu projeto.
Processo financeiro dos milionários
norte-americanos
Que via no cinematógrafo:
Multiplicação incessante da riqueza
De ano em ano
Com acumulação dos juros ao capital...
Procriação e desenvolvimento das drogas na prateleira
Pelos métodos científicos moderníssimos...
Prestígio dos comerciantes fortes
Desvalorização crescente da poesia...
Minha musa romântica
Morreu após o seu primeiro parto,
Que foi para a cesta com mal de sete dias.
No centro da cidade,
Triângulo de ouro e sol,
A Drogaria era uma gruta de sombra...
Como na Itália
A gruta do cão
Cheia de ácido carbônico
Na Drogaria o éter tomava conta da atmosfera...
Não obstante,
Minha pituitária se habituou a ele
Como a vista se habitua à sombra...
Armários em toda extensão da casa...
Eu os arrumava na minha inexperiência de empregado novo...
Iniciação.
Oh! Prateleiras da minha mocidade
“Castelo de sonhos” do meu bazar de drogas!
Janelas ogivais correndo sobre trilhos!
Castelãs cheias de rótulos e fórmulas!...
Como era feliz entre vós,
Castelãs que fiáveis
Nos vossos fusos silenciosos
O bordado setíneo das teias de aranha!...
Meu “sonho de ouro”
Contemplação de Urracas namoradas!
Minha cruzada de metal
Oh! Meus cruzados ideais!...
Sabia
O nome a todas as formosas,
Que amava muito mais que vendia mais
Embrulhadas todas em papel de seda,
Mantos de cores nacionais...
Morfina
Cocaína
Benzina
Aspirina
Quina
Sina
Atropina
Examina
Gelatina
Heroína
Fenacetina
Antipirina
Papaína
Exalgina
Digitalina
Aconitina
Estricnina
E tantas outras que não me lembro mais!
(...)
(Apostila 5 de Modernismo de 22 - Literatura Brasileira)