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CASSIANO RICARDO

Cassiano Ricardo Leite

( São José dos Campos SP, 1895 - Rio de Janeiro RJ, 1974)

 

Publicou, em 1915, o volume Dentro da Noite, primeira reunião de sua produção poética, então de estética parnasiana. Em 1917 formou-se em Direito, no Rio de Janeiro RJ, fundou a revista Panóplia e publicou o livro de poesia Evangelho de Pã. Aderiu ao Modernismo, com o livro Vamos Caçar Papagaios (1926), principalmente ao núcleo formado por Menotti del Picchia, Cândido Motta Filho e Plínio Salgado, de linha nacionalista. Em 1932 foi secretário do governador paulista Pedro de Toledo, sendo preso durante a Revolução Constitucionalista. Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1937. Dois anos depois, tornou-se diretor da revista Brasil Novo, do Departamento Nacional de Propaganda (DIP). Entre 1948 e 1952 foi criador, diretor e presidente do Clube de Poesia de São Paulo, além de idealizador do Iº Congresso Paulista de Poesia. Em 1951 dirigiu a editora A Noite. Entre 1953 e 1972 publicou estudos sobre vários poetas, entre os quais Cecília Meireles, Gonçalves Dias e Guilherme de Almeida, e também sobre poesia na técnica do romance e poesia práxis. Em 1960 recebeu o prêmio Jabuti, pelo livro A Difícil Manhã (1960) e, em 1965, ganhou o Prêmio Juca Pato - Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores. No período de 1967 a 1974 foi membro do Conselho Federal de Cultura. A poesia de Cassiano Ricardo está vinculada à primeira geração modernista; no entanto, segundo a crítica Nelly Novaes Coelho, “desde os idos de 1915 (quando Cassiano inicia sua tarefa de poeta) até hoje, sua poesia vem sendo o índice mais eloqüente das várias mutações por que tem passado a poesia brasileira nestes últimos cinqüenta anos.”.

 

 

A Rua

Bem sei que, muitas vezes,
o único remédio
é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
a dívida, o divertimento,
o pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
de contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não,
[apenas,
esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da
[espera.

Nunca é a figura de mulher
do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

 

As Andorinhas de Antônio Nobre

Nos
fios
ten
sos

da
pauta
de me-
tal

as
an
do
ri
nhas
gri-
tam

por
fal
ta
de u-
ma
cl'a-
ve
de
sol

 

Café-Expresso

1
Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada...

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.

E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...

Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...

2
Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...

Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!

 

Ditirambo da Paz

quero paz
não
de pás
de cal
nem de pas-
maceira

quero paz
de pás
ao ombro
paz viva
paz
que mantém
o homem
em pé
na pers-
pectiva
do advir.

paz
de sempre
viva
muito viva
que cada um
de nós
cultiva
no peito
homem da
rua
ou na faina
do eito
lutando por
uma
madrugada
definitiva

 

Meus Oito Anos

No tempo de pequenino
eu tinha medo da cuca
velhinha de óculos pretos
que morava atrás da porta...
Um gato a dizer currumiau
de noite na casa escura...
De manhã, por travessura,
pica-pau, pica-pau.

Quando eu era pequenino
fazia bolotas de barro
que punha ao sol pra secar.
Cada bolota daquela,
dura, redonda, amarela,
jogada com o meu certeiro
bodoque de guatambu
matava canário, rolinha,
matava inambu.

Quando eu era pequenino
vivia armando arapuca
pra caçar "vira" e urutau.
Mas de noite vinha a cuca
com o seu gato currumiau...
Como este menino é mau!

Rolinha caiu no laço...
Ia contar, não conto não.
Como batia o coração
daquele verde sanhaço
na palma da minha mão!

Ah! se eu pudesse, algum dia,
caçar a vida num poema,
em seu minuto de dor
ou de alegria suprema,
que bom que pra mim seria
ter a vida em minha mão
pererecando de susto
como um sanhaço qualquer
na grade de um alçapão!

Mas... de noite vinha a cuca
(e por sinal que a noite parecia uma arapuca
com grandes pássaros de estrelas)
vinha com o gato currumiau:
menino mau, menino mau,
meninomaumeninomau.

Na minha imaginação
ficou pra sempre o pica-pau.

Pica-pau batendo o bico
numa casca de pau.
Pica-pau, pau-pau.

Currumiau miando de noite...
Currumiau, miau-miau.

 

Serenata Sintética

Rua
torta.

Lua
morta.

Tua
porta.

 

PAISAGEM SUBMARINA

No antro submarino, onde os pólipos têm

qualquer coisa de humano em seu mistério e são

galhos de sangue aí chorado por alguém

que naufragou depois de haver lutado em vão;

nesse mundo ignorado, ou nessa escuridão

que é toda azul por fora e só monstros contém

é que irei enterrar o meu único bem...

Náufrago – devo estar onde os outros estão.

Bem que é meu, ficará guardado onde só eu

o saiba, como alguém que, fugindo a um ladrão,

se tornou o ladrão daquilo que já é seu.

Estarei nesse caso? Ah! quanta gente que,

pra esconder o seu bem, busca o escuro e não vê

que uma estrela reluz melhor na escuridão...

 

 

O CANTO DA JURITI

Eu ia andando pelo caminho

em pleno sertão, o cafezal tinha ficado lá longe...

foi quando escuitei o seu canto

que me pareceu o soluço sem fim da distância...

A ânsia de tudo o que é longo como as palmeiras.

A saudade de tudo o que é comprido como os rios...

O lamento de tudo o que é roxo como a tarde...

O choro de tudo o que fica chorando por estar longe... bem longe.

 

IARA, A MULHER VERDE

Neste país de coisas em excesso

o sol me agride, o azul passa da conta.

No entanto, os poucos beijos que te peço

o teu amor futuro me desconta.

De tanto céu tenho a cabeça tonta.

O meu jornal é todo em verde impresso.

Só tu, a quem já um pássaro amedronta,

te fechas no mais íntimo recesso...

No país do excessivo, és muito pouca.

Vê a borboleta jovem, como esvoaça.

Vê como nos convida a manhã louca!

Por que seres assim, se tudo é assombro,

se a própria nuvem branca - e com que graça –

só falta vir pousar em nosso ombro?

 

MANHÃ DE CAÇA

Mal entrava eu no mato
era um delírio. Os papagaios
se reuniam em bando, protestando.
Como em verde comício.

Por que tanto barulho? eu indagava
de mim mesmo, da minha malvadez.
Como se não soubesse
que era justo o protesto
dos papagaios ásperos, verde-gaios.

Araras, canindés, maitacas
mais ensurdecedoras que matracas,
reunidas em bando,
também gritavam, me acusando.

Mas por que tanto horror? por que, de súbito,
tanto medo insensato?

Como se eu não soubesse,
com absoluta certeza, que era o mato
contra a minha maueza.

Maracanãs, tiribas, periquitos,
que eram asas aos gritos,
papagaios, enfim, de vários nomes
e de vária plumagem,
que eram os donos do país selvagem
e confuso,
lavravam seu protesto contra o intruso,
gritando, gritando.

Um morro de cabelo verde pixaim
começava a pensar.
Se encolhia a pensar numa coisa sem fim.

Por que pensar assim?
Como se eu não soubesse dos motivos
de tanta guerra, de tanta algazarra.

Conferenciavam, graves, os tucanos.
Saltavam rãs e gafanhotos,
junto a meus pés, a meus sapatos rotos.
O caapora acendia o fogo do cachimbo.
A mãe-d'água - se é que a mãe-d'água existe -
saltava como louca, a face oculta
em seu cabelo verde - se é verdade
que o seu cabelo é verde.

Como se eu não soubesse que no mato
tudo é cabelo verde, é susto, é graça,
é surpresa, é protesto
(quando não é a solidão selvagem).

Mas por que tanta atoarda?

E eu apontava o cano da espingarda
e bumba! um papagaio verde-gaio
caía ao solo e os outros, com assombro,
se reuniam em bando, gritando.
Uma chuva de garras e de bicos
despencava do céu sobre o meu ombro.

Os ecos proferiam, pelas grotas,
outros protestos, como se a distância
também caísse ao chão, de bruços,
com a boca cheia de soluços!

Mas pra quê tanto medo?

E - último eco - uma voz, enroscada
num cipoal em flor, numa barba-de-bode,
ficava protestando:
não pode!
não pode!

(Vamos caçar papagaios, 1926.)

 

 

BRASIL-MENINO

I

Meu pai era um gigante, domador de léguas.

Quando um dia partiu, a cavalo
no seu dragão de pêlo azul que era o Tietê
[dos bandeirantes.
lembro-me muito bem de que me disse: olhe,
[meu filho,
eu vou sururucar por esta porta e um dia voltarei
[trazendo umas duzentas léguas de caminho
[e umas dezenas de onças arrastadas pelo
[rabo a pingar sangue do focinho!

E dito e feito! lá se foi dando empurrões no mato dos
[barrancos
por entre alas de jacarés e de pássaros brancos.

Quando veio o Natal meu pai estava longe,
em luta com os bichos peludos, com os gatos grandões
[de cabeça listada e com as mulas-de-sete-cabeças
[que moram no fundo das árvores espessas.

No planalto batia um sino perguntando: ele não vem?
[ele não vem?

Um outro sino de voz grossa respondia: não ... e
[não, dizendo "nãão" e repetindo "nãão" e não.

 

II

E eu me lembrei de procurar um par de botas
das que meu pai usava e pôr o par de botas
atrás da porta do sertão que resmungava entocaiado
[no arvoredo.

Como fazia frio aquela noite!
Fiquei com tanto medo... Um gato corrumiau
passeava pelos vãos da telha-vã...
Mas chegou a manhã, linda como um tesouro!
e eu fui achar, com o coração aos pulos de alegria,
as duas botas de couro
abarrotadas de ouro!

III

Passou mais um ano e meu pai não voltou.
Botei meus sapatões atrás da porta novamente
e no outro dia
fui encontrar meus sapatões abarrotados de
[esmeraldas!

Minha vovó, uma velhinha portuguesa com cabelo de
[garoa e xale azul-xadrez me garantia:
- "Foi o papá Noel quem trouxe." Até que um dia
fiz que não vi mas vi; acordei da ilusão.
Meu pai era um Gigante, caçador de léguas,
um feroz domador de onças pretas,
terror do mato, assombração das borboletas
mas tinha um grande coração.

Por fim cresci. Hoje sou gente grande.
Sou comissário de café. Tenho viadutos encantados.
Minha cidade é esse tumulto colorido que aí passa
levando as fábricas pelas rédeas pretas de fumaça!

Barulho fantástico
de um mundo que saiu da oficina.
Grito metálico de cidade americana.
Vida rodando fremindo batendo martelos
com músculos de aço.

E o Tietê conta a história dos velhos Gigantes
que andaram medindo as fronteiras da pátria,
ao tempo em que S. Paulo colocava os sapatões atrás da porta
e os sapatões amanheciam cheios de ouro...

E os sapatões amanheciam cheios de esmeraldas...

E os sapatões amanheciam cheios de diamantes...

(Martim Cererê, 1928.)

 

Papagaio Gaio

Papagaio insensato,
que te fêz assim?
Que não sabes falar
brasileiro
e já sabes latim?

Papagaio insensato,
ave agreste, do mato,
que diabo em ti existe,
verde-gaio,
que nunca estás triste?

Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?

Papagaio triste,
papagaio gaio,
quem te fêz tão triste
e tão gaio,
triste mas verde-gaio?

Papagaio gaio,
quem te ensinou,
em mais
do mato, a repetir,
papagaio,
tanto nome feio?

Gaio papagaio,
gaio, gaio, gaio,
que repetes tudo...
Antes fosses
um pássaro mundo.

Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?

Papagaio gaio.
Gaio, gaio, gaio.

 

 

Rotação

a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
         a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
de novo a esperança
           na esfera

a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
         a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
         na esfera
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera

a espera me ensina
          a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
           na esfera
 

Flechas contra o muro

 

Pra se poder viver

compra-se o mundo em

que se vive.

Como quem compra um objeto

secreto, mas visível.

Compram-se os seus problemas

sem solução.

Quem nasce no mundo, hoje,

compra, sem o querer,

uma pomba.

Com um alfinete feérico

na cabeça

 

Uma pomba extremamente vizinha

de bomba.

Uma e outra têm asas.

Uma e outra são limpas.

Ambas são irmãs pelo som.

Um simples equívoco

de fonemas ou de telefonemas

entre os dois hemisférios

uma troca de b por p

e o mundo explodirá

em nossa mão

(p) bomba.

 

Campanário de S. José

(para ser repetido três vezes, na leitura)

 

Quem

Não

Tem

Seu

 

Bem

Que

Não

Vem?

 

Ou

Vem

Mas

 

Em

Vão?

Quem?

 

Poética

1

Que é a Poesia?

 

Uma ilha

Cercada

De palavras

Por todos

Os lados.

 

2

Que é o Poeta?

 

Um homem

Que trabalha o poema

Com o suor do seu rosto.

Um homem

Que tem fome

Como qualquer outro

Homem.

 

 

(Apostila 2 de Modernismo de 22 - Literatura Brasileira)