ORFEU SPAM APOSTILAS
GREGÓRIO DE MATOS
Satírica Pornográfica
A MESMA MARIA VIEGAS SACODE AGORA O POETA ESTRAVAGANTEMENTE PORQUE SE ESPEYDORRAVA MUITO
Dizem que o vosso cu, Cota,
Assopra zombaria,
Que aparece artilharia,
Quando vem chegando a frota:
Parece, que está de aposta
Este cu a peidos dar,
Porque jamais sem parar
Este grão-cu de enche-mão
Sem pederneira, ou murrão
Está sempre a disparar.
De Cota o seu arcabuz
Apontado sempre está,
Que entre noite, e dia dá
Mais de quinhentos truz-truz:
Não achareis muitos cus
Tão prontos em peidos dar,
Porque jamais sem parar
Faz tão grande bateria,
Que de noite, nem de dia
Pode tal cu descansar.
Cota, essa vosso arcabuz
Parece ser encantado,
Pois sempre está carregado
Disparando tantos truz:
Arrenego de tais cus,
Porque este foi o primeiro
Cu de Moça fulieiro,
Que tivesse tal saída
Para tocar toda a vida
Por fole de algum ferreiro.
DESCREVE COM ADMIRÁVEL PROPRIEDADE OS EFEYTOS QUE CAUSOU O VINHO NO BANQUETE QUE SE DEO NA MESMA FESTA ENTRE AS JUIZAS E MORDOMAS ONDE SE EMBEBEDARAM
No grande dia do Amparo,
Estando as mulatas todas
Entre festas, e entre bodas,
Um caso sucedeu raro:
E foi, que não sendo avaro
O jantar de canjirões,
Antes fervendo em cachões,
Os brindes de mão em mão
Depois de tanta razão
Tiveram certas razões.
Macotinha a foliona
Bailou rebolando o cu
Duas horas com Jelu
Mulata também bailona:
Senão quando outra putona
Tomou posse do terreiro,
E porque ao seu pandeiro
Não quis Macota sair,
Outra saiu a renhir,
Cujo nome é Domingueiro.
Por Macotinha tão rasa
De putinha, e mais putinha,
Que a pobre Macotinha
Se tornou de puta em brasa:
Alborotando-se a casa
As mais se forma erguendo
Mas jelu, ao que eu entendo,
É valente pertinaz,
Lhe atirou logo um gilvaz
De unhas abaixo tremendo.
A mim com punhos violentos
(gritou a Puta matrona)
agora o vereis, Putona,
zás, e pôs-lhe os mandamentos:
e com tais atrevimentos
a Jelu se enfureceu,
que indo sobre ela lhe deu
punhadas tão repetidas
que ficando ambas vencidas,
cada qual delas venceu.
Acudiu um Mulatrete
Bastardo da tal Domingas,
E respingas, não respingas
De a Mulata um bofete:
Ela, fervendo o muquete,
Deu c’o Mulato de patas,
Eis aqui vêm as Sapatas,
Porque uma é sua madrinha,
E todas por certa linha
Da mesma casa mulatas.
Chegou-se a tais menoscabos
Que segundo agora ouvi,
Havia de haver ali
Uma de todos os diabos:
Mas chegando quatro cabos
De putaria anciana,
A Puta mais veterana
Disse então, que não cuidava,
Que tais efeitos causava
Vinhaça tão soberana.
Sossegada a gritaria
Houve mulata repolho,
Que, o que bebeu por um olho,
Por outro o desbebia:
Mas chorava, ou se ria,
Jamais ninguém compreendera,
Se não se vira, e soubera
Pelo vinho despendido,
Que se tinha desbebido,
Quanto vinho se bebera.
Tal cópia de jeribita
Houve naquele folguedo,
Que em nada se tem segredo,
Antes tudo se vomita:
Entre tantas Mariquita
A Juíza era de ver,
Porque vendo ali verter
O vinho, que ela comprara,
De sorte se magoara,
Que o esteve para beber.
Bertola devia estar
Faminta, e desconjuntada,
Pois vendo a pendência armada,
Tratou de se caldear:
Bebeu naquele jantar
Sete pratos não pequenos
De caldo, e sete não menos
De carne, e é de reparar
Que a pudera um só matar,
E escapar de dois setenos.
Maribonda, minha ingrata
Tão pesada ali se viu,
Que desmaiada caiu
Sobre Luzia Sapata:
Viu-se uma, e outra Mulata
Em forma de Sodomia,
E como na casa havia
Tal grita, tão confusão
Não se advertiu por então
O ferrão, que lhe metia.
Teresa a de cutilada
De sorte ali se portou,
Que de bulha se apartou
Porque era puta sagrada:
De pendência retirada
Esteve num canto posta,
Mas com cara de Lagosta
Trocava com muita graça
O vinho taça por taça,
A carne posta por posta.
Enfim, que as Pardas corridas
Saíram com seus amantes,
Sendo, que no dia d’antes
Andavam elas saídas:
E sentindo-se afligidas
Do já passado tinelo,
Votaram com todo anelo
Emenda à Virgem do Amparo,
Que no seu dia preclaro
Nunca mais bodas ao cielo.
TEVE O POETA NOTÍCIA QUE SEBASTIÃO DA ROCHA PITA SENDO RAPAZ SE ESTRAGAVA COM BETICA
Brás pastor inda donzelo,
Querendo descabaçar-se,
Viu Betica a recrear-se
Vinda ao prado de amarelo:
E tendo duro o pinguelo,
Foi lho metendo já nu,
Fossando como Tatu:
Gritou Brites, inda bem,
Que tudo sofre, quem tem
Rachadura junto ao cu.
MANAS, DEPOIS QUE SOU FREIRA
Manas, depois que sou freira
Apoleguei mil caralhos,
E acho ter os barbicalhos
Qualquer de sua maneira:
O do casado é lazeira,
Com que me canso, em encalmo,
O do Frade é como um salmo
O maior do breviário:
Mas o caralho ordinário
É do tamanho de um palmo.
Além dessa diferença,
Que de palmo a palmo achei,
Outra coisa, que encontrei,
Me tem absorta, e suspensa:
É que discorrendo a imensa
Grandeza naquele nabo,
Quando o fim vi do diabo,
Achei, que a qualquer jumento
Se lhe acaba o comprimento
Com dous redondos no cabo.
A MEDIDA PARA O MALHO
A medida para o malho
Pela taxa da Cafeira,
Que tem do malho a craveira,
São dous palmos de caralho:
Não quer nisto dar um talho,
E eu zombo do seu empenho,
Pois tendo um palmo de lenho,
Com que outras putas desalmo,
Inda que tenho um só palmo,
Não quero mais do que tenho.
COM CACHOPINHAS DE GOSTO
Com cachopinhas de gosto
Em cama de bom colchão,
Nos peitinhos posta a mão,
E o pé no fincapé posto:
Ajuntar rosto com rosto,
Dormir um homem seu sono,
Acordar, calcar-lhe o mono
Já quase ao gorgolejar,
Então é o ponderar
As excelências do cono.
Eu na minha opinião,
Segundo o meu parecer,
Digo, que não há foder,
Senão cono de enchemão:
Porque um homem com Sezão,
Inda sendo caralhudo,
Meterá culhões, e tudo,
E assim mostra a experiência,
Que do cono a excelência
Pe ser bem grande, e papudo.
É também conveniente,
Que não tenha oi parrameiro
A nota de ser traseiro,
E que seja um tanto quente:
Que às vezes mui facilmente
São tais as misérias nossas,
Que havemos mister as moças
Para regalo da pica
Como cono de pouca crica,
Apertado, bordas grossas.
Mas a maior regalia,
Que no cono se há de achar,
Para que possa levar
Dos conos a primazia
(este ponto me esquecia)
para ser perfeito em tudo,
é nunca ser achar barbudo,
por dar bom gosto ao foder,
como também deve ser
Chupão, enxuto, e carnudo.
ASSUMPTO QUE HUMA DAMA MANDOU AO POETA
Quisera, Senhor Doutor,
Uma informação, e é,
Que me deram junto ao que,
(do cu dissera melhor)
um golpe de tal rigor,
que passo mui maltratada
por me ver ali cortada:
que remédio pode ter
junto do cu cutilada.
Anda aqui um surgião
Fulano Lopes Monteiro,
Que dizem para o traseiro
Tem ele mui boa mão:
Quisera saber então,
Pois vivo tão desviada,
E como serei curada
Por uma sua receita,
Ficando sempre sujeita
A Dama da cutilada.
RESPOSTA DO POETA
Senhora Dona formosa,
Li a de vossa mercê
Com a cutilada, que
A traz tanto desgostosa:
A ferida é mui danosa,
E não é para cheirada,
Traga-me sempre abotoada,
Que é, o que mais lhe convém,
Pois nunca curou ninguém
Junto do cu cutilada. (...)
Causa grande admiração,
Como em tal parte a cascou,
Só se dormindo a apanhou,
Ou estirada no chão:
Esta é minha presunção,
Que para ali ser cortada
Devia estar estirada
Com as pernas para o ar,
Quando lhe foram cascar
Junto do cu cutilada. (...)
Algumas vezes curei
Com ovos tão grandalhões,
Que pareciam culhões,
Mas debalde me cansei:
Com mecha lhos encaixei,
Que entrava tão ajustada,
Que ia algum tanto apertada:
Mas era cansar-se em vão,
Porque ovos não curam não
Junto do cu cutilada. (...)
Mas eu tenho cá para mim,
Para que dela não morra,
Que lhe unte sebo de porra,
Ou sumo de parati:
Porque já enferma vi
Com semelhante golpada
Ficar muito consolada,
Que a experiência mostrou,
Que curar ninguém curou
Junto do cu cutilada.
(Apostila 4 do Barroco - Literatura Brasileira)