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O Descobrimento do Brasil
Depois de 44 dias de viagem, a frota de Pedro Álvares Cabral vislumbrava terra - mais com alívio e prazer do que com surpresa ou espanto
Na terça-feira à
tarde, foram os grandes emaranhados de "ervas compridas a que os mareantes dão o
nome de rabo-de-asno." Surgiram flutuando ao lado das naus e sumiram no
horizonte. Na quarta-feira pela manhã, o vôo dos fura-buchos, uma espécie de
gaivota, rompeu o silêncio dos mares e dos céus, reafirmando a certeza de que a
terra se encontrava próxima. Ao entardecer, silhuetados contra o fulgor do
crepúsculo, delinearam-se os contornos arredondados de "um grande monte",
cercado por terras planas, vestidas de um arvoredo denso e majestoso.
Era 22 de abril de 1500. Depois de 44 dias de viagem, a frota de Pedro
Álvares Cabral vislumbrava terra - mais com alívio e prazer do que com surpresa
ou espanto. Nos nove dias seguintes, nas enseadas generosas do sul da Bahia, os
13 navios da maior armada já enviada às Índias pela rota descoberta por Vasco da
Gama permaneceriam reconhecendo a nova terra e seus habitantes.
O primeiro contato, amistoso como os demais, deu-se já no dia seguinte,
quinta-feira, 23 de abril. O capitão Nicolau Coelho, veterano das Índias e
companheiro de Gama, foi a terra, em um batel, e deparou com 18 homens "pardos,
nus, com arcos e setas nas mãos". Coelho deu-lhes um gorro vermelho, uma
carapuça de linho e um sombreiro preto. Em troca, recebeu um cocar de plumas e
um colar de contas brancas. O Brasil, batizado Ilha de Vera Cruz, entrava,
naquele instante, no curso da história.
O descobrimento oficial do país está registrado com minúcia. Poucas são as
nações que possuem uma "certidão de nascimento" tão precisa e fluente quanto a
carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, dom Manuel, relatando o
"achamento" da nova terra. Ainda assim, uma dúvida paira sobre o amplo desvio de
rota que conduziu a armada de Cabral muito mais para oeste do que o necessário
para chegar à Índia. Teria sido o descobrimento do Brasil um mero acaso?
É provável que a questão jamais venha a ser esclarecida. No entanto, a
assinatura do Tratado de Tordesilhas que, seis anos antes, dera a Portugal a
posse das terras que ficassem a 370 léguas (em torno de 2 mil quilômetros) a
oeste de Cabo Verde, a naturalidade com que a terra foi avistada, o conhecimento
preciso das correntes e das rotas, as condições climáticas durante a viagem e a
alta probabilidade de que o país já tivesse sido avistado anteriormente parecem
ser a garantia de que o desembarque, naquela manhã de abril de 1500, foi mera
formalidade: Cabral poderia estar apenas tomando posse de uma terra que os
portugueses já conheciam, embora superficialmente. Uma terra pela qual ainda
demorariam cerca de meio século para se interessarem de fato.
Os Tupiniquins
Ao longo dos dez dias que passou no Brasil, a armada de Cabral tomou contato
com cerca de 500 nativos. Eram, se saberia depois, tupiniquins - uma das tribos
do grupo tupi-guarani que, no início do século XVI, ocupava quase todo o litoral
do Brasil. Os tupi-guaranis tinham chegado à região numa série de migrações de
fundo religioso (em busca da "Terra Sem Males"), no começo da Era Cristã. Os
tupiniquins viviam no sul da Bahia e nas cercanias de Santos e Betioga, em São
Paulo. Eram uns 85 mil. Por volta de 1530, uniram-se aos portugueses na guerra
contra os tupinambás-tamoios, aliados dos franceses. Foi uma aliança inútil: em
1570, já estavam praticamente extintos, massacrados por Mem de Sá, terceiro
governador-geral do Brasil.
Fonte: Eduardo Bueno/Zero Hora
Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral: O que devemos a eles?
Por Cristiano Catarin
Introdução
Por 08 décadas os portugueses alimentaram o sonho de conhecer e obter novas
terras, dentre elas estava o desejo de dominar a rota das Índias.
Em meio à jornada de Pedro Álvares Cabral, os marinheiros acompanhavam atentos
às evidências quanto à proximidade de terra à vista, algas marinhas em volta das
naves, e para eles, o mais comum dos sinais desta proximidade era com o barulho
das gaivotas fura -- buxos. Para os portugueses, seguir tais aves era certeza do
encontro de terras.
No entanto, a história da empresa marítima portuguesa revela uma similaridade
desta circunstância com Pedrâ?TAlvares em relação à expedição de Vasco da Gama,
pois em 22 de agosto de 1497, como mostra registros do diário de um dos
tripulantes da armada de Gama:
"Achamos muitas aves feitas como garçoes, e quando veio à noite tiravam contra o
su -- sueste muito rijas, como que eram iam para terra".
Vasco da Gama foi, na verdade, uma espécie de mentor de Cabral, visto que em
meio a seus pertences o comandante da nau capitânia levava consigo um manuscrito
de Vasco da Gama onde este havia relatado orientações para que a armada
cabralina não fosse surpreendida em alto mar, como se fosse um manual para
atingir as Índias.
De fato, todo cuidado era necessário, pois em meio ao trajeto a ser realizado
pela armada de Cabral havia, pela frente, a necessidade de passar pelo Cabo das
Tormentas, assim denominado pelos marinheiros mais expostos. Mas, este termo
também foi rebatizado por D. João II por Cabo da Boa Esperança, chamado pelos
determinados estudiosos dos mares como. Vasco da Gama conseguiu vencê-lo sempre
mantendo o rumo a oeste, contrariando a tese do genovêz Cristóvão Colombo.
Difícil relatar sem revelar o prazer, ou melhor, o alívio de toda tripulação de
Cabral no momento da manhã de 22 de abril de 1500, quando na oportunidade, é
avistado um monte mui grande e revestido de arvoredos esverdeados, lindos. A
armada ancorou-se a 36 Km da costa, ou como na época, à 6 léguas de distancia da
hoje denominada Bahia de todos os santos.
O descobrimento do Brasil, ou achamento suscita, ainda em nossos dias, muita
polêmica. Eduardo Bueno, não historiador, mas um pesquisador cuidadoso e,
sobretudo, competente, afirma que realmente é difícil "decretar" que os
portugueses não conheciam, ou não faziam a menor idéia das "novas" terras de
Vera Cruz. Pois de acordo com relatos, a "escola" marítima portuguesa já era
portadora de convicções de que havia sim novas terras para direção em que de
fato, atingiram e lançaram âncoras, isto muito antes de Gama, seguindo a rota
dos pássaros.
O grande objetivo português era atingir a Índia, descobrir a rota das riquezas,
das cedas, do outro, das especiarias etc. Afinal, qual era o conhecimento, por
parte destes perseverantes portugueses, quanto às riquezas, inclusive naturais,
existentes do agora Brasil? Nenhuma.
Foram 10 dias ancorados na ilha de Vera Cruz, Pedro Álvares Cabral junto a seus
comandados entendiam que estava descoberta, na ocasião, uma nova ilha. Como é
bom saber que quase ½ século depois, todo este (detalhe dos portugueses) ganhara
uma estrondosa importância para o cenário mundial.
Importância que dera inicio já com a confirmação do fracasso da empresa das
Índias, 30 anos depois do "primeiro" contato com o Brasil.
Outro fato interessante fica por conta da grandiosidade da expedição de Cabral,
uma empresa: náutica, militar e mercantil, extremamente onerosa. D. Manuel, a
exemplo de D. João II, recorreu à iniciativa privada para realização de tal
projeto. A Coroa portuguesa não reunia condições suficientes para suprir com
todos os gastos envolvidos, tanto para manter toda tripulação nas condições
mínimas de sobrevivência, tratava-se de 1500 tripulantes, distribuídos em 13
embarcações. Banqueiros como: Bartolomeu Marchioni e Girulamo Sernige
contribuíram com o financiamento da expedição.
Bartolomeu Dias e seu irmão Diogo Dias também estavam presentes: Bartolomeu, no
comando da caravela redonda (com velas redondas) enquanto Diogo era capitão da
nau dâ?Tel - Rei, eles faziam parte da chamada segunda divisão da esquadra, pois
a primeira era formada por 11 naus, sendo a nau capitânia sob comando de Cabral
A Partida
Muita expectativa, tanto dento como também fora das naus, Lisboa, mais
precisamente no Porto de Rastelo, encontrava-se totalmente tomado por
familiares, pela nobreza, por escravos, pelo povo... , admirando o "desfile" das
embarcações.
Muitos marinheiros olhavam para trás com verdadeiro pesar no coração, é sabido
que a grande maioria não tinha esperança de um dia poder voltar, pois quase
todos tinham conhecimento dos riscos envolvidos em tal jornada.
Dois a cada três jamais voltaram, segundo comparação feita pelo historiador
Paulo Miceli, muitos, antes de embarcar, deixaram testamentos prontos.
Em 23 de março de 1500, ocorre a primeira de muitas tragédias em pleno mar, a
nau de Vasto de Ataíde que compunha o comboio, desaparece sem deixar qualquer
sinal.
A fantástica viagem de Vasco da Gama rumo à Índia é motivo de muito orgulho para
os marinheiros portugueses que há 85 anos mantiveram firmes em navegar pelos
mares no sentido sul em busca desta terra detentora de muitas riquezas.
Colombo em 1492, seguindo caminho contrário aos feitos lusos, sempre afirmara
ter atingido as Índias, quando na verdade havia descoberto um "novo mundo", a
América.
O descobrimento que não houve
A proximidade do V
Centenário de História do Brasil nos incita à reflexão. Sem falar da natureza -
num país mestiço - dessa co-memoração, a primeira delas diz respeito à própria
redefinição do seu marco de referência, o chamado "Descobrimento do Brasil".
Pode parecer audacioso, e pretensioso, querer contestar, num pequeno
artigo, uma tese tão arraigada nos espíritos. Mas a própria enormidade do
"equívoco" nos indica que sua correção deve ser tentada no terreno político e
informacional.
Mas vamos aos fatos. O evento fundador da história (escrita) do Brasil está
mal definido. Considerando-o sob diversos ângulos nós veremos que mesmo do ponto
de vista europeu não houve descoberta, ou melhor, o descobrimento não pode ter
sido português.
Isto porque Colombo precedeu os portugueses não somente ao "descobrir" as
Antilhas, em 1492, como também quando localizou a terra firme (o continente), em
sua terceira viagem, em 1498.
Ora, nós temos aí um fato irrefutável: como se trata de territórios
contíguos, qualquer outra "descoberta" ao longo da costa desse continente está,
evidentemente, subordinada à descoberta espanhola. Se assim não fosse, nós
teríamos uma infinidade de descobertas!
Portanto, o "Descobrimento do Brasil" não pode estar desvinculado do
"Descobrimento da América". Não pode haver descobrimento em separado. A chegada
de Cabral ao Brasil está associada à chegada de Colombo à América e é secundária
em relação a esta. (Isto é tão patente que, na Europa, afora Portugal, Cabral é
praticamente desconhecido).
Também, de acordo com o contexto da época não se poderia dizer que houve
descobrimento especificamente português. Pois é quase impossível - visto a
espionagem (e a política de sigilo) - que D. Manuel não tivesse sido informado,
ainda em 1498 ou 1499, da localização do continente.
E mesmo que ele não soubesse! A vigência, desde 1494, do Tratado de
Tordesilhas, indica que essas terras eram virtuais possessões portuguesas e
espanholas. Eles já as vislumbravam: afinal de contas, não é comum legislar
sobre quimeras!
A coisa estava tão bem entendida que os espanhóis nem reivindicaram para si
essas terras. Apesar de já haverem, inclusive, estado no Brasil pouco antes de
Cabral (Vicente Yañez Pinzón e Diego de Lepe, em Pernambuco).
O mais plausível, portanto, é que Cabral tenha vindo com a missão de tomar
posse da terra, antes que os perseverantes espanhóis (apesar do Tratado) o
fizessem.
Para os índios, em contrapartida, houve verdadeira surpresa: depois do
"canoa grande à vista" aquela costa foi tomada pela perplexidade….
A "Descoberta da América" também está mal explicada. Já se sabe que os
vikings precederam os espanhóis (na América do Norte) por volta do ano 1000.
Logo, pode-se afirmar, mutatis mutandis, que a América foi redescoberta pelos
europeus em 1492.
Contudo, na era da globalização exige-se uma visão mais abrangente e
racional. Pois bem, do ponto de vista da história humana, a descoberta foi
asiática.
Os modernos conhecimentos científicos apontam não só para a unidade global
da humanidade, mas também para o fato de que os antepassados dos índios vieram
da Ásia e, segundo as teorias mais aceitas, passaram à América há 30 ou 40 mil
anos, pelo estreito de Bering.
São os índios os verdadeiros descobridores do continente. Cedo os europeus
se deram conta disso, quando ao tentar colonizá-lo (e inclusive delimitar
fronteiras) tiveram que contar com os indígenas e sua "ciência".
A atual definição do acontecimento de 1500 carece de sustentação empírica.
Como o Brasil não tem apenas 500 anos, é preferível falar em Chegada dos
Portugueses, que foi seguida da Conquista.
Mas por que persistir no deliberado engano? A perpetuação do equívoco
atesta a existência de beneficiários deste sistema de exclusão. Sim, porque a
formulação simbólica do evento basilar de nossa história escrita não é inocente.
Nem é um detalhe! Ela está diretamente relacionada à constelação causal
etnocentrismo/ colonialismo/ escravismo/ genocídio/ etnocídio/ racismo. Donde a
insidiosa desumanização e desqualificação do Outro. Este "outro" que é parte (da
maioria) de nós, pois também nossos ancestrais.
Os caipiras não podem mais se deixar enganar. Momento de reflexão e
revivescência de um passado comum o V Centenário de História do Brasil deve ser
co-memorado por todos os partícipes da construção do país. É a oportunidade
ideal para desencobrir os fatos e simultaneamente renovar a luta contra o
(doloroso) racismo, aumentando assim nossa auto-estima.
Porém, a contracorrente dos outros países americanos, que não permitiram
que se festejasse Colombo sobre seu território - a grande festa aconteceu em
Sevilha -, o governo brasileiro pretende implantar um projeto arcaico, de fatura
colonial, que homenageia os Conquistadores, como se o Brasil fosse
monoliticamente português e não pluriétnico e mestiço.
No projeto, o Brasil se inscreve como mero coadjuvante de uma vitoriosa
campanha diplomática portuguesa, com raízes em Tordesilhas.
A real dimensão do Brasil só virá pela sua inserção no contexto global da
história humana. Disso depende a legitimação do continente mestiço. Dessa vez ,
nós não podemos deixar passar o moderno bonde da história.
Por Celene Fonseca, antropóloga