ORFEU SPAM APOSTILAS
CLÁUDIO MANUEL DA COSTA - O VILA RICA
Resumo:
Canto I: Apresentação do tema e invocação às ninfas do ribeirão do Carmo, dedicatória ao Conde de Bobadela. Figuras míticas: O Itamonte e o Gênio da Terra.
In Medias Res: D. Rodrigo (aventureiro, ministro do rei, vítima na floresta) aparece em sonho a Albuquerque.
Canto II: Neágoa, mãe de Aurora. Albuquerque expõe seu plano a mando de D João V: fundar Vila Rica. Itacolumi, o monstro vigia do ouro.
Canto III: Borba Gato chega ao acampamento e narra como foi a morte de D.Rodrigo.
Argasso explica o motivo do aprisionamento de Aurora no acampamento dos portugueses.
Canto IV: os homens cavando a terra à procura de ouro, casualmente encontram a sepultura de D.Rodrigo. Argasso aparece no acampamento e explica ser rival de Garcia pelo amor de Aurora. Garcia entrega a mãe Neágoa e a filha Aurora. Albuquerque crê que o gesto de Garcia trará os índios para o seu lado. Borba Gato guia todos às minas de ouro.
Canto V:
Fala-se do templo do Interesse, e de como essa figura personifica pretende tentar impedir o sucesso de Albuquerque. Surge o Gênio da Terra, metamorfoseado em velho índio, diante de Albuquerque, numa gruta, revela seu nome, Filiponte. Filiponte narra a história da conquista das Minas Gerais e, inclusive, se vê nas paredes da gruta o retrato de Albuquerque ao lado do Ribeirão do Carmo.
Canto VI: Filiponte descreve a geografia de Minas. Recorda como Arzão achou primeiro as pepitas de ouro no rio Casca.
Fala de como a descoberta do ouro criou uma guerra entre os exploradores.
Morte de Aurora e Argasso.
Canto VII:
Uma ninfa de um rio encanta Garcia e leva-lhe para o fundo desaparecendo o personagem.
Albuquerque consegue evitar uma disputa de interesses entre paulistas e forasteiros, mostra-se como um pacificador. O Gênio da Terra fez aparecer figuras monstruosas nos troncos das árvores que assustam os revoltosos que juram prestar obediência a Albuquerque.
Canto VIII:
Itamonte surge no fundo das águas a Garcia, conta-lhe dos sucessos de Albquerque. A ninfa conta a Garcia a história do Itamonte e os ciúmes de Apolo.
Canto IX:
Eulina, a ninfa que levou Garcia, explica a Garcia o futuro das Minas Gerias e fala de seus governadores.
Albuquerque encontra o sítio onde construíra Vila Rica. Narra-se a lenda de Blásimo. Albuquerque repreende os revoltosos: Manuel Nunes Viana e Frei Fco. De Menezes.
Canto X: Albuquerque convence o gigante Itamonte de suas virtudes. Descreve-se a construção da cidade de Vila Rica (igrejas, fontes, cadeia).
O Vila Rica - trechos:
Canto VI
Levados de fervor, que o peito encerra
Vê os Paulistas, animosa gente,
Que o Rei procuram metal luzente
Co’as próprias mãos enriquecer o erário.
Arzão é este, é este, o temerário,
Que da casca os sertões tentou primeiro:
Vê qual despreza o nobre aventureiro,
Os laços e as traições , que lhe prepara
Do cruento gentio a fome avara.
A exemplo de um contempla iguais a todos,
E distintos ao rei por vários modos
Vê os Pires, Camargos e Pedrosos,
Alvarengas, Godóis, Cabrais, Cardosos,
Lemos, Toledos, Paes, Guerras, Furtados,
E outros, que primeiro assinalados
Se fizeram no arrojo das conquistas,
Ó grandes sempre, Ó imortais Paulistas!
Embora vós, ninfas do Tejo, embora
Cante o Lusitano a voz sonora
Os claros feitos do seu grande Gama;
Dos meus Paulistas honrarei a fama.
Eles a fome e sede vão sofrendo,
Rotos e nus aos corpos vem trazendo,
Na enfermidade a cura lhes falece,
E a miséria por tudo se conhece.
(...)
Terifea a ocasião julga oportuna,
Põe olhos no Céu, alta coluna
Levanta , e firma em terra; já sobre ela
Se ergue e murmura e nota cada estrela
Com o dedo, depois desce e riscando
Muitas vezes em roda, vai tocando
A coluna, que treme e que se move:
Tolda-se em sombra o ar, troveja e chove:
E o tronco de entre a nuvem que o cobrira,
Sai figurando um tigre, que respira
Fogo e veneno pelos olhos; passa
Com ele ao monte, e o guia onde a caça
Se tenta e busca; aqui dormia Aurora;
Dormia; e junto aos pés branda e sonora
Fontesinha o repouso convidava;
O peito em grande parte debruçava
Sobre uma penha, e ao gesto brando e lindo
De encosto o mole braço está servindo,
Chega a Maga cruel, põe-lhe diante
A fera, que conduz, e ao mesmo instante
Se oculta em parte, onde o sucesso veja:
O cuidado de a ver, ou fosse inveja
Aquele sítio encaminhava os passos
Do destemido Argasso; entre embaraços
De mal distintos ramos já descobre
O mosqueado tigre, ao braço nobre
O crê despojo, e de matá-lo espera,
Firme o pé desde longe aponta a fera,
E atrás puxando o braço a senta envia,
Que vai cravar no monstro a ponta fria.
Corre gritando, ó Céus, e vê passado
De Aurora o peito; em vão busca assombrado
O tigre, que não há: já desfalece
A pouco e pouco a bela: a mágoa cresce
No mísero homicida, clama e grita,
Atroa aos Céus, e contra os Céus se irrita,
Nem mais a vida, que estimara, preza;
Arroja o arco, e à infeliz beleza
Consagra de seu corpo o último resto
Canto VII
Ouve Garcia o canto, e não atina
De onde tanto prodígio, mas de Eulina
A delicada face está patente:
Fita os olhos, e vê desde a corrente
Lançar a mão à praia a Ninfa bela,
Toma uma areia de ouro, e já com ela
Pulveriza os cabelos: neste intante,
O sonho de Albuquerque o faz avante
Passar, os braços abre, a Ninfa chama;
Ela o vê, e não teme, e já se inflama
De amor por ele: aos braços o convida,
E abrindo o seio o rio, uma luzida
Urna de fino mármore os sepulta
Recebendo-os em si: ficou oculta
A maravilha a quantos o acompanham.
Em busca de Garcia já se entranham
Pelos matos mais densos; mas perdida
A esperança de achá-lo, e recolhida
Volta o herói a esquadra aventureira.
(....)
Estamos disse, em uns países novos,
Onde a polícia não tem ainda entrado,
Pode o rigor deixar desconcertado
O bom prelúdio desta grande empresa.
Convém que antes que os meios da aspereza
Se tente todo o esforço da brandura.
Não é destro cultor, o que procura
Decepar aquela árvore, que pode
Sanar, cortando o ramo, si lhe acode
Com sábia mão reparar o dano;
Para se radicar do soberano
O conceito, que pede a autoridade,
Necessária se faz uma igualdade
De razão e discurso; quem duvida,
Que de um cego furor corre impelida
A fanática idéia dessa gente?
Que a todos falta condutor prudente
Que dirija ao acerto? Ao brando afago
Talvez venha ceder: e quando abuse
Da brandura, e obstinados se recuse
A render ao meu Rei toda a obediência,
Então porei em prática a violência;
Farei que as armas e o valor contestem
O bárbaro atentado; e que detestem
A preço do seu sangue a torpe idéia.
Disse, e deixando a todos a alma cheia
A saber de Garcia, nem lhe dava
Notícia dele algum dos três pereiras.
Indicações para Pesquisa:
LOPES, Hélio. Introdução ao Poema Vila Rica. Ed. do autor, São Paulo, 1979.
LUNA, Jayro. Retórica da Poesia Épica: De Bento Teixeira a Sousândrade. São Paulo, Dissertação de Mestrado, FFLCH/USP. 1997.
(Apostila 6 de Arcadismo Brasileiro)