ORFEU SPAM APOSTILAS
AGOSTINHO NETO - POESIAS
Biografia
Nasceu em Catete, Angola, em 1922, faleceu em 1979. Estudos primários e secundários em Angola, licenciado em Medicina pela Universidade de Lisboa. Em Portugal, sempre esteve ligado à actividade política, onde com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque fundou a revista Momento, em 1950. Como aconteceu a outros escritores africanos foi preso e desterrado para Cabo Verde, tendo mais tarde conseguido a fuga para o continente. Presidente do MPLA, foi o primeiro presidente de Angola.
Obra Poética:
Quatro Poemas de Agostinho Neto, 1957, Póvoa do Varzim, e.a.;
Poemas, 1961, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império;
Sagrada Esperança, 1974, Lisboa, Sá da Costa (inclui os poemas dos dois primeiros livros);
A Renúncia Impossível, 1982, Luanda, INALD (edição póstuma).
O
Choro de África
O
choro durante séculos
nos
seus olhos traidores pela servidão dos homens
no
desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos
batuques choro de África
nos
sorrisos choro de África
nos
sarcasmos no trabalho choro de África
Sempre o
choro mesmo na vossa alegria imortal
meu
irmão Nguxi e amigo Mussunda
no
círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da
vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e
das hemorragias dos ritmos das feridas de África
e mesmo
na morte do sangue ao contato com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no
fruto
na
agilidade da zebra
na
secura do deserto
na
harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens
o choro
de séculos
inventado na servidão
em
historias de dramas negros almas brancas preguiças
e
espíritos infantis de África
as
mentiras choros verdadeiros nas suas bocas
o choro
de séculos
onde
a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da
desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida
fechada
em estreitos cérebros de maquinas de contar
na
violência
na
violência
na
violência
O choro de África e' um sintoma
Nos
temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas - por nós!
E
amor
e os
olhos secos.
(Poemas, 1961)
Fogo e Ritmo
Sons
de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob
a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos
coqueirais
fogo
fogo
no capim
fogo
sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos
largos
cheios de gente cheios de gente
em
êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas
caminhos
caminhos abertos por cima
da
impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas
ritmo
ritmo.
Ó vozes dolorosas de África!
................................
Noite
Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.
Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.
São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.
Onde as vontades se
diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.
Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.
Também a noite é escura.
................................
Confiança
O oceano separou-se de mim
enquanto me fui esquecendo nos séculos
e eis-me presente
reunindo em mim o espaço
condensando o tempo.
Na minha história
existe o paradoxo do homem disperso
Enquanto o sorriso
brilhava
no canto de dor
e as mãos construíam mundos maravilhosos
john foi linchado
o
irmão chicoteado nas costas nuas
a mulher amordaçada
e o filho continuou ignorante
E do drama intenso
duma vida imensa e útil
resultou a certeza
As minhas mãos colocaram
pedras
nos alicerces do mundo
mereço o meu pedaço de chão.
....................................
Civilização Ocidental
Latas pregadas em pausfixados na terra
fazem a casa
Os farrapos completam
a paisagem íntima
O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante
Depois as doze horas de trabalho
escravo
Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra
A velhice vem cedo
Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.
ANTIGAMENTE ERA
Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom
Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança
A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos
Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
(1951)
kinaxixi
Gostava de estar sentado num banco do kinaxixi às seis horas duma tarde muito quente e ficar... Alguém viria talvez sentar-se sentar-se ao meu lado E veria as faces negras da gente a subir a calçada vagarosamente exprimindo ausência no kimbundu mestiço das conversas Veria os passos fatigados dos servos de pais também servos buscando aqui amor ali glória além uma embriaguez em cada álcool Nem felicidade nem ódio Depois do sol posto acenderiam as luzes e eu iria sem rumo a pensar que a nossa vida é simples afinal demasiado simples para quem está cansado e precisa de marchar. (Sagrada esperança)
Consciencialização
Medo no ar! Em cada esquina sentinelas vigilantes incendeiam olhares em cada casa se substituem apressadamente os fechos velhos das portas e em cada consciência fervilha o temor de se ouvir a si mesma A historia está a ser contada de novo Medo no ar! Acontece que eu homem humilde ainda mais humilde na pele negra me regresso África para mim com os olhos secos. (Sagrada esperança)