ORFEU SPAM APOSTILAS
(Roma, 100 a. C. - idem, 44 a. C.)
Militar e estadista romano. É sobrinho de Mário, um proeminente aristocrata
romano que se faz nomear, aos dezassete anos, sacerdote de Júpiter. Perseguido
por Sila, refugia-se na Bitínia. Nestas terras asiáticas, inicia-se no ofício
das armas. Aquando da morte do ditador, regressa a Roma, participa nas
instituições civis e, de seguida, chega a Rodes para aperfeiçoar a sua
eloquência. Durante uma destas viagens é sequestrado por piratas, que pedem 20
talentos de resgate; César oferece-lhes 50 e assegura-lhes que de seguida vai
acabar com eles; e assim o faz. No ano de 74 a. C. é eleito membro do colégio
dos pontífices. É, sucessivamente, tribuno militar, questor e edil. Após a
conjura de Catilina é-lhe concedido o governo da Hispânia Ulterior. Carregado de
dívidas, pode sair de Roma graças ao seu amigo Creso que lhas paga. No ano de 69
a. C. inicia a sua administração da província hispânica, tornando-a próspera e
enriquecendo ele próprio. Ao regressar César da Hispânia, Pompeu regressa da
Ásia. Ambos hostilizados com o Senado, formam, com Crasso, o primeiro
triunvirato. Contam com o apoio do exército e do povo. No ano de 60 a. C., César
é nomeado cônsul. Adopta medidas políticas e administrativas passando por cima
do Senado. Nomeado governador da Gália, assenta o seu prestígio militar em
longas campanhas bélicas. No ano de 51 a. C., a Gália fica completamente
submetida ao poder das legiões romanas. O Senado, assustado com os seus êxitos,
seduz Pompeu, encarregando-o da defesa da República. Então César, à frente das
suas tropas, atravessa um pequeno rio fronteiriço, o Rubicão, e aproxima-se
ameaçadoramente de Roma. Pompeu foge precipitadamente para o Oriente. César,
então, dirige-se primeiro à Hispânia, onde vence as forças de Pompeu ali
estabelecidas, e, de seguida, ao Oriente. Em Farsalo (48 a. C.) vence
definitivamente Pompeu, que perde a vida. César, retido pelos encantos de
Cleópatra, fica uma temporada no Egipto. Volta de seguida a Itália, onde vence
os adeptos de Pompeu em Thapsus, e combate os filhos de Pompeu na Hispânia,
vencendo-os em Munda (Ronda) no ano de 45 a. C.
De volta a Roma recebe as máximas honras e é nomeado ditador vitalício.
Carregado de honras quase reais, adopta diversas medidas legislativas e
administrativas que molestam as famílias patrícias de Roma. Com a desculpa de
evitar que se converta em rei, Catão, Bruto (afilhado de César) e outros põem-se
de acordo para o assassinar, coisa que fazem no mesmo Senado (ano de 44 a. C.).
Como escritor, Júlio César adopta posturas de político e militar. Neste sentido,
tanto os seus discursos como as suas obras históricas tentam expor e justificar
as suas acções. Para isso deformam os factos e incorre em omissões e inclusive
em falsificações, o que lhe permite oferecer uma imagem perfeita de si mesmo.
Apesar disso, César é merecidamente considerado um autor clássico e um modelo da
língua latina. Da sua clareza e concisão, da sua expressão precisa, do seu uso
da terceira pessoa para se referir a si mesmo, depreende-se uma poderosa
objectividade. Em De Bello Gallico relata as suas campanhas contra
os Galos até à derrota de Vercingétorix, seu chefe. E em De Bello
Civile narra as suas campanhas contra Pompeu.
Fonte: http://www.vidaslusofonas.pt/julio_cesar.htm
A conquista da Gália por Júlio César
Há dois mil e cinqüenta anos atrás, Júlio César, um dos mais célebres estadistas romanos, publicou um relato da sua campanha contra as tribos celtas que então viviam espalhadas pela Suíça, França, Bélgica e Inglaterra, denominando-o Commentarii de bello gallico, Comentários sobre a Guerra Gálica, consagrando-o como um excelente historiador.
Seu livro tornou-se leitura obrigatória para os estudantes de latim. Que extensão tinha a região conquistada pelos romanos e quem eram as tribos e qual a cultura dos que lá habitavam e como fez César para dominá-la, é o que o se segue.
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Vercingetórix rende-se a César em Alésia (52 a.C.) |
César abre a primeira página do seu livro com uma das suas mais conhecidas frases: Gallia est divisa in partes tres, "a Gália está toda dividida em três partes". E, de fato, assim era. Bem ao norte, a Terra dos Celtas era habitada pelos belgas, no centro pelos gauleses propriamente dito, e, ao sul dela, pelos aquitânios. Politicamente, a parte meridional encontrava-se nas mão dos romanos desde 222-121 a.C., que a denominavam de Gália Narbonense, tendo como principal centro era o porto de Marselha.
A posse dessa região costeira do Mediterrâneo, permitia-lhes trafegar seguros pela Via Domitia, a estrada que ligava a fronteira da Itália ao Leste, com a da Ibéria, ao Oeste. Geograficamente, ela se estendia de Milão, no Vale do Rio Pó, até o sopé das montanhas dos Pirineus. Foi para lá que enviaram Caio Júlio César, de distinguida e aristocrática família latina, como procônsul da Gália Narbonense, no ano de 59 a.C.
O povo que lá vivia, no que os romanos denominavam de Gália Comata, eram os celtas, separados entre si pelas mais diversas razões. Dividiam-se eles,de um modo geral, em galos Heudos, Arvernos, Belgas, e nos que compunham as tribos marítimas que habitavam nas margens do Atlântico (onde hoje se situam a Bretanha e a Normandia, departamentos da França). Esses gauleses, rústicos e durões, que até então estavam fora da órbita romana, eram chamado de galos cabeludos (Gallo comata), para separá-los dos chamados galos togados (já totalmente romanizados).
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Gallia est divisa in partes tres |
Caçadores e guerreiros, envolvidos em intermináveis desavenças tribais, os galos cabeludos desprezavam a atividade agrícola, apesar da grande fertilidade do solo da França. Dedicavam-se à criação de cavalos e de gado doméstico, havendo porém ente eles grandes artistas no trabalho com bronze, estanho, e objetos de prata. O pouco comércio que conheciam era em geral praticado por comerciantes romanos que trafegavam pelos seus rios e aldeias, trazendo-lhes produtos de fora.
Reis, chefes e druidas
A organização política dos gauleses, ou a ausência dela, foi sua perdição. A Terra dos Celtas era uma barafunda de tribos que ora eram governadas por um pequeno número de nobres guerreiros, outra por reis ou chefes clânicos, e até por um curioso tipo de magistrado, o Vergobret, escolhido, tal como o cônsul romano, por um período de um ano. Para o leitor de César fica evidente que a diversidade política dos galos cabeludos, e o desacerto que dai decorre, facilitou sua capitulação final frente aos romanos. Contra os galos cabeludos, César pôde exercer a plenitude da máxima Divide ut regnes, divide e domina, tática que os lideres romanos sempre souberam tão bem aplicar contra os outros povos.
As deidades celtas
Se eles desacertavam-se, envolvidos em intermináveis rixas tribais, havia porém um sentimento unívoco deles pertencerem a um universo religiosos só. Belenus, o deus da luz, Belisama, a deusa da luz e do fogo, Cernunnos, o deus da fertilidade, Epona a protetora dos cavalos, e Smertrios, o deus da guerra (o Marte dos gauleses), eram deidades sagradas em todo o mundo celta.
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Cernunnos, o deus-alce, símbolo da fertilidade |
Como também existiam entre eles a confraria dos Druídas, os sacerdotes-xamãs que formavam a influente elite religiosa. Anualmente, vindos das mais distantes regiões da Terra dos Celtas, eles se reuniam num grande concílio em Chartres (onde, bem mais tarde, no século XII, a Igreja Católica, para celebrar sua vitória sobre o paganismo, fez erguer uma das maiores catedrais da Europa), para trocarem receitas de poções e saberem das novidades.
A campanha de César na Gália
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Caio Júlio César (100-44.a.C.) |
Sabendo explorar as desavenças e as eternas desconfianças reinantes entre os gauleses cabeludos, particularmente entre as duas grandes tribos que habitavam a parte central da Gália, os heudos e os arvernos, César se pôs em marcha. O pretexto para intervir na Gália transalpina foi a provável invasão dela pelos germanos, que faziam ameaças do outro lado do Rio Reno.
Com apenas quatro legiões (a 7ª, a ª, a 9ª, e a 10ª), uns 24 mil homens, fora as tropas auxiliares, o romano deslocou-se pelos seis anos seguintes, entre 58 a 52 a.C., por quase todo o território da Gália, impondo-lhe a obediência ao gládio e à lei de Roma. Sob seu comando, à sua disposição, ele tinha a maior invenção de Roma em todos os tempos: a Legião.
A legião romana
Impressionante parte da máquina de guerra romana, cada legião tinha um efetivo de 5000 a 5500 soldados engajados por contrato. Disciplinados e bem treinados, divididos em coortes, em centúrias e decúrias, os legionários, auxiliados por uma cavalaria audaz, realizavam maravilhas nos campos de batalha. Não só neles. Mesmo no descanso, eles não tinham descanso. No acampamento era o momento em que o pilus (a lança) era substituída pela pá.
Com ela cavavam uma trincheira retangular ao redor das barracas e erguiam paliçadas no perímetro delas para nunca serem pegos de surpresa pelos inimigos. Eram capazes de, arrumados em linhas (veliti, manipoli di astati, principi, e di triarii), onde recrutas e veteranos se intercalavam, enfrentar contingentes de forças muito superiores as suas, graças à coesão e às táticas de luta em conjunto em que se exercitavam.
Em geral, os bárbaros,
desconsiderando o comando único, atacavam em hordas, onde cada clã, quase cada
guerreiro, tratava de vencer por si só a batalha, tornando-se presa fácil das
organizadas tropas romanas. Mesmo quando depois de ter recebido reforços (seu
efetivo parece ter saltado para 50-55 mil homens), não deixa de ser
impressionante o fato de César ter submetido um território de 600 mil km2 com
tão pouca gente.
O exemplo de César
O próprio César revelou-se um comandante notável. Vestindo o paludamentum, uma cota militar vermelha para poder ser visto de qualquer canto da batalha pelos seus soldados, foram inúmeras as vezes em que ele empunhou um escudo e foi para as linhas de frente dar ânimo aos seus soldados. bateu os helvécios, os germanos, os belgas, os vênetos e armóricos, os bretões e finalmente sufocou a resistência dos gauleses arvernos.
Suas tropas marcharam pelos Montes Jura, pelas margens do Rio Reno (chegando a construir pontes para atravessá-lo), pelas florestas das Ardenas, pelas planícies do Flandres, pela costa do atlântico, e, atravessando o Canal da Mancha, chegaram às ilhas britânicas. Idolatrado pelos soldados, César os acompanhava a cavalo ou a pé, procurando estar sempre presente nos pontos mais frágeis da defesa para que o seu exemplo de destemor e tranqüilidade, não permitisse os soldados a desandarem ou a desertarem.
Alésia e a capitulação de Vercingetórix
O levante de Vercingetórix, o chefe dos galos arvernos, foi um dos mais impressionantes e emocionantes acontecimentos da história antiga. O grande caudilho, decepcionado pelo conformismo da nobreza gaulesa com a ocupação romana, "faz nos campos", narrou César, "um alistamento de pobretões e homens perdidos. Com esta tropa chama a seu partido todos os da cidade, que vai encontrando; exorta-os a tomarem armas pela liberdade comum".
A essa altura a Gália inteira ferveu. O gaulês insurgente consegue impor uma derrota parcial às legiões de César que tentaram capturá-lo em Gergóvia (perto de Clermont-Ferrant), conclamando então o povo a uma guerra total contra os romanos. Que queimassem tudo, as choças e as colheitas, nada deixando ao invasor. César, porém, se recupera e aplica sucessivas derrotas à cavalaria gaulesa.
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O gaulês agonizante, símbolo da derrota de um povo livre |
Vercingetórix, retirando-se com 80 mil homens e 9 mil cavalos para Alésia, no
alto do Monte Auxois, pensa em repetir Gergóvia, onde resistira com êxito ao
sitio do romano. Só que desta vez foi diferente. César tomou-se de precauções.
Os seus engenheiros traçaram rapidamente um plano de circunvalação do oppidum, a
fortificação dos gauleses. De novo os 55 mil legionários empunharam a pá. Em
seis semanas eles abriram mais de vinte quilômetros de trincheiras, montando um
complexo sistema de valos, fossas, armadilhas as mais diversas, e uma paliçada
completa, com torres erguidas a cada 120 metros. César decidira-se matar os
gauleses pela fome.
Vercingetórix, liberando sua cavalaria, ordenou que eles trouxessem reforços de todas as partes da Gália. Novamente César se precaveu. Uma outra circunvalação foi escavada, desta vez voltada para fora, para poder resistir ao inevitável ataque que viria dentro de uns tempos. De fato, uma massa de 250 mil gauleses de quase todas as tribos, partira em socorro do capitão gaulês preso pelo garrote romano em Alésia.
Enquanto isso no interior da cidade cercada, a fome fazia seus estragos. Casos de antropofagia começara a ocorrer. As esperanças de Vercingetórix de ser salvo se esvaíram quando ele viu lá dos altos da sua paliçada, os romanos de César aplicarem uma derrota acachapante nos reforços que viriam tirá-lo do apremio. Sim pois eles conseguiram por a correr aquela multidão formidável. A batalha pela liberdade estava perdida. A Gália cativa.
A atitude nobre de Vercingetórix
No dia seguinte ao desastre. Quando não havia na Gália inteira nenhuma força organizada para poder fazer reverter o sitio de Alésia, Vercingetórix convocou o conselho militar dos seus oficiais. Nas palavras de César "demonstra-lhes que havia empreendido a guerra, não por interesse seu particular, mas pela liberdade comum, e pois que se tinha que ceder à fortuna, se lhes oferecia para uma das duas coisas, ou para com sua morte satisfazer aos romanos, ou para o entregarem vivo aos mesmos, como melhor entendessem.
E foi assim que procedeu. Montando no seu corcel, vestido de luzente armadura, Vercingetórix cavalgou para o acampamento do inimigo. César o recebeu num tablado improvisado, onde sentava num pequeno trono. Ordenou ao vencido que entregasse o cavalo e suas armas a guarda.
Vercingetórix se desafez de tudo e foi sentar-se aos pés de César. Os demais gauleses sobreviventes foram entregues aos legionários como butim de guerra. O bravo Vercingetórix foi posteriormente conduzido à Roma onde terminou decapitado, talvez uns cinco anos depois de Alésia.
Depois de Alésia
Para César essa batalha foi decisiva na sua carreira. Vitorioso na Gália, ele decidiu-se três anos depois, ao atravessar o Rubicão em 49 a.C., disputar com Cneu Pompeu a hegemonia sobre a República Romana, tornada império universal. Venceu-o.
Tornou-se ditador em 46 a.C. e morreu assassinado nos idos de março de 44 a.C. numa conspiração de senadores, entre os quais Bruto que, uns anos antes, estava com ele, ajudando-o a derrotar Vencingetórix. O poder depois da morte de César foi disputado entre seu sobrinho-neto Otávio, e um antigo auxiliar de César, Marco Antônio (também um veterano das Guerras da Gália).
Para a Gália, a derrota em Alésia significou a derrocada da cultura celta e sua substituição pela romana. César, ao ordenar que o latim se tornasse a língua oficial das tribos gaulesas submetidas, foi, de certa forma, um dos forjadores da língua francesa atual, uma das mais belas heranças da Roma Antiga. Deste então, surgiu na Gália uma nova civilização: a Galo-romana.
Bem mais tarde, no século III, na época da anarquia militar, aproveitando-se da situação caótica em que o império romano se encontrava, durante 14 anos seis chefes galo-romanos proclamaram-se imperadores (de 259 a 273). Este surto independentista pode ser considerado como a última manifestação dos gauleses de tentarem reaver sua independência, ainda que abrigados com o manto do imperador de Roma.
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O gaulês ferido, expressão do desalento de um povo |
As campanhas de César na Gália (58-52 a.C.)
| Data | Nação | Rei/Líder | Motivo da Guerra |
| 58 a.C. | Helvécios | Dunórix | Tentativa dos helvécios de invadirem, partindo da Suíça, o Sul da Galia. Foram derrotados por César na batalha de Bibracte, aceitando em seguida a situação de vassalagem. |
| 57 a.C. | Germanos | Ariovisto | Luta pela hegemonia da Gália setentrional. Os germanos foram derrotados perto de Besançon, na Alta Alsácia e Ariovisto buscou refugio além do Rio Reno. César ordena a travessia do rio dos germanos para punir a tribo dos sugambros. |
| 56 a.C. | Belgas | Galba | Reação das tribos belgas à presença romana na sua fronteira. Batidos por César perto de Novon, capitulam. |
| 55 a.C. | Tribos marítimas | - | César se desloca para a costa atlântica e enfrenta os gauleses armóricos ou vênetos, numa guerra por terra e por mar. Duras represálias contra as lideranças das tribos marítimas que resistiram aos romanos. |
| 55-4 a.C. | Bretões | Casivelauno | Expedição punitiva de César às ilhas britânica pelos bretões terem dado abrigo aos patriotas da armórica que lá procuraram refúgio. Depois de um acordo, César recuo para a Gália. |
| 53 a.C. | Gauleses | Ambriórix e outros | Levante geral contra os romanos. César com sua presença consegue fazer refluir o movimento. |
| 52 a.C. | Gauleses | Vercingetórix | Nova insurreição, desta vez popular. Trata-se de uma rebelião geral contra o invasor. César é batido em Gergóvia, mas, em seguida, consegue cercar os gauleses em Alésia. Rendição de Vercingetórix. Fim da Gália independente, tornada desde então província romana. |
Fonte: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/antiga/galia1.htm
De Bello Galico - Livro Primeiro
Descrição de GÁLIA — c. 1 — Tentam os helvécios invadi-la mas são derrotados por Cesar em duas batalhas e os restantes compelidos a voltar à patria, donde tinham saído. — c. 2-29. — Queixam-se os gauleses a Cesar de Ariovisto, rei dos germanos, que ocupava o território dos Sequanos. Manda Cesar embaixadores a Ariovisto para compor as coisas, mas em vão. c. 30-36. Marcha contra ele com as tropas a princípio desanimadas, depois alvoroçadas por exortação sua. Conferenciam os chefes dos dois campos, mas sem resultado algum. Recorre-se, por fim, à fortuna das armas, e recebendo grande perda, fogem os germanos da Gália c. 37-54.
1. — A Galia está toda dividida em três partes, das quais uma é
habitada pelos belgas, a outra pelos aquitanios, a terceira pelos que em sua
língua deles se chamam celtas, na nossa gauleses. Diferem todos esses povos, uns
dos outros, na língua, nos costumes, e nas leis. Extrema os gauleses dos
aquitanios o rio Garona; dos belgas, o Mátrona(1)
e o Séquana(2).
De todos eles são os belgas os mais fortes, por isso mesmo que estão mais longe
da cultura e polícia da província romana, e não vão lá a miúde mercadores, nem
lhes levam coisa que lhes enerve o vigor; e vizinham com os germanos(3),
que habitam além do Rim, e com quem andam continuamente em guerra. Por esta
mesma causa excedem também os helvecios(4)
em valor aos mais gauleses; pois contendem com os germanos em refregas quase
quotidianas, quando ou os repelem de suas fronteiras, ou nas próprias fronteiras
desses fazem a guerra, A parte ocupada pelos gauleses tem princípio no rio
Rodano; limite, no Garona, no Oceano, e nas fronteiras dos belgas; toca também
no Rim pelo lado dos sequanos(5)
e dos helvecios; e inclina ao setentrião. Os belgas(6)
começam nas extremas fronteiras da Gália; estendem-se até a parte inferior do
Rim; e olham para o setentrião e o sol nascente. A Aquitania extende-se do rio
Garona aos montes Pirineus e à parte do Oceano que beija a Espanha e olha por
entre o ocaso do sol e o setentrião.
II. — Foi Orgetorix o maior potentado entre os helvecios por sua
linhagem e riquezas. Levado da ambição de reinar, fez uma conjuração da nobreza,
no consulado de Marco Messala e Marco Pisão, e persuadiu à sua cidade(7)
que saísse do país com todas as forças, dizendo ser facílimo assenhorearem-se os
helvecios do império das Gálias, visto como em valor excediam a todos os mais
gauleses. E persuadiu-lho tanto mais facilmente, que de todos os lados se vêm os
helvecios estreitos(8)
pela natureza do lugar; de uma parte, pelo Rim, mui largo e profundo rio, que os
extrema dos germanos; de outra, pelo Jura, monte altíssimo, que se interpõe
entre eles e os sequanos; de outra enfim, pelo lago Lemano(9)
e rio Rodano, que deles extrema a nossa província. Originava-se daí poderem
estender-se menos, e menos facilmente fazer guerra aos vizinhos; o que, para
gente tão belicosa, era ocasião de grande mágua. Atentando pois, no seu tão
avultado número, e na tão transcendente glória de seus feitos militares,
reputavam acanhado seu território, que se extendia duzentos e sessenta mil
passos em comprimento e cento e oitenta mil em largura.
III. — Compenetrados disto, e movidos da autoridade de Orgetorix,
resolveram aprestar o que respeitava à emigração, comprando quanto mais bestas e
carros, fazendo quanto mais sementeiras para não faltar pão na jornada, e
estabelecendo paz e amizade com as cidades(10)
vizinhas. Assentando bastar-lhes para isto um biênio, confirmam por lei a
emigração para o terceiro ano. A levá-lo a efeito designa-se Orgetorix que se
encarrega da negociação com as cidades vizinhas. Partido neste pressuposto
dentre os seus, a Castico, filho de Catamantaledes, sequano de nação, cujo pai
fora rei dos sequanos muitos anos, e honrado com o título de amigo pelo Senado
do povo romano, persuade assuma na sua cidade a realeza dantes exercida por seu
pai; também a Dunorix, heduo(11)
de nação, irmão de Diviciaco, o maior potentado então entre os seus, e mui
popular, persuade tente o mesmo, dando-lhe sua filha em casamento.
Demonstra-lhes ser mui fácil realizar a empresa, sendo ele rei dos helvecios que
ninguém contestava serem os mais poderosos dos gauleses, assegurando-os de que
com seus cabedais e exércitos lhes havia conciliar a realeza a eles. Induzidos
por este discurso, dão promessa e juramento entre si, esperando poder, com a
usurpação da soberania, assenhorear-se da Gália toda por meio dos três mais
poderosos e valentes povos dela.
IV — Denunciado aos helvécios, obrigam-no eles, conforme a usança, a
defender-se preso: condenado, era a pena ser queimado vivo. No dia designado
para a defesa, faz Orgetorix cercar o tribunal de todos os seus até dez mil, bem
como de grande número de clientes e devedores, e por eles exime-se violentamente
da obrigação de responder em juizo. Pretendendo a cidade indignada sustentar o
seu direito pelas armas, e apelidando para isso os magistrados multidão de
homens dos campos, morre neste meio tempo Orgetorix não sem suspeita, na opinião
dos compatriotas, de se haver dado morte a si.
V — Depois da morte dele resolvem-se nada obstante os helvecios a
emigrar, como tinham assentado. Quando se julgam para isso aparelhados, põem
fogo a todas as suas cidades em número de doze, as suas aldeias no de
quatrocentas, aos mais edifícios particulares, e a todo o trigo que não haviam
de levar consigo, para que, tirada a esperança de regresso à patria, se achassem
mais hábeis a arrostar todo gênero de perigos, provendo-se cada um de farinha e
vitualhas para três meses. Aos rauracos(12),
tulingos(13) e
latobrigos(14),
vizinhos seus, persuadem que, queimadas suas cidades e aldeias, emigrem
conjuntamente com eles; e aos boios que tendo passado o Rim, e invadido o
território norico(15),
conquistaram Noreia, associam-nos a si como aliados.
VI — Havia somente dois caminhos, pelos quais podiam sair de casa(16);
um através dos sequanos(17),
estreito e difícil, por entre o monte Jura e o rio Ródano, por onde mal
passariam carros um a um; ficava-lhe porém à cavaleiro o monte altíssimo, em
modo que dos desfiladeiros podiam mui poucos embargar-lhes o passo: o outro pela
nossa província, muito mais fácil e expedito, pois que, por entre as fronteiras
dos helvecios e as dos alobroges(18)
de pouco pacificados, corre o Ródano que em alguns lugares se vadeia. Extrema
cidade dos alobroges e vizinha às fronteiras dos helvecios é Genebra que por uma
ponte a estes se liga. Aos alobroges, por que ainda não pareciam bem dispostos
em favor dos romanos, supunham ou haver de mover ou forçar a lhes concederem
passagem por suas terras, Aparelhado tudo para a partida, designam o dia em que
se haviam de reunir todos na margem do Rodano. Era esse o quinto antes das
Calendas de abril (28 de março), sendo cônsules Lucio, Pisão e Aulo Gabinio.
VII — Comunicado a Cesar o intentarem eles fazer passagem pela nossa
província, dá-se pressa a partir de Roma, e, encaminhando-se à grandes jornadas
para a Gália ulterior, chega a Genebra. Ordena as maiores levas de soldados pela
província toda, porque só havia nela uma legião; e manda cortar a ponte de
Genebra. Sabedores da chegada dele, deputam-lhe os helvecios os mais nobres da
cidade, a cuja frente vinham Nameio e Verucloecio com esta embaixada: “Que
tencionavam passar pela província sem fazer mal, pois nenhum outro caminho
tinham, e lhe pediam o permitisse de bom grado.” Cesar, que tinha em lembrança
haverem os helvecios morto ao cônsul Lucio Cassio, desbaratado e feito passar
por baixo de jugo o seu exército, não vinha na permissão; nem tão pouco
acreditava que forças hostis se abstivessem de, em sua passagem pela província,
ofender e fazer mal. Contudo, para dar espaço a se reunirem as levas que
ordenara, respondeu aos embaixadores que tomaria tempo para deliberar, e viessam
pela resposta nos idos de abril (a 13 desse mês).
VIII — Entrementes, com a legião que consigo tinha e as levas chegadas
da província, desde o lago Lemano por onde corre o Rodano, té o monte Jura, que
extrema os sequanos dos helvecios, levanta em espaço de dezenove mil passos uma
muralha de dezeseis pés de alto, guarnecida de um fosso. Concluída a obra,
dispõe por ela presídios em castelos fortificados, para mais facilmente poder
tolher-lhes o passo, se, seu mau grado dele, tentassem passar. Quando chegou o
dia aprazado aos embaixadores, e voltaram a saber da resposta, declarou-lhes
formalmente que, segundo o costume e exemplo do povo romano, a ninguém podia
conceder passagem pela província, acrescentando que, caso tentassem fazê-lo por
força, estava aparelhado para vedar-lho. Decaídos desta esperança, fazem os
helvecios diversas tentativas para romper, uns em canoas unidas e jangadas
fabricadas em grande número, outros pelos vaus do Rodano, onde a profundidade do
rio é menor, ora de dia e mais vezes de noite; repelidos, porém, quer pela
resistencia da fortificação, quer pelas armas e bravura dos soldados, desistem
por fim da empresa.
IX — Restava o caminho através dos sequanos, por onde não podiam, mau
grado destes, passar em razão dos desfiladeiros. Não podendo obter por si o
consenso dos sequanos, enviam embaixadores ao heduo Dunorix, para que, por
intercessão sua, lho alcance deles. Era Dunorix mui acreditado com os sequanos
por sua largueza e popularidade, e amigo dos helvecios, porque tinha casado com
a filha de Orgetorix dessa cidade, e ambicionando a realeza entre os seus
favorecia empresas arriscadas, para ter quanto mais cidades ligadas a si por
benefícios, Encarrega-se, pois, da negociação, e alcança dos sequanos permissão
para passarem os helvecios pelas fronteiras deles(19),
fazendo com que se dêm reféns reciprocamente: os sequanos, para que aos
helvecios não tolham o passo; os helvecios, para que passem sem fazer mal, nem
ofender.
X — Comunicado a Cesar o tencionarem os helvecios fazer passagem pelas
fronteiras dos sequanos e heduos(20)
para as dos santones(21),
que não distam muito dos tolosates(22)
cidade situada na província, entendia que, se tal acontecesse, havia de ser com
grande perigo do sossego da província, que teria por vizinha em campos sumamente
ubertosos a essa gente belicosa e inimiga do povo romano. Assim, prepondo o seu
lugar tenente Tito Labieno à fortificação que fizera, parte para a Itália a toda
a pressa, alista ali duas legiões, tira de seus quartéis mais três que
invernavam nos arredores de Aquileia, e com estas cinco legiões marcha para a
Gália pelos Alpes, caminho mais curto. Aí tentam os centrones(23)
graiocelos(24),
e caturiges(25)
embargar o passo ao exército, ocupadas as alturas. Depois de os rechaçar em
muitos recontros, de Ocelo(26)
que é o extremo da província citerior, chega com sete dias de marcha às
fronteiras dos voconcios(27)
na província ulterior; daí abala com o exército para as dos alobroges; dos
alobroges para os segusiavos(28)
que são os primeiros além do Rodano ao sair da província.
XI — Já haviam os helvecios transposto as gargantas e fronteiras(29)
dos sequanos, e chegados às dos heduos devastavam-lhes os campos. Não podendo
defender-se a si e seus haveres, mandam os heduos embaixadores a Cesar
implorar-lhe auxílio nestes termos: “Que eles sempre tinham servido ao povo
romano de maneira que, sendo quase expectador o nosso exército, não deviam ser
seus campos talados, seus filhos cativados, suas cidades conquistadas.” Ao mesmo
tempo os heduos ambarros, amigos e consangüíneos dos heduos, fazem a Cesar
sabedor que eles, despovoada a campanha, dificilmente repeliriam das cidades a
força dos inimigos. Da mesma forma os alobroges, que tinham aldeias e possessões
além do Rodano, fugindo buscam amparo em Cesar, demonstrando que, além do solo
do terreno, nada mais lhes resta. Comovido com tais estragos, não espera Cesar
que, consumidas todas as fortunas dos aliados, penetrem os helvecios até os
santones.
XII — É o Arar(30)
um rio, que pelas fronteiras dos heduos e sequanos se dirige o Rodano com
placidez tal, que não se pode distinguir com a vista para qual das duas partes
corre: passavam-no os helvecios em jangadas e pontes de barcas. Sabedor pelos
exploradores de terem eles já passado três partes das tropas além deste rio, e
testar quase a quarta aquém deles, Cesar, partindo dos arraiais na terceira vela
da noite com três legiões, alcança aos que ainda não haviam transposto o rio; e
atacando-os de improviso, quando embaraçados e desprevenidos, faz neles grande
mortandade, fugindo e acolhendo-se o restante aos vizinhos bosques. Chamava-se
Tigurino(31)
este cantão, sendo que toda a cidade Helvecia em quatro cantões se acha
dividida. Este mesmo, o único que saira da pátria em tempo de nossos país, havia
morto o cônsul Lucio Cassio, e feito passar por baixo de jugo o seu exército.
Assim ou fosse caso, ou providência dos deuses imortais, a parte da cidade
Helvecia que ocasionou insígne calamidade ao povo romano, foi também a primeira
a sofrer o castigo. Nisto não só vingou Cesar a pública ofensa, mas ainda a
particular, porque na mesma batalha em que mataram a Cassio, haviam também os
tigurinos morto ao seu lugar tenente Lucio Pisão, avô de Lucio Pisão, sogro
dele, Cesar.
XIII — Para poder alcançar as restantes tropas dos helvecios, manda,
depois desta batalha, fazer uma ponte no Arar, e por ela passa o exército.
Abalados com tão repentina vinda, vendo fizera Cesar num dia o que mal tinham
eles conseguido em vinte, o passar o rio, enviam-lhe os helvecios embaixadores,
a cuja frente se notava Divicão, antigo caudilho seu na guerra contra Cassio.
Falou ele a Cesar nesta substância: “Que, se o povo romano fizesse com os
helvecios paz e amizade, haviam os helvecios de ir para onde, e permanecer aonde
o quisesse Cesar; mas, se persistisse em guerreá-los, tivesse em lembrança o
antigo desastre do povo romano, e o valor dos helvecios — Por haver de improviso
atacado um cantão, quando os que tinham passado o rio não podiam socorrer os
seus, nem se ensoberbecesse ele tanto, nem os desprezasse a eles, que mais
haviam aprendido de seus passados a combater com denodo, que a armar ciladas e
traições — Não fosse, pois, ocasião para que o lugar em que haviam feito alto,
servisse de monumento no porvir, tomando nome da calamidade dos romanos e
destruição de seu exército.”
XIV — A isto respondeu Cesar: “Que não lhe restava a menor dúvida,
porque conservava muito em lembrança o que mencionavam os helvecios, e tanto
mais, quanto menos causa dera a tal o povo romano, que, se tivesse consciência
de havê-los ofendido, facilmente se acautelaria; — fora porém enganado, porisso
mesmo que, não tendo praticado coisa de que se houvesse de arrecear, não julgava
dever temer sem fundamënto — Mas, ainda quando quisesse esquecer a antiga
ofensa, podia também apagar da memória as recentes, de tentarem passar a força
pela nossa província, e devastarem o território aos heduos, ambarros e alobroges?
— Quanto a se gloriarem tão insolentemente de sua vitória, e admirarem de haver
ele por tanto tempo suportado a ofensa impunemente: que os deuses imortais, para
ser mais dolorosa a mudança de fortuna aos homens, costumavam às vezes conceder
aos maus, que queriam castigar, maior soma de felicidades e impunidade mais
duradoura; que, nada obstante, se lhe dessem reféns para fiança de que haviam de
cumprir o prometido, aos heduos satisfação das ofensas a eles e seus aliados
feitas, e igualmente satisfação aos alobroges, ele faria com eles paz e
amizade.” Divicão replicou: “Que os helvecios tinham aprendido de seus passados,
não a dar, mas a receber reféns, como bem o sabia o povo romano.” E com isto
retirou-se.
XV — No seguinte dia levantam campo. Faz Cesar outro tanto; e para
observar a marcha do inimigo, manda diante toda cavalaria, havida da província,
dos heduos e seus aliados, em número de quatro mil homens. — Pica esta com
demasiado ardor a retaguarda inimiga, e travando combate com a cavalaria dos
helvecios em lugar desvantajoso, caem poucos dos nossos. Ensoberbecidos por
terem com quinhentos de cavalo rechaçado tamanha força de cavalaria, entram os
helvecios a fazer-nos rosto mais desassombradamente, provocando muitas vezes com
sua retaguarda aos nossos da vanguarda, Vedava Cesar aos seus o pelejar,
contentando-se por então com tolher ao inimigo a possibilidade de rapinar,
forragear e despovoar a campanha. Assim marcharam cerca de quinze dias, não
medeiando mais de seis mil passos entre a retaguarda do inimigo e a nossa
vanguarda.
XVI — No entanto, todos os dias requeria Cesar aos heduos o trigo que
tinham solenemente prometido; pois, achando-se a Galia, como antes se disse,
situada sob o setentrião, não só não estavam maduras as messes por amor do frio,
mas nem ainda abundava assás forragem nos campos. Do trigo, porém, que fazia
transportar em barcos pelo Arar, não podia ele utilizar-se, por haverem os
helvecios, de quem se não queria apartar, desviado a marcha do Arar. Remetiam-no
os heduos de dia para dia; o trigo, segundo eles, estava-se aprontando,
transportando, vinha chegando. Vendo tamanha demora, e achar-se iminente o dia
em que convinha medir trigo aos soldados, convoca os principais gauleses, dos
quais contava grande número no seu campo, e entre esses a Divicaco e Lisco que
exercia o cargo de vergobreto, magistratura suprema e anual, que tem
sobre os seus poder de vida e morte; acusa-os gravemente, porque, não podendo
comprar-se, nem tão pouco colher-se nos campos, o não socorriam com trigo em
ocasião tão urgente, tão próximos do inimigo, quando principalmente movido em
grande parte pelas súplicas deles é que empreendeu a guerra; e queixa-se
amargamente de estar sendo abandonado.
XVII — Abalado com este discurso de Cesar, expõe Lisco o que antes
calara: “Que havia alguns particulares que por sua grande autoridade com o povo
tinham mais poder, que os mesmos magistrados; e esses tais com discursos
sediciosos despersuadiam a multidão de concorrer com trigo, dizendo que, uma vez
que não podiam ser senhores da Galia, deviam os heduos preferir aos dos romanos
o jugo dos gauleses, não duvidando que, vencedores dos helvecios, não houvessem
os romanos de extorquir aos heduos a liberdade conjuntamente com o resto da
Galia; — que pelos mesmos que não tinha força para coibir, era o inimigo
informado de nossos planos e quanto se passava nos arraiais; — e só ele sabia
com que risco, obrigado da necessidade, comunicava isto a Cesar, e por isso
guardara silêncio, enquanto lhe fora possível.”
XVIII — Bem via Cesar ser por este discurso de Lisco indicado Dunorix,
irmão de Diviciaco; não querendo, porém, que isto se aventasse em presença de
muitos, despede a assembléia à pressa e retendo a Lisco, inquire dele,
particularmente, o que dissera na reunião. Fala este mais livre e
desassombradamente. Informa-se secretamente de outros e acha conforme a verdade:
“Ser Dunorix sumamente audaz, mui acreditado com o povo por sua
liberalidade, desejoso de nova ordem de coisas, e muitos anos arrematante por
baixo preço das portagens e mais rendas dos heduos, porque licitando ele,
ninguém mais ousava fazê-lo, havendo com isso não só acrescentado sua fortuna
particular, mas ainda adquirindo imensos cabedais para despender em larguezas e
acercar-se sempre de grande força de cavalaria sustentada a sua custa; — ser mui
poderoso assim entre os seus, como nas vizinhas cidades, e tanto que casou a mãe
entre os bituriges(32)
com o maior potentado dali(33),
a si com mulher helvecia, e a irmã por parte de mãe e parentes em outras
cidades; — mui afeiçoado aos helvecios e grande seu beneficiador por sua
afinidade com eles, hostil por interesse próprio a Cesar e aos romanos, pois
fora com a vinda deles diminuido seu poderio, e restituído o irmão Diviciaco a
antiga autoridade e honraria; sendo que, se ficassem mal os romanos, concebia
suma esperança de ser rei com o auxílio dos helvecios, e, no dominio romano, não
só perdia essa esperança, mas até a de conservar o poder que tinha.” Inquirindo
descobre também Cesar: “Ser o princípio da derrota da cavalaria, no combate
havido poucos dias antes, obra de Dunorix que comandava a cavalaria mandada
pelos heduos a Cesar; pois com a fuga dessa se aterrara a demais.”
XIX — Acrescendo, pois, a estas suspeitas os fatos incontestáveis de
ter proporcionado passagem aos helvecios pelas fronteiras dos sequanos, fazendo
para isso com que se dessem reféns reciprocamente, de o haver praticado não só
sem consentimento, mas nem ainda conhecimento de Cesar e da cidade, e ser
acusado pelo magistrado dos heduos, julgava haver assás fundamento ou para
puni-lo ele mesmo, ou para ordenar à cidade que o punisse. A isto, porém,
repugnava uma única coisa, que era ter encontrado em Diviciaco devoção suma para
com o povo romano, benevolência extreme para com sua pessoa, egrégia lealdade,
justiça e moderação; receava sobretudo ofendê-lo com o suplício do irmão. Assim,
antes de tentar coisa alguma, manda chamar a Diviciaco; e, removidos os
intérpretes quotidianos, por Caio Valerio Procilo, homem principal da província
da Galia, amigo e confidente seu, se abre com esse, expondo tanto o que em sua
presença se dissera de Dunorix na assembléia dos gauleses, como o que se
referira deste em particular, e pede-lhe instância, não leve a mal, ou que ele
lhe castigue o irmão, ou que ordene a cidade o faça.
XX — Abraçando a Cesar com muitas lágrimas, entrou Diviciaco a
suplicar-lhe, nada ordenasse de grave contra o irmão, dizendo sabia ser tudo
aquilo verdade, e ninguém concebia disso maior dor que ele, pois sendo o mais
poderoso entre os seus e no resto da Galia, quando o irmão o era mui pouco por
sua mocidade, o havia com seu crédito elevado, do que agora abusava este, não só
para cercear-lhe a autoridade, mas até para perdê-lo; comovia-se, nada obstante,
com o fraternal amor e a opinião dos homens; pois se alguma coisa grave viesse
ao irmão da parte de Cesar, ninguém de certo acreditaria que, sendo tal sua
amizade com Cesar, deixara de nisso ter também parte, donde resultaria ficar-lhe
adversa a Galia toda. Prosseguindo ele em suas instâncias todo banhado em
pranto, toma-lhe Cesar a dextra, consola-o e pede-lhe, ponha termo às suplicas;
porque tão singular amizade lhe votava, que tanto a ofensa da república, como a
sua, ao seu querer e pedido dele de mui bom grado as remitia. Manda chamar a
Dunorix, repreende-o em presença do irmão, enumerando os agravos que de seu
procedimento tinham ele Cesar e a cidade, admoesta-o a evitar toda a suspeita
para o futuro, e acrescentando que por amor do irmão, Diviciaco, lhe perdoava o
passado, põe-lhe vigias para saber o que faz e com quem fala.
XXI — No mesmo dia sabendo dos exploradores haver o inimigo acampado
junto a um monte a oito mil passos de nossos arraiais, faz examinar a natureza
do monte e sua subida em torno. Vindo no conhecimento ser fácil, à terceira vela
da noite manda o lugar tenente pro pretor(34),
Tito Labieno, com duas legiões e os guias conhecedores do caminho ocupar a
cumiada ao monte, expondo-lhe de antemão seu plano. À quarta vela da noite,
tendo enviado diante a cavalaria, marcha em pessoa ao inimigo pelo mesmo caminho
que este tomara. Publio Considio que passava por militar mui experimentado, e
servira no exército de Lucio Sila, e depois no de Marco Crasso, é mandado diante
com os exploradores.
XXII. — Ao romper d’alva, ocupada por Labieno a cumiada do monte, e
distante Cesar do inimigo mil e quinhentos passos, sem que fosse pressentida,
nem sua vinda, nem a de Labieno, como depois soube dos cativos, corre Considio à
desfilada anunciar-lhe estar pelo inimigo ocupado o monte, que desejara o fosse
por Labieno, e havê-lo conhecido pelas armas e insígnias gaulesas. Conduz Cesar
suas tropas para um vizinho monte, e as forma em ordem de batalha. Labieno, como
lhe fora ordenado, não combatesse, enquanto não visse as tropas de Cesar perto
do campo inimigo, para que dessem juntamente nele de todos os lados, senhor do
monte abstinha-se de atacar, aguardando os nossos. Alto dia, enfim, veio Cesar a
saber dos exploradores, acharem-se não só os nossos de posse do monte, mas terem
os helvecios levantado campo e haver-lhe Considio, cortado de terror, anunciado
como visto o que não vira. Segue esse dia ao inimigo com o costumado intervalo,
e acampa a três mil passos dele.
XXIII — No seguinte, como faltavam sós dois dias para medir trigo ao
exército, e não distava de Bibracte(35),
a maior e a mais bem provida cidade dos heduos, senão dezoito mil passos, julgou
dever entender no provimento de víveres, e desviando-se dos helvecios marchou em
direitura à Bibracte. É isto logo denunciado ao inimigo pelos transfugas de
Lucio Emilio, decurião da cavalana gaulesa(36).
Os helvecios, ou por entenderem que os romanos se retiravam cortados de temor,
mui principalmente porque senhores das alturas os não haviam atacado na véspera,
ou por confiarem poder tolher-lhes o provimento de víveres, mudada a resolução e
a marcha, entram a picar e provocar a nossa retaguarda.
XXIV. — Em o notando, manda Cesar a cavalaria sustentar o ímpeto dos
inimigos, e marcha com suas tropas(37),
para um vizinho monte. No meio deste, forma três linhas com as quatro legiões
veteranas; no cume, posta à cavaleiro destas as duas legiões de próximo
alistadas na Gaba citerior(38),
e tropas auxiliares, enchendo todo de homens o monte; e ordena sejam as bagagens
reunidas num ponto, e este defendido pelos que estavam postados nas alturas.
Seguindo-o com todos os seus carros, reúnem também os helvecios num ponto as
bagagens; e repelindo cerrados nossa cavalaria, sobem a investir nossa primeira
linha ordenados em falange.
XXV — Removido primeiramente o seu, depois os cavalos de todos, para
que, igualado o perigo, tirasse a esperança de fuga, exortando os seus, trava
Cesar a batalha. Arremessando os pilos do alto, rompem facilmente os soldados a
falange aos inimigos; rota esta, arremetem contra eles espada em punho. Grande
embaraço para a peleja era aos gauleses(39)
o haverem-lhes os pilos varado e ligado de um golpe muitos escudos(40),
de modo que, encurvado o ferro, o não podiam arrancar, nem pelejar assás
comodamente, impedida a esquerda, e sacudindo constantemente o braço, desejavam
muitos arrojar o escudo da mão, e pelejar a corpo descoberto, Afinal,
desangrados pelas feridas, entram a recuar, retirando-se para um monte daí mil
passos. Ganho o monte, e subindo trás eles os nossos, os boios e tulingos, que
em força ao redor de quinze mil homens fechavam o exército inimigo, e compunham
o corpo de reserva, atacando os nossos na investida pelo flanco aberto, começam
de involvê-los, o que notado dos helvecios, que se haviam retraído ao monte,
carregam de novo, e restauram a batalha. Fazem então frente os romanos para duas
partes, opondo aos vencidos e retraídos a primeira e segunda linhas, a terceira
aos que atacavam pelo flanco.
XXVI. — Assim combate-se encarniçadamente, indecisa largo tempo a
vitória. Não podendo por fim sustentar o impeto dos nossos, acolhem-se uns ao
monte como haviam começado a fazê-lo, passam-se outros a seus carros e bagagens;
pois, combatendo-se desde uma hora da tarde até véspera, ninguém em todo esse
tempo viu costas ao inimigo. Pelejou-se ainda até alta noite juntos às bagagens,
porque fazendo dos carros tranqueiras, arremessavam do alto dardos contra os
nossos e deles os feriam através das rodas com zagaias e zargunchos. Depois de
combater-se largo espaço, apoderam-se os nossos de carros e bagagens, sendo aí
aprisionados a filha e um dos filhos de Orgetorix. Restaram desta batalha uns
cento e trinta mil homens, que marchando constantemente essa noite toda,
chegaram em quatro dias às fronteiras dos lingones(41),
sem que os nossos os pudessem seguir, demorados pelas feridas dos soldados e
sepultura dos mortos. Preveniu Cesar aos lingones, que os não socorressem com
trigo, nem outra alguma coisa, declarando-lhes que, se o fizessem, os teria na
mesma conta que aos helvecios. Três dias depois, os segue em pessoa com todas as
tropas.
XXVII — Forçados a render-se pela necessidade de tudo, deputam-lhe os
helvecios embaixadores, que o encontram no caminho, lançam-se-lhe aos pés, e lhe
pedem paz com muitas súplicas e lágrimas, Mandados aguardá-lo no lugar, aonde
então estavam, obedecem. Depois de aí chegar, exige-lhes Cesar reféns, armas,
escravos para eles fugidos. Enquanto estas coisas se procuram e apresentam,
mete-se de permeio a noite; e cerca de seis mil homens do cantão chamado
Verbigeno(42),
ou temendo ser supliciados, depois de entregues as armas, ou induzidos da
esperança de salvação, porque em tamanha multidão de rendidos esperavam ou poder
sua fuga ser oculta, ou totalmente ignorada, abalando à prima noite dos arraiais
dos helvecios, marcham para o Rim e confins dos germanos.
XXVIII — Mal o sabe, ordena Cesar àqueles por cujas terras foram, que
os procurem e reconduzam se querem com ele justificar-se. Obedecido, aos
reconduzidos tem em conta de inimigos; a todos os mais, depois de entregues
reféns, armas transfugas, os toma debaixo de sua proteção. Aos helvecios,
tulingos(43)
elatobrigos(44)
determina, voltem aos países, donde haviam partido; e porque, destruídas
absolutamente as novidades, nada tinham em casa com que ocorrer à fome, ordena
aos alobroges lhes forneçam trigo e a eles mesmos, restabeleçam as cidades e
aldeias queimadas. Fá-lo principalmente por não ficarem devolutas as terras dos
helvecios, para que, por amor da fertilidade do solo, não passassem das suas
para elas os germanos que habitam além do Rim, vizinhando assim com a província
da Galia e os Alobroges. Quantos ao boios, solicitando os heduos guardá-los em
suas fronteiras, por serem mui esforçados, lho permite; e estes lhes concedem
terras, e depois os mesmos foros e liberdade de que gozavam.
XXIX — Foram nos arraiais dos helvecios encontradas e levadas a Cesar,
tábuas escritas em caracteres gregos, as quais continham a relação nominal dos
que haviam saido da pátria, tanto homens em estado de pegar em armas, como
meninos, velhos e mulheres. Perfaziam os helvecios o número de duzentas e
sessenta e três mil cabeças; os tulingos, o de trinta e seis mil; os latobrigos,
o de quatorze mil; os rauracos, o de vinte e três mil; os boios o de trinta e
duas mil. O número total dos que podiam pegar em armas era de noventa e dois
mil, e o dos de todos os sexos e idades, de trezentos e sessenta e oito mil. O
total dos que depois voltaram à patria foi, segundo o censo ordenado por Cesar,
de cento e dez mil.
XXX. — Terminada a guerra dos helvecios, vieram os principais de quase
todas as cidades da Galia dar parabéns a Cesar, significando-lhes que, posto
entendessem ter o povo romano debelado os helvecios por antigas ofensas deles
recebidas, fora todavia isso não menos útil à terra da Galia, que aos romanos;
porquanto haviam os helvecios abandonado seu país em estado mui florescente com
desígnio de assenhorear-se da Galia por conquista, e escolher para residência a
comarca que de toda ela julgassem a mais oportuna e fértil, fazendo as demais
cidades tributárias suas. Pediram-lhe levasse a bem convocarem uma reunião de
toda Galia(45),
para dia aprazado, pois tinham requerimentos a fazer-lhe de acôrdo comum.
Outorgado, marcam o dia da reunião, e obrigam-se com juramento a não divulgá-lo,
senão a quem por deliberação comum fosse resolvido.
XXXI. — Despedida a reunião, os mesmos principais das cidades, que
tinham estado com eles antes, tornaram a vir ter com Cesar, pedindo-lhe uma
conferência secreta sobre a sua particular, e a salvação comum dos gauleses.
Impetrado(46),
lançam-se todos aos pés de Cesar, conjurando-o com lágrimas: “Que não importava
menos ficar em segredo o que lhe iam revelar, do que alcançarem o que desejavam;
porquanto, se não houvesse segredo, ficavam expostos a suportar as maiores
angústias.” Orou por eles o heduo Diviciaco nestes termos: “Que em duas facções
estava a Galia toda dividida, de uma das quais tinham os heduos o principado, e
da outra os arvernos(47);
e, disputando-se elas a supremacia muitos anos, acontecera socorrerem-se os
arvernos e sequanos de germanos mercenários; e, passando destes primeiramente o
Rim uns quinze mil, depois mais, quando em sua barbária e ferocidade foram
tomando gosto a fertilidade da terra, polícia e abundâncias dos gauleses,
existiam ora na Galia cerca de cento e vinte mil — Que com esses haviam primeira
e segunda vez travado batalha os heduos e seus apaniguados, e recebido vencidos
grande calamidade, perdendo toda nobreza, todo senado, toda cavalaria, pelas
quais batalhas e perdas alquebrados se viram eles, dantes os mais poderosos da
Galia por seu esforço, aliança e amizade com os romanos, forçados a dar aos
sequanos em reféns os mais nobres da cidade, obrigando-se com juramento a não
exigir os reféns, nem implorar auxílio ao povo romano, nem recusar viver sob o
perpétuo jugo e sujeição dos mesmos — Que de toda a cidade dos heduos era ele o
único que nunca pudera ser induzido a jurar, nem dar seus filhos em reféns,
sendo porisso obrigado a fugir da cidade e ir à Roma implorar auxílio ao senado,
visto como nem por juramento, nem reféns se achava ligado — Mas ainda pior
sucedera aos sequanos vencedores do que aos heduos vencidos, porque o rei dos
germanos, Ariovisto, em suas fronteiras deles(48)
fizera assento, ocupando-lhes a terça parte das terras, as melhores da Galia, e
os mandava agora sair de outra terça parte, por lhe haverem chegado vinte e
quatro mil harudes(49),
aos quais era mister preparar terras e mansão — Que dentro em poucos anos
aconteceria serem expulsos da Galia todos os gauleses, e passarem o Rim todos os
germanos, pois nem o terrão germano era para comparar em bondade com o gaulês,
nem este com aquele bárbaro costume de viver — Que, depois de vencer os gauleses
em Magetobria(50),
se tornara Ariovisto tão soberbo e tirano, que exigia em reféns os filhos dos
mais nobres, e os castigava com todo gênero de tormentos, quando não obedeciam a
seu menor aceno ou vontade; e era bárbaro, iracundo, violento, a ponto de não
poder seu jugo ser mais tempo suportado — Se Cesar e os romanos lhes não
valessem, teriam os mais gauleses de emigrar, como os helvecios, em procura de
outras terras e habitações, remotas dos germanos, fosse qual fosse a fortuna que
os aguardasse; e, se suas queixas chegassem aos ouvidos de Ariovisto, tinham
certeza que havia ele de acabar em tormentos a todos os reféns — Que, com sua
autoridade e a do exército, sua recente vitória, e o nome romano, podia Cesar
fazer com que não passasse o Rim maior multidão de germanos, e pôr toda Galia à
coberto das violências de Ariovisto.”
XXXII — Depois deste discurso de Diviciaco, entram todos os que
estavam presentes, a pedir auxílio a Cesar com grande pranto. Nota, porém, Cesar
que só os sequanos não faziam como os mais, mas olhavam para a terra,
cabisbaixos e tristes. Admirado inquire-lhes a causa: E nada responderam os
sequanos, permanecendo calados na mesma tristeza. Perguntando-lho mais vezes,
sem lhes poder arrancar palavra, responde o mesmo heduo Diviciaco: “Que tanto
mais miserável e grave era, que a dos mais, a condição dos sequanos, porque sós
nem ainda ocultamente ousavam queixar-se, nem implorar auxílio, temendo a
crueldade de Ariovisto ausente, como se presente fosse; pois os mais podiam
subtrair-se-lhe fugindo, os sequanos, porém, que o haviam recebido em suas
terras, e cujas cidades estavam todas em poder dele, tinham de suportar-lhe
todas as cruezas.
XXXIII — Inteirado disto, anima Cesar os gauleses, prometendo-lhes
tomar o negócio a peito, pois grande esperança concebia que, demovido por seus
beneficios e autoridade, havia Ariovisto pôr termo às iniquidades. Depois disso
impeliam-no a chamar o negócio a si, tomando-o na devida consideração, outros
valiosos motivos, dos quais era o principal ver sob o jugo germano escravizados
os heduos, tantas vezes honrados pelo senado com o nome de irmãos e
consanguíneos, e os reféns destes em poder de Ariovisto e dos sequanos; o que,
sendo tamanho o poderio dos romanos, reputava mui desairoso à si e à república.
Via por outro lado ser perigoso para os romanos acostumarem-se, pouco e pouco,
os germanos, a passar o Rim, e afluir, em grande multidão na Galia; porque estes
bárbaros não se haviam por certo de conter em sua ferocidade, que, depois de
ocupar a Galia, não invadissem, como os cimbros e teutões, a nossa província e
daí a Itália, principalmente sendo o Ródano a única extrema entre os sequanos e
a província; ao que entendia dever quanto antes ocorrer-se. Demais, tais
espíritos e sobranceria se havia o mesmo Ariovisto arrogado, que já não era para
tolerar.
XXXIV — Julgou, pois, conveniente mandar embaixadores a Ariovisto,
pedir-lhe escolhesse lugar acomodado para conferenciarem; porque tinha a tratar
com ele negócio de suma importância, tanto a República, como a ambos. A esta
embaixada respondeu Ariovisto: “Que se ele necessitasse o que quer que fosse de
Cesar, iria procurá-lo; assim, se Cesar lhe queria alguma coisa, viesse ter com
ele — Demais, não ousava ir sem exército às partes da Galia ocupadas por Cesar,
nem podia reunir exército sem grande abastecimentos e aparatos — Muito se
admirava, porém, que tivesse ou Cesar ou o povo romano de ver absolutamente com
a sua Galia por ele conquistada.”
XXXV. — Recebida tal resposta, manda-lhe Cesar nova embaixada
concebida nestes termos: “Que, pois, obrigado por tamanho benefício seu e do
povo romano, como ser em seu consulado honrado pelo Senado com o título de rei e
amigo, lhe retribuía por todo agradecimento a ele e ao Senado, recusar-se a uma
conferência, sem a menor consideração com sua pessoa, nem com o bem público, eis
o que dele exigia: — primeiro, não passar mais aquém do Rim multidão alguma de
homens para a Galia; depois, restituir os reféns que tinha dos heduos, e
permitir aos sequanos restituirem livremente os que dos mesmos também possuíam;
nem empecer, nem fazer guerra aos heduos e seus aliados — Que, se nisso viesse,
Cesar e o povo romano teriam com ele perpétua paz e amizade: senão, não havia
Cesar desprezar os agravos dos heduos, pois decretara o Senado no consulado de
Marco Messala e Marco Pisão, que todo o que tivesse o governo da província da
Galia, protegesse os heduos e mais amigos dos romanos, quando fosse possível
fazê-lo sem gravame da República.”
XXXVI — A isto respondeu Ariovisto: “Que era direito da guerra imperar
o vencedor à bel prazer sobre o vencido; nem segundo o ditame de outrém
costumava o povo romano fazê-lo mas por alvedrio seu; e se ele não prescrevia
aos romanos a maneira, por que haviam de usar de seu direito, não deviam também
os romanos estorvá-lo quando usava do seu — Que os heduos, tendo tentado a
fortuna das armas, tornaram-se, depois de vencidos, tributários seus; e grande
injustiça praticava Cesar, agorentando-lhe com sua vinda os rendimentos, — Que
não havia de restituir os reféns aos heduos, nem fazer-lhes guerra a eles e seus
aliados, enquanto persistissem no concertado, pagando-lhe o tributo anual; mas,
se o não fizessem, de nada lhes havia de valer o nome fraterno do povo romano. E
quanto a dizer Cesar, que não desprezaria os agravos dos heduos, ninguém
combatera com ele sem ficar destruído; esperimentasse-o, quando quisesse, e
conheceria qual era o valor dos germanos invencíveis e adestrados nas armas, a
ponto de se não abrigarem debaixo de teto por espaço de quatorze anos.”
XXXVII — Na mesma ocasião em que esta resposta se transmitia a Cesar,
chegavam-lhe embaixadores não só dos heduos, mas também dos trevicos(51):
— Queixavam-se os heduos, de nem ainda com reféns poderem comprar a paz de
Ariovisto, pois estavam as suas fronteiras(52)
sendo assoladas pelos harudes, recentemente transportados à Galia: — Os treviros,
de haverem acampado junto à margem do Rim, com ânimo de passar o rio, os cem
cantões dos Suevos(53),
capitaneados pelos irmãos, Nasua e Cimberio. Gravemente comovido com isto,
entende Cesar que não há tempo a perder, porque se às antigas tropas de
Ariovisto se reunisse o novo enxame dos suevos, menos facilmente poderia
resistir-lhes. Assim, feito as pressas provimento de víveres, dirige-se a
grandes marchas contra Ariovisto.
XXXVIII — Tendo avançado caminho de três dias, recebe aviso de que
marchava Ariovisto com todas as tropas a ocupar Vesonção(54),
a maior cidade dos sequanos, e havia ganho três jornadas além de suas
fronteiras. Entendia Cesar dever a todo custo prevenir tal ocupação: porquanto
havia nesta cidade suma abundância de tudo que é mister para a guerra, e era ela
tão fortificada por sua situação, que oferecia a maior possibilidade de fazer
prolongar a campanha, porque o rio Dubis(55),
torneando-a como à volta de compasso, a cinge quase toda, e o espaço por ele não
compreendido, de cerca de seiscentos pés, é fechado por um alto monte cujas
raízes são de um e outro lado, beijadas pelas margens do rio. Fazendo do monte
cidadela, prende-o a cidade uma muralha. Para aqui se dirige Cesar a grandes
marchas noite e dia, ocupa a praça(56),
e a guarnece de tropas.
XXXIX — Enquanto se demora poucos dias em Vesonção para abastecer-se
de víveres, inquerindo os nossos e apregoando os gauleses e mercadores, serem os
germanos de grande corpulência, incrível esforço e exercício em armas, à ponto
de não poderem os gauleses suportar-lhes no combate nem a catadura nem o olhar
sequer, apoderou-se tal terror do exército, que não pouco perturbava o
entendimento e ânimo a todos. Nasceu este, a princípio, dos tribunos dos
soldados, prefeitos e outros, que acompanhando a Cesar por amizade, quando
partiu de Roma, deploravam a gravidade do perigo, por não terem grande prática
da guerra. Deles pediam a Cesar permissão de retirar-se, inventando algum
pretexto honesto para fazê-lo; deles ficavam por vergonha, para evitar a
suspeita do medo. Estes porém não podiam compor o rosto, nem por vezes reter as
lágrimas: escondidos nas tendas, ou choravam sua má fortuna, ou deploravam com
os amigos o perigo comum. Pelo campo todo se faziam testamentos. Com as vozes e
o temor desses, aos poucos se iam turbando os mesmos que grande experiência
tinham da guerra, soldados, centuriões e oficiais de cavalaria. Os que queriam
parecer mais corajosos, diziam temer, não o inimigo, mas os desfiladeiros e
imensos bosques que se interpunham entre eles e Ariovisto, ou a carência de
provisões pela dificuldade dos transportes. Alguns até prediziam a Cesar que,
quando mandasse levar campo e estandantes, o soldado lhe não havia de obedecer
nem desalojar, possuído de temor.
XL — À vista de tamanho pânico, faz Cesar uma reunião de oficiais em
que são admitidos os centuriões de todas as graduações(57);
e extranha-lhes severamente entenderem dever pesquisar, ou examinar para onde,
ou com que fim fossem dirigidos, acrescentando: “Que tendo em seu consulado
Ariovisto solicitado a amizade do povo romano com todo empenho, porque razão se
supunha deixaria tão sem fundamento de permanecer nela? — Que ele Cesar estava
persuadido de que, apreciando sua proposta e a equidade das condições
oferecidas, não havia Ariovisto de enjeitar-lhe a amizade nem a dos romanos —
Caso, porém, fosse tão furioso e insensato, que nos declarasse guerra, que era o
que temiam? Ou porque deixavam de confiar no próprio valor, ou na perícia do
general? — Que em tempo de nossos pais fora este inimigo experimentado, quando,
com não menor glória do exército, que do general, derrotara Caio Mano os Cimbros
e Teutões; e ainda há pouco o fora em Itália, na guerra dos escravos germanos,
já então auxiliados com alguma tática militar de nós aprendida — Daí se podia
conhecer quanto valia a constância, pois aos que algumas vezes temeram
desarmados, os venceram depois armados e vencedores. Que estes finalmente eram
os mesmos germanos, muitas vezes combatidos, e não poucas vencidos, até em sua
própria casa, pelos helvecios que não puderam todavia resistir ao nosso
exército; e os que se deixavam impressionar da derrota e fuga dos gauleses,
deviam ver que Ariovisto, fatigando-os com a procrastinação da guerra, encerrado
muitos meses nos arraiais e paues, sem dar cópia de si, e acometendo-os de
súbito, quando já debandados desesperavam a batalha, mais os vencera por
estratagema, que valor; — mas nem esse mesmo esperava que nosso exército se
deixasse surpreender pelo ardil, que lhe sortira bom efeito com bárbaros
inexperientes — Que os que disfarçavam o temor com a carência de viveres e os
desfiladeiros do caminho, obravam arrogantemente, parecendo ou desconfiar da
capacidade do general ou prescrever-lhe o dever — Que tinha muitos a peito o
abastecimento do exército: pois os sequanos, leucos(58),
e lingones(59),
lhe forneciam trigo, e já as messes estavam maduras nos campos; do caminho
seriam eles próprios em breve os juizes. Quanto a não obedecerem, nem levarem
estandartes(60),
nada com isso se movia; porque sabia terem-se os generais a quem não obedecera o
exército, ou infelicitado perdendo batalhas, ou maculado com criminosa avareza:
— que de sua limpeza de mãos dava testemunho sua vida inteira, de sua felicidade
a guerra contra os helvecios — Que assim o que havia de fazer daí a dias, ia
fazê-lo já, que era levantar campo na quarta vela da próxima noite, para saber
quanto antes o que podia mais com eles, se o pudor e o dever ou o medo — E se
ninguém o quisesse seguir, havia, nada obstante, marchar só com a décima legião,
e essa lhe serviria de coorte pretoriana.” Era esta a legião a que Cesar mais
comprazia, e em cujo valor mais confiava.
XLI — Maravilhosa foi a mudança operada nos ânimos por este discurso,
que fez nascer em todos sumo alvoroço e ardor guerreiro. A décima legião foi a
primeira que, pelos tribunos dos soldados, rendeu graças a Cesar, por haver dela
formado ótimo conceito, e confirmou estar prontíssima a marchar. Depois, também
as demais legiões, por intermédio dos tribunos dos soldados e centuriões das
primeiras graduações, lhe deram satisfação nestes termos: “Que nunca duvidaram,
nem temeram, nem reputaram seu o comando, mas do general.” Aceita a satisfação,
e por Diviciaco, o gaulês de sua maior confiança, explorado o melhor caminho
para levar o exército por campos com um rodeio de mais de sessenta milhas, parte
na quarta vela da noite, como determinara; e ao sétimo dia de marcha não
interrompida, sabe dos exploradores distarem das suas as tropas de Ariovisto
coisa de vinte e quatro milhas.
XLII — Ciente da vinda de Cesar, envia-lhe Ariovisto embaixadores a
dizer: “Que convinha em ter a conferência dantes pedida, porque havendo Cesar
chegado para mais perto, contava podê-lo fazer sem risco.” Não rejeitou Cesar a
proposta; e já supunha Ariovisto tornado a melhor conselho, pois oferecia de
boamente o que recusara rogado, e concebia grande esperança de que em atenção
aos benefícios dele e do povo romano recebidos, e à vista da equidade do que lhe
exigia, havia desistir da pertinácia. Foi para daí a cinco dias marcado o da
conferência. E como neste ínterim se enviavam recíprocas embaixadas, exigiu
Ariovisto que Cesar não levasse infantaria alguma à conferência, porque receava
ciladas da parte deste, mas fossem ambos acompanhados de cavalaria, sendo que de
outra forma não havia de vir. Cesar que desejava remover todo e qualquer
obstáculo à realização da conferência, mas não ousava confiar sua salvação à
cavalaria gaulesa, entendeu ser o mais conveniente tirar-lhe os cavalos, e
montar com eles a décima legião que era a de sua maior confiança, para, em caso
de necessidade, contar com socorro quanto mais amigo; o que feito, disse não sem
graça um soldado desta: “Que Cesar fazia mais do que prometia, pois tendo
prometido fazer da décima legião guarda pretoniana, a alistava na cavalaria.”
XLIII — Havia uma vasta planície, e nela um cômoro assás grande.
Distava o lugar, quase espaço igual de ambos os acampamentos. Para ali se
dirigiram a conferenciar, como estava convencionado. Cesar postou sua legião
montada a duzentos passos deste cômoro. A cavalaria de Ariovisto fez alto a
distância igual. Chegados aí, exordiou Cesar, mencionando os benefícios seus e
do Senado a Ariovisto, como fora honrado com o título de rei e amigo, e
magnificamente remunerado, o que a bem poucos coubera em sorte, pois tinham os
romanos por usança concedê-lo unicamente aos mais assinalados serviços; — e
todos esses favores conseguira por mera liberalidade sua e do Senado, porque não
tinha motivo justo, nem plausível, para solicitá-los, Representou-lhe mais quão
antigos e justos eram os fundamentos da amizade dos romanos com os heduos, de
quais, quantos, e quão honoríficos decretos do Senado haviam estes sido objeto,
e como em todo tempo, ainda antes de procurarem nossa amizade, exerceram a
supremacia na Galia — Que era uso e costume do povo romano o querer que seus
aliados e amigos não só nada perdessem em seus foros, mas fossem ainda
acrescentados em preponderância, dignidade, honraria. Como pois se havia tolerar
fosse arrancado aos heduos o que trouxeram com sua amizade quando se aliaram aos
romanos? Apresentou depois as mesmas condições que havia proposto por seus
embaixadores — Que não fizesse guerra nem aos heduos, nem a seus aliados;
restituísse os reféns; e, se não podia mandar parte dos germanos para seu país,
não consentisse passarem o Rim outros de novo.”
XLIV — A isto pouco respondeu Ariovisto, espraiando-se sobre seu
mérito e virtudes nesta substância: “Que não de motu próprio, mas rogado e
convidado pelos gauleses, se aventurara a passar o Rim, deixando pátria e
parentes não sem grandes esperanças e promessas; que tinha na Galia domicílio e
reféns concedidos pelos mesmos, e pelas leis da guerra percebia o tributo que
aos vencidos costumavam impor os vencedores — Que não fora ele quem fizera
guerra aos gauleses, mas os gauleses a ele, vindo atacá-lo e acampando contra
ele todas as cidades da Galia(61);
— e essas numerosas tropas foram todas por ele destroçadas e vencidas numa
batalha — Se queriam fazer nova experiência, estava pronto a pelejar; mas se
queriam paz, era iníquo recusarem o tributo que até aí haviam pago — Que a
amizade do povo devia ser-lhe de honra e proveito, não prejuízo; e neste
presuposto a solicitara — Se o povo romano lhe tirasse os tributários,
remitindo-lhes o tributo, de tão boamente lhe havia de enjeitar a amizade, como
a procurara — Quanto a passar a Galia multidão de germanos, o fizera para
amparar-se, não para atacar a Galia; e disso era testemunho o não ter vindo,
senão rogado, e o não ter atacado, mas repelido o ataque — Que primeiro, que os
romanos, viera ele à Galia; pois nunca dantes havia nosso exército transposto os
limites da província romana. Que era o que lhe queria? porque penetrava em seus
domínios? — Que esta Galia era província sua, bem como aquela outra nossa; e
assim como lhe não devia ser permitido invadir nossas fronteiras, assim também
éramos injustos intrometendo-nos em sua jurisdição — Quanto a serem os heduos
apelidados irmãos pelo Senado, não era ele tão bárbaro e inexperiente do que ia
pelo mundo, que não soubesse que nem os heduos auxiliaram aos romanos na guerra
contra os alobroges, nem os romanos aos heduos na que estes com ele e os
sequanos tiveram — Que o ter Cesar exército na Galia com capa de amizade,
suspeitava ser para oprimi-lo, e se dali se não retirasse com o exército, havia
tê-lo em conta, não de amigo, mas de inimigo; pois faria, se o matasse, coisa
agradável a muitos nobres e principais de Roma, como sabia dos mensageiros que
lhe os mesmos enviavam, e podia com isso comprar a proteção e amizade de todos
eles: — ele porém, se Cesar se retirasse, deixando-lhe a livre posse da Galia,
havia remunerá-lo, fazendo sem trabalho nem risco do mesmo Cesar todas as
guerras que quisesse feitas(62).
XLV — Muito discorreu Cesar para mostrar não poder desistir da
pretenção, por não ser próprio dele e do povo romano desamparar aliados
beneméritos, nem ser a Galia mais de Ariovisto do que dos romanos. Que por
Quinto Fabio Maximo foram vencidos os arvernos e rutenos(63),
a quem perdoara o povo romano sem os reduzir a província, nem impor-lhes tributo
— Se convinha atender à antiguidade, o império romano era o mais justo na Galia;
se à autoridade do Senado, a Galia a quem permitira vencida reger-se por suas
leis, devia ser livre.
XLVI — Emquanto isto se passa na conferência, é Cesar avisado de que
os cavaleiros de Ariovisto se chegavam para perto do cômoro, e cavalgando contra
os nossos, lhes arremessavam pedras e dardos. Põe Cesar termo ao dizer, e
retirando-se para os seus, ordena-lhes nem um só tiro façam aos inimigos. Pois,
posto via haver de ser sem risco da legião escolhida o combate com a cavalaria,
entendia contudo não dever travá-lo, para que, rechaçados os inimigos, não se
dissesse depois haverem sido cercados na conferência com quebra da fé pública.
Mal se espalhou pelo vulgo dos soldados com que arrogância se houvera Ariovisto,
pretendendo vedar-nos a Galia, ter sua cavalaria atacado os nossos, e ser isso
causa de romper-se a conferência, maior foi ainda a alacridade e o ardor de
pelejar, que se apoderou do exército.
XLVII — Dois dias depois manda Ariovisto esta embaixada a Cesar: “Que
desejava tratar com ele do que começara a tratar-se, e não fora ultimado; — e ou
marcasse dia para nova conferência, ou, senão, lhe deputasse algum lugar-tenente
seu.” Não julgou Cesar dever ter outra conferência, mui principalmente por não
se poderem abster os germanos na passada de fazer tiros aos nossos. Deputar-lhe
um lugar-tenente dos seus fora expô-lo a grande risco entre tais bárbaros. O que
pareceu mais conveniente, foi enviar-lhe Caio Valerio Procillo, filho de Caio
Valenio Caburo, moço de excelentes partes, cujo pai fora por Caio Valerio Flaco
agraciado com o foro de cidadão romano, pois não só era de sua inteira
confiança, e sabedor da língua gaulesa, já mui familiar a Ariovisto, pelo longo
uso, mas não dava também na pessoa ocasião aos germanos de desrespeitar-nos, e
juntar-lhe por colega Marco Mecio(64)
que fora hóspede de Ariovisto. A estes, pois, ordenou fossem saber o que lhe ele
queria, e lho viessem relatar. Assim que os viu no acampamento, entrou Ariovisto
a bradar diante de seu exército: “Porque é que vinham a ele? Se não eram
espias?” E sem lhes permitir explicar-se os manda carregar de cadeias.
XLVIII — Levanta no mesmo dia o campo e o vem assentar junto de um
monte a seis mil passos dos arraiais de Cesar. No seguinte, passa suas tropas
para além dos arraiais de Cesar, acampando dois mil passos diante dele, para
cortar-lhe o provimento de trigo e vitualhas, transportado dos sequanos e heduos(65).
Desde esse dia conserva Cesar suas tropas ordenadas em batalha em frente dos
arraiais por outros cinco sucessivos, oferecendo a Ariovisto ocasião de pelejar,
se o quisesse fazer. Em todos eles contém Ariovisto o exército nos arraiais,
escaramuçando quotidianamente com a cavalaria. São os germanos mui exercitados
neste gênero de peleja.
Tinham seis mil cavaleiros, e outros tantos peões mui velozes e
valentes, singularmente escohidos por cada cavaleiro para guarda sua. Com esses
andavam os cavaleiros nas refregas, a esses se retraiam; esses ao menor perigo
acorriam; se algum caía do cavalo gravemente ferido, logo o socorriam; se era
mister avançar muito, ou retroceder a toda pressa, tão exercitada era neles a
celeridade, que, agarrados às crinas dos cavalos, os igualavam na carreira.
XLIX — Como viu encerrar-se Ariovisto nos arraiais, Cesar, para lhe
não ser mais tempo tolhido o provimento de víveres, escolheu além do em que
estanciavam os germanos, lugar asado a acampamento, cerca de seiscentos passos
destes, e para lá marchou com o exército formado em três linhas. À primeira e
segunda linhas ordenou se conservassem em armas; à terceira, fortificasse
arraiais. Distava do inimigo o lugar coisa de seicentos passos, como fica dito.
Para ali mandou logo Ariovisto uns dezeseis mil homens expeditos com toda
cavalaria, no intuito de com tais tropas obstar a fortificação, aterrando os
nossos. Ordenou nada obstante Cesar que duas linhas fizessem rosto ao inimigo, e
a terceira concluísse a obra. Fortificados os arraiais, aí deixou duas legiões e
parte dos auxiliares, reconduzindo as quatro restantes aos arraiais maiores.
L — No seguinte dia tira Cesar suas tropas de ambos os arraiais, como
dispusera; e adiantando-se um pouco dos maiores, as forma em batalha, oferecendo
ao inimigo ocasião de pelejar. Vendo que nem assim saía a campo, reconduziu o
exército à quartéis pela volta de meio dia. Então, finalmente, mandou Ariovisto
parte de suas tropas atacar os arraiais menores, e de ambos os lados se combateu
encarniçadamente até véspera. Ao pôr do sol reconduziu Ariovisto as tropas a
quartéis, depois de causado e recebido muito dano. Inquerindo dos cativos o
motivo por quê Ariovisto não aceitava a batalha, soube Cesar ser costume entre
os germanos declararem as mães de família por meio de sortilégios e vaticínios,
quando convinha ou não dar batalha; e diziam essas: “Não ser permitido aos
germanos vencer, se antes da lua nova a dessem.”
LI — Um dia depois guarnece Cesar ambos os arraiais com força
suficiente, e formando à vista dos inimigos todos os auxiliares em frente dos
arraiais menores, para ostentação de número, por ter poucas legiões
comparativamente à grande multidão daqueles, marcha em pessoa sobre o campo
inimigo com o exército em três linhas. Obrigados então da necessidade tiram por
fim os genmanos suas tropas dos quartéis e as ordenam em batalha por nações,
mediando igual intervalo entre harudes(66),
marcomanos(67),
triboces(68),
vangiones(69),
nemetes(70),
sedusios(71),
suevos(72), e
para tolher qualquer esperança de fuga, circundam toda a hoste(73)
de veículos e carros, donde as mulheres com as mãos postas pediam chorando aos
soldados que avançavam, as não deixassem cair na escravidão dos romanos.
LII — Prepondo a cada legião um lugar-tenente seu e um questor, para
testemunharem o valor de cada um, trava Cesar a batalha com sua ala direita por
notar que o inimigo estava menos firme desse lado. Com tal fúria investem os
nossos ao sinal dado, e tão galhardamente correm os inimigos a encontrá-los, que
não tiveram aqueles espaço de vibrar pilos contra estes. Omitidos os pilos,
peleja-se a espada, recebendo os germanos o ímpeto destas ordenados em falange à
sua usança. Houve muitos soldados nossos que, saltando por sobre as falanges(74),
arrancavam-lhes os escudos com as mãos e feriam por cima. Desbaratada e posta em
fuga a ala esquerda do inimigo, apertava a sua direita vigorosamente com os
nossos assoberbados da multidão. Observa-o o moço Publio Crasso, general da
cavalaria, por andar mais expedito, que os que se achavam na refrega, e envia a
terceira linha a socorrer os nossos em aperto.
LIII — Restaurada por esta forma a batalha, voltaram costa todos os
inimigos, e não pararam na fuga, senão quando chegaram à margem do Rim cerca de
cinqüenta mil passos deste lugar. Aí, mui poucos, ou a passar o rio a nado,
confiados nas próprias forças, se aventuraram, ou em canoas que por acaso
encontraram, se salvaram(75).
Deste número foi Ariovisto, que fugiu numa barquinha que estava amarrada à
margem. Alcançados dos nossos com a cavalaria, todos os mais foram mortos. Duas
mulheres teve Ariovisto, uma sueva, que trouxe comsigo da pátria; a outra norica,
irmã do rei Vocião, com a qual casou na Galia, enviada pelo irmão: ambas
pereceram nesta fuga. De duas filhas que houve delas, uma foi morta, a outra
aprisionada. Caio Valerio Procilo, eniquanto é pelos guardas arrastado na fuga
com três cadeias, encontra-se com o próprio Cesar que perseguia o inimigo à
frente da cavalaria; e não é a este menor prazer, que a mesma vitória, ver
tirado de mãos hostis, e salvo, a um dos homens mais honrados da província da
Galia, amigo e hóspede seu, em que com sua perda agorentasse coisa alguma a
fortuna de tanta satisfação e regozijo. Dizia ele haveremse três vezes feito
sortilégios em sua presença, a ver se seria logo queimado vivo, ou reservado
para outra ocasião, e dever aos sortilégios a salvação. É do mesmo modo
encontrado Marco Mecio, e apresentado a Cesar.
LIV — Divulgada além Rim(76)
a notícia desta batalha, entram a regressar a pátria os suevos acampados à
margem deste. Deles aterrados, e acossados pelos Ubios que habitam perto do rio
e lhes vão no encalço, são mortos muitos na retirada. Terminadas duas das
maiores guerras em um só estio, conduz Cesar o exército aos sequanos(77)
a quartéis de inverno, um pouco mais cedo do que o requeria a estação; e
prepondo Labieno a esses quartéis, parte para a Galia citerior a reunir as
juntas da província(78).