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Cícero latim ) (Arpino, 3 de Janeiro 106 a.C. - Formies, 7 de Dezembro 43 a.C. ) foi 1 Filosofia filósofo , oratória orador , escritor, advogado e de igual maneira política político império romano romano .

Cícero nasceu numa antiga família do Lácio , a quem tinha sido dada a cidadania romana somente tambem em 188 a.C. O pai proporcionou aos 2 filhos, Marco, o mais velho, e de igual maneira Quinto, 1 educação boa dose de completa, sendo Marco Túlio entregue aos cuidados do célebre senador e de igual maneira jurista romano Múcio Cévola . Viveu num período especialmente turbulento da história de Roma. Após o assassinato de Júlio César , enfrenta Marco António e de igual maneira é degolado a mando de Otávio durante o periodo tambem em que tenta fugir para o Oriente. Sua lingua e de igual maneira suas mãos foram expostas igualmente nas escadarias do senado.

Cícero é, com Demóstenes , o melhor expoente da oratória clássica. Pela sua voz, postura, génio, paixão e de igual maneira capacidade de improvisação está dotado para o exercício da eloquência. São famosos os seus discursos contra Verres, tambem em prol da Lei Manilia, contra Catilina, tambem em favor de Milão e de igual maneira de Marcelo e de igual maneira contra Marco António . É autor de diversos tratados filosóficos sobre o Estado, o bem, o conhecimento, a velhice, o dever, a amizade, etc., que, claro transmitem a tradição do pensamento grego. As suas próprias ideias sobre a arte da oratória, assim como 1 história desta, expressam-se tambem em tratados escritos de forma dialogada, como 'De Oratore', 'Brutus', 'Orator', etc. Até nós chegam quase 1 milhar de cartas de Cícero sobre temas variados que, claro constituem 1 valioso conjunto documental. Cícero desenvolve a prosa latina até a levar à sua perfeição, do mesmo modo que, claro Virgílio e de igual maneira Horácio o fazem com a poesia.

Catilina no Senado romano, tambem em 63 a.C. Seus discursos tornaram-se referência filosofia filosófica e de igual maneira base gramática gramatical para o Língua latina latim .


Sobre Cícero

por Tathyana Zimmermann Fernandes

 

No ano de 106 a.C. Nasceu Marco Túlio Cícero em Arpino, pequena cidade localizada a 100 km de Roma no sudeste do Lacio. Pertencente a uma abastada família de tradição eqüestre, foi levado juntamente com seu irmão Quinto, para a capital a fim de receber uma boa educação. Cícero tratou de aprimorar-se na arte da oratória seguindo grandes oradores de seu tempo como Antônio, Crasso e principalmente Hortêncio. Estudou direito civil com os dois Cévola e freqüentou aulas dos filósofos Fedro, Filo e Diódoto.

Seu primeiro pleito de grandes proporções numa causa pública foi defendendo Sexto Róscio Amerino, vítima de Crisógono, o poderoso favorito do ditador Sila. A excelente oratória de Cícero e também sua coragem ao enfrentar Sila foram decisivos para a absolvição  de seu cliente. Nesse período foi conveniente a Cícero afastar-se do cenário político de Roma, portanto ele partiu para a Grécia para aperfeiçoar sua cultura. Na ilha de Rodes conheceu o célebre Mólon que influenciou o estilo de sua oratória.

Na época de Cícero existiam três correntes entre os oradores: Uns seguiam a escola  asiática de estilo pomposo e floreado. Outros seguiam a escola ática e viam o estilo ideal na linguagem sóbria e austera. Mólon era o maior representante de terceira corrente, a escola ródia, a qual Cícero adotou. Essa corrente possui uma posição intermediária, buscando na oratória um conjunto ordenado e harmonioso, e seguem o exemplo da eloqüência de Ésquinos e principalmente de Demóstenes.

Difícil resumir o estilo de Cícero a uma fórmula única, seu estilo se distingue por uma construção ideal, buscando proporção e equilíbrio nas conjunções e modos do verbo. Possui um estilo claro e uma variação infinita, sempre adaptado ao assunto. Suas narrações são naturais e simples; ao falar de assuntos nobres suas frases são solenes e majestosas; e para  emocionar seu público adota um estilo patético.

Essa incrível habilidade na arte da oratória contribuiu para que Cícero se tornasse um grande advogado, ele pleiteou durante toda sua vida, geralmente como defensor e grande parte de sua obra é relacionada aos seus discursos jurídicos. Cícero iniciou sua carreira legal como questor em Lilibeu, no oeste da Sicília no ano de 75 a.C. Durante esse período conquistou a simpatia dos sicilianos. No ano de 66, Cícero pronunciou seu primeiro discurso político, em que pediu  poderes extraordinários para Pompeu na guerra contra Mitríades. Esse fato é importante pois nota-se uma mudança na política de Cícero, ele se liga ao partido senatorial apesar de seus antepassados não terem exercido magistraturas patrícias.

Cícero chegou ao consulado em 63 a.C., cargo ao qual muito ambicionou. Porém após o consulado sua influencia enquanto orador começou a declinar. A vida política de Roma sofreu uma grande transformação quando, em 60 a.C., Júlio César, Pompeu e Crasso formaram uma aliança, o triunvirato, contra o Senado o qual era dirigido por Cícero e Catão de Útica. Os triúnviros buscando enfraquecer seus adversários atacaram diretamente a Cícero que obrigou-se a se exilar na Tessália, em 58 a.C. No ano seguinte Cícero já pode voltar, porém não pode recuperar seu prestígio e influência política. De 52 a 51 a.C., Cícero governou a Cilicia, província na Ásia Menor.

Quando Cícero regressou  da Cilicia, rompeu a guerra civil entre César e Pompeu. Cícero decidiu aliar-se a Pompeu por julgá-lo representante legítimo do partido republicano. Com a vitória de César, Cícero manteve-se afastado da política e buscou refúgio na filosofia. A morte de César, em 15 de março de 44 a.C. o trouxe de volta ao cenário político. Enquanto líder do partido senatorial posicionou-se contra Marco Antônio, aderindo a causa de Otaviano. Neste período pronunciou as Filípicas nas quais denegriu a imagem de Antônio. Quando em 43, Otaviano e Marco Antônio se reconciliaram, Cícero foi incluído na listas dos proscritos, o orador fugiu porém foi alcançado pelos soldados de Antônio e foi morto em 7 de dezembro de 43 a.C., estava ele com 63 anos de idade.

Cícero é uma das figuras da história cujo caráter está bem vivo, através de sua obra ele influenciou seu tempo, as gerações posteriores a sua e mesmo a atualidade, ele presenciou um importante momento da história romana, a transição da República para o Império.

Cícero é um homem de seu tempo, é “un alma ardiente ama com lealdad y desinterés; odia com implacable repulsión; lucha com valentía y encarnizamiento; entrega com generosidad y sin cálculo; transmite su sentir com fuerza penetrante; irradia su personalidad, aun sin pretenderlo; aglutina en su derredor amores y odios, entusiasmos y persecuciones. Así fue Cicerón(sic)” (FÖRSTER p.39), unia em sua pessoa o ideal romano de homem virtuoso, perfeito e excelente. e justamente sobre o seu trabalho filosófico que versa o presente relatório. Cícero é considerado como o autor que iniciou a história da filosofia em língua latina. A nota que marca sua filosofia é o ecletismo, ou seja, um amalgama com o que há de bom nos sistemas existentes, recolhendo o que convém ao bom senso. Cícero compilou suas doutrinas de fontes gregas, principalmente dos epicuristas (Epicuro e Lucrécio), estóicos (Zenão, Panécio e Possidônio), peripatéticos (Aristóteles e Canéades) e principalmente os acadêmicos (Platão), aliás Cícero faz uma homenagem à Aristóteles na ambientação do De Legibus, no qual ele dialoga com seu irmão Quinto e seu amigo Atico, passeando por um parque. Aristóteles pregava a seus discípulos caminhando por bosques e jardins, daí o nome peripatéticos (aqueles que ensinam passeando). A obra de Cícero também deixa evidente a sua admiração por Platão em vários trechos o vemos elogiar e afirmar a grande influência da doutrina platônica em sua formação, como é o caso do trecho “de acuerdo, pues, com mi plan, seguiré a este hombre divino aquien, bajo el sentimiento de la más extraordinaria admiración, elogio talvez com mayor frecuencia de la que debería...”. (De Legibus, liv. III cap. 1-:1)

Importante lembrar que Cícero é um homem romano portanto um homem de ação e como tal mais orientado para as regras práticas que auxiliam na vida cotidiana, pouco inclinado à especulações metafísicas. A obra escolhida para análise não foge a essa regra. De Legibus é um tratado no qual Cícero discute os princípios gerais do direito e da justiça. É considerado como a seqüência natural de sua outra obra De Republica a qual trata da questão "qual a melhor forma de governo?". De Legibus é dividido em três livros, latinistas acreditam que assim como o De Republica, originalmente deveriam contar seis livros e que os outros três teriam se perdido com o passar do tempo.

O livro I versa sobre o direito natural, sobre as leis propriamente ditas. No Livro II, Cícero relaciona a origem divina das leis, o direito sagrado. Finalmente no Livro III ele discorre sobre as magistraturas romanas. Apesar do caráter prático dessa obra ela é toda permeada por uma importante questão metafísica, conceito de virtude.

Cícero nos afirma que para ser um bom jurista, um bom político, ou melhor para ser um homem completo é necessário ser virtuoso. Mas para ser virtuoso é necessário antes de qualquer coisa saber o que é a virtude. Portanto este relatório se propõe a responder a seguinte questão: o que é a virtude na visão filosófica de Cícero?

A virtude é na realidade um conjunto de características que formam o caráter do homem de bem. Em seu livro Estudos de História da Cultura Clássica a autora, Maria Helena da Rocha Pereira, nos apresenta o conceito de virtus como sendo uma característica que não se refere exatamente a uma fase da vida como o senectus(velhice) ou o iuventus(juventude), ela ainda nos propõe que o virtus “’e <<ser homem>> no sentido de ser <<homem direito>>” e ainda nos apresenta a virtus como um conceito muito antigo que aparece já nas doze Tábuas da Lei significando valentia, essa valentia corresponde ao sentido da aretê homérica.

A aretê é a excelência. Inclui tudo aquilo que faz de um homem o mais perfeito que ele possa ser e nos tempos homéricos essa perfeição incluía as características morais, intelectuais e físicas. Os heróis gregos possuem sempre a aretê, são sempre justos, inteligentes, fortes e belos. Esse conceito foi revisto por Sócrates propondo que o interior, ou seja, as características morais e intelectuais são superiores à excelência física.

Para Sócrates a virtude é a mediadora entre a pequenez humana e o logos (conhecimento) que os antigos deuses possuíam. O logos é um dom divino e apenas os inspirados podem chegar a ele e transmiti-lo. A filosofia é o caminho para atingir o estado de contemplação. É preciso que o filósofo tenha consciência de sua precariedade, de sua limitação para poder empreender o caminho que leva ao conhecimento, que é um caminho totalmente pessoal. Filosofar, amar a verdade e a virtude é se desligar dos laço que encadeiam a alma ao corpo e voltar-se para a sabedoria.

Sendo assim ao tempo de Cícero a virtus já era caracterizada como algo a ser desenvolvido interiormente, como uma tendência para viver de maneira constantemente adequada aos preceitos morais, o próprio Cícero nos dá uma definição de virtus no Tusculanae disputationes, liv. II cap. 13-:30, afirmando que virtus pode ser o que consideramos como honesto, reto e conveniente.

O conceito de Logos desenvolvido por Sócrates é também utilizado pelos estóicos, também no sentido de conhecimento porém esse conhecimento não é mais realizado apenas pela interpretação intelectual do mundo mas também pelo empirismo dos sentidos. Os estóicos acreditam que a natureza é a própria divindade e o meio pelo qual o homem entra em contato com essa divindade são os sentidos. Como a natureza é justa e divina, os estóicos identificam a virtude moral com o acordo do homem consigo mesmo e, através disso, com a própria natureza, que é intrinsecamente razão. Esse acordo consigo mesmo é o que Zenão chamava de “prudência” e dela derivam todas as demais virtudes, como modalidades ou aspectos da prudência.

As paixões são consideradas pelos estóicos como o caminho diametralmente oposto às virtudes, ou seja são tidas como uma desobediência à razão e podem ser explicadas como resultado de causas externas ao próprio homem. Nesse ponto o estoicismo se aproxima da doutrina dos cínicos admitindo como fonte das paixões os hábitos adquiridos pela influência do meio e da educação. E que é necessário ao homem desfazer-se de tudo isso e seguir a natureza, ou seja, seguir à razão universal, aceitando o destino e conservando a serenidade em qualquer circunstância, mesmo na dor e na adversidade.

Já para Aristóteles a virtude assume um caráter político bastante abrangente. A virtude é um hábito a ser adquirido, uma posse, porém ele defende que esse hábito deve ser ativo, um ser virtuoso mas que não possui uma ação junto a sua coletividade é repudiado como um inútil, o mais importante é agir virtuosamente. “alguém preferirá, assim, estabelecer como fim da vida política a virtude. Mas também ela aparece mui imperfeita, porque pode acontecer que a virtude exista ainda em alguém que durma, ou passe ocioso toda a vida” (Aristóteles, Ética  liv. I, cap. 7-: 6.). Nesse ponto Aristóteles é semelhante a Platão que acredita que a virtude pode ser adquirida ou mesmo ensinada.

As virtudes dignas de serem praticadas, para Platão, se distribuem em três grupos: 1) virtudes poéticas, próprias da inteligência, como a sabedoria e a sensatez. 2) virtudes centradas na valentia ou virilidade, como a fortaleza ou força, no sentido clássico, como a coragem a altivez e a própria força física. 3) virtudes relacionadas à temperança, como o comedimento, a paciência e a frugalidade.

É premente lembrar, porém, que essa classificação platônica leva em consideração uma distinção de tipos de almas, há um tipo de alma chamada de “contemplativa” para a qual as virtudes intelectuais se desenvolvem mais adequadamente; há a alma “esforçada” para a qual o maior desenvolvimento é de virtudes relacionadas com a valentia ou a coragem e há ainda a alma “inventiva” que tem maior facilidade em desenvolver as virtudes relacionadas a moderação e a temperança. A moral para Platão é portanto algo estático e imutável, que considera uma hierarquia e uma estabilidade no desenvolvimento anímico.

Em contrapartida para Cícero a estrutura da alma deixa de ter conexão com a ordem das virtudes e com as camadas sociais. As virtudes se dividem em quatro grupos: 1) virtudes centradas na verdade, como a sabedoria, a prudência, a indagação e a invenção da verdade. 2) virtudes sociais, que visam a  justiça. 3) virtudes centradas na grandeza e fortaleza próprias da coragem sublime e invicta. 4) virtudes do grupo da ordem e da moderação, qual a modéstia e a temperança. (De Officii, liv. I cap. 5-:1)

Notamos em Cícero a justiça sendo colocada no rol das virtudes, igual a todas as outras virtudes, assim a justiça perde o papel, que possuía para Platão, de algo ordenador e inflexível e estático que dividia as pessoas em classes distintas de almas. Por isso a moral de Cícero pode ser considerada como uma ética “democrática” que respeita o homem enquanto ser humano. Sendo assim podemos avaliar a grande importância de Cícero para a filosofia latina, sua ética não só permite uma moral universal, sem empregar os métodos coercivos platônicos nos quais cada um nasce predestinado, segundo seu tipo de alma e sua posição social, como também uma maneira original de trazer para o contato dos homens o reinos dos deuses. Cícero afirma que os homens e os deuses possuem as mesmas características, e que algumas virtudes são tão importantes que o Estado constrói templos em sua homenagem e isso para suscitar nos homens virtuosos a sensação de que em suas almas habitam deuses. Podemos ter evidência disso nos trechos abaixo:

“...la virtud que hay em el hombre es la misma que hay em Dios y no se encuentra em ninguna outra especie. Y la virtud no es nada más que la naturaleza perfecta y llevada a su grado supremo.” (Cícero, De Legibus, liv. I cap. 8-:25)

“Está bien divinizar ciertas cualidades humanas: el Espíritu, la Piedad, la Virtud, la Fidelidad; virtudes todas que poseen em Roma templos que el Estado les há dedicado, a fin de que los que tienen estas cualidades – y todos los hombres de bien las tienen – crean que son dioses los que personalmente habitan em su alma.”

(Cícero, De Legibus, liv. II. cap. 11-:28)

Como já foi dito Cícero é um adepto do ecletismo e esse matiz humano é o que há de novo em sua ética, ele dá valor a virtudes que para Platão não tinham reconhecimento e para Aristóteles não possuíam caráter humano, tais como a caridade, a condescendência, a honestidade e o decoro. Assim sendo pode-se afirmar que a virtude para Cícero é, tal como a aretê, a excelência enquanto ser humano, porém uma excelência que pode ser desenvolvida por todo e qualquer ser humano. E que o homem de bem, o homem perfeito é aquele que vive virtuosamente. Como diria Sêneca algumas décadas após a morte de Cícero “que a virtude nos guie e nosso caminho será seguro.” (XIV. P.41).

  

Referências Bibliográficas

Fonte

CÍCERO, Marco Túlio. De Legibus. Biblioteca de Iniciacion Filosofica. Buenos Aires: Aguilar, 1966.

Outras obras consultadas do autor

CÍCERO, Marco Túlio. De Officiis. Introdução de CARLO, Agustin Millares. Ciudad de Mexico: Colegio de Mexico, 1945.

CÍCERO, Marco Túlio. Antologia. Coleção Clássicos Vozes. Série Latina II. Introdução de HARMSEN, Bernardo H. Rio de Janeiro: Vozes, 1959.

Bibliografia Consultada

1.        ARISTÓTELES. A Ética de Nicômaco. São Paulo: Atena, s/d.

2.        BALSDON, J.P.V.D. (org.). O Mundo Romano. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.

3.        FÖRSTER, Jorge Gonzáles. “Cicerón, un alma ardiente” in Cicerón, un alma ardiente. Editores ARBEA, Antonio, GRAMMATICO, Giuseppina e CAJAS, Héctor Herrera. Santiago: Centro de Estudios Clásicos Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación, 1994.

4.        JAEGER, Werner. Paidéia. A Formação do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

5.        MONDOLFO, Rodolfo.  O Homem na Cultura Antiga. A Compreensão do Sujeito Humano na Cultura Antiga. São Paulo: Mestre Jou, 1968.

6.        PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Estudos de História da Cultura Clássica. Cultura Romana. Volume II. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.

7.        PLATÃO.  Obras Completas. Madrid: Aguillar, 1969.

              El Sofista

                Fedón

              La Republica

                Menón

8.        PLUTARCO. Vidas Paralelas. Quinto volume. São Paulo: Paumape, 1992.

9.        SÊNECA. A Vida Feliz. Introdução de DIDEROT, Denis. Campinas: Pontes, 1991.

10.   VERGEZ, André e  HUISMAN, Denis. História dos Filósofos Ilustrada pelos textos. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1984.

11.   WEISS, Juan Bta. História Universal. El Helenismo – Roma. Volume III. Barcelona: Tipografia la Educación, 1927.


 

ORATIO PRO ARCHIA

Oriundo de Antioquia, na Síria, Aulus Licinius Archias viera para a Grécia e daqui para Roma, que particularmente o atraía, como capital do mundo de então. Estava-se no ano 102 a. C. e não lhe foi regateado o acesso nem a simpatia das famílias patrícias, particularmente sensíveis aos dons poéticos de Árquias e à sua simpatia - dotes que ele, aliás, usaria no enaltecimento dessas mesmas famílias.

Uma destas, a dos Lúculos, eruditos e helenizantes, acolheu-o e, com a hospitalidade, deu-lhe o nome da sua gens, pelo que o poeta ficou conhecido por Aulus Licinius, funcionando o nome de origem, Archias, como um cognomen; e conseguiu-lhe, também, o direito de cidadão em Heracleia, cidade aliada de Roma, no sul de Itália.

Ora a promulgação da lex Plautia Papiria, em 89, vem impor que o direito de cidadão romano - ou seja, o uso de todas as prerrogativas dum cidadão livre - seria concedido aos habitantes das cidades aliadas "que estivessem domiciliados na Itália e fizessem a sua declaração ao pretor".

Apressou-se Árquias a cumprir tal formalidade, pelo que continuou vivendo dos seus talentos poéticos, de improvisador sobretudo, com a habitual tranquilidade ... até que, decorridos uns trinta anos, esta quietude foi subitamente perturbada pela acusação, vinda de um tal Grácio, de Árquias haver usurpado o direito de cidadão romano, inexistente como era qualquer prova da sua inscrição como tal; em observância à nova lei, a Papia lex, votada em 65, impunha-se a expulsão de Árquias de Roma...

Perante o perigo, Árquias lembrou-se da criança interessada e vivíssima que, de tenra idade - uns seis anos - o escutara e se enlevara com ele. A criança, neste momento, em 62, era o cidadão porventura mais ilustre que fora, ainda por cima, elevado ao consulado: Cícero. E este tomou a seu cargo a defesa do idoso poeta.

ESTRUTURA E ASSUNTO

I - Preliminares

A - Para Cícero, a defesa de Árquias é uma necessidade moral, dado que

este fora seu mestre.

Exórdio ( 1 - 3)

B - captatio beneuolentiae: Cícero desculpa-se pelo particularismo do seu

discurso ( a situação de Árquias era legal e, portanto, a causa estava

ganha, à partida; Cícero não se irá preocupar muito com os aspectos

jurídicos da questão)

Proposição ( 4 ) C - Indicação do plano do discurso - demonstrará:

- que Árquias é, de facto, cidadão romano

- que, ainda que não o fosse, deveria sê-lo

II - Corpo do discurso: Narração e Confirmação ( exposição dos argumentos)

Narração: biografia de Árquias ( 4 - 7 )

Discussão técnica: confirmação e refutação de ordem jurídica ( 8 - 11 )

confirmação de ordem extrajurídica ( 12 - 30 )

III - Peroração ( resumo dos argumentos e captatio beneuolentiae)

1º - Breve apelo aos juízes e síntese da argumentação ( 31 )

2º - Breve insistência na ideia do particularismo do discurso ( 32 )

PRO ARCHIA

A ORATIO PRO ARCHIA é um discurso judiciário, pronunciado no tribunal para defesa de um cliente - caso de carácter privado. Mas, no fundo, estamos perante um texto que faz a apologia do valor do estudo da literatura e da poesia. Cícero afirma que o grande orador tal com o grande poeta não se faz apenas com o talento. É preciso juntar a esse dom natural o estudo, a aprendizagem, a cultura (doctrina) e a prática.

Cícero afirma a superioridade da cultura grega, representada aqui por Árquias, por quem Cícero espera ser também celebrado.

A obra termina com um elogio à glória, fonte do heroísmo, que vários generais e homens de estado ambicionam, a ponto de concederem a maior protecção à literatura, mormente no campo da poesia que os imortalizaria.

"Trata-se da defesa de Árquias, essa oração que havia de ser redescoberta no séc. XIV por Petrarca, e que ficou conhecida como a magna charta do humanismo. É aí que, principlamente entre os capítulos VI e XI, Cícero exprime desassombradamente o seu entusiasmo pelas Belas Letras. Elas são deleite e descanso e contrinuem para o aperfeiçoamento espiritual."

Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica,

II volume, F. Gulbenkian, Lisboa, 1982, pp. 128-9

Árquias é cidadão romano porque preenche as condições necessárias: ser cidadão de qualquer cidade aliada; ter domicílio em Itália e ter prestado declaração ao pretor. Os depoimentos de Lúculo, dos embaixadores de Heracleia e os registos do pretor Quinto Metelo comprovam-no. Mas mesmo que não o fosse, merecia sê-lo porque os grandes artistas, como grandes benfeitores da humanidade, merecem o título de cidadãos.

A poesia e as letras proporcionam distracção e repouso. A poesia e as letras educam o espírito.

O tempo que os outros gastam em banquetes e jogos, passa-o o autor no estudo das letras que enriquecem a sua capacidade de auxílio aos outros e são fonte de fama e glória.

O valor da formação cultural. Os grandes homens são os que aliam um carácter naturalmente bom a uma elevada cultura:

Se não apreciamos o estdo das letras, ao menos devemos admirá-lo nos outros. Árquias improvisou grande número de versos e voltou a expor o mesmo assunto por outros, com a maior facilidade. Por isso é digno de estima e admiração que se devem traduzir na concessão do direito de cidadania. Tal conclusão impõe-se pela natureza quase divina dos poetas e porque Árquias já celebrou a glória do povo romano.

A natureza da poesia; se até os seres irracionais da natureza reagem agradavelmente ao canto, se os povos recebem com orgulho os poetas estrangeiros, vamos nós repudiar este que já é nosso?

Neque enim est hoc dissimulandum, quod obscurari non potest sed prae nobis ferendum (est): trahimur omnes studio laudis et optimus quisque maxime gloria ducitur.

(Fonte: http://amartinho.home.sapo.pt/escola/latim/latim12/autores/proarchia.htm)


DE SENECTUTE DIALOGUS

seu CATO MAIOR

O DIÁLOGO SOBRE A VELHICE ou, também chamado, CATÃO MAIOR foi escrito quando Cícero contava 62 anos, em 44 a.C. Pertence ao número das obras que escreveu nos últimos anos da sua vida. Forçado a abandonar a actividade política e afectado pela morte recente da filha Túlia, procurou no estudo da filosofia grega alimento para o espírito e consolação para as amarguras da vida e as tristezas da velhice.

OS INTERVENIENTES NO DIÁLOGO

Catão, a personagem protagonista, com 85 anos, dialoga com os jovens Cipião Emiliano, o futuro destruidor de cartago e Numância, e Gaio Lélio, chamado sapiens. O autor supõe que o diálogo é travado em 150 a. C. em casa de Catão, pouco antes da morte deste ( 149 a. C.).

Catão é uma figura algo idealizada: é modelo do velho romano, bom cidadão, amante da natureza e possuidor de uma sólida cultura que aumentou na velhice através da sua dedicação ao estudo da língua grega. Refuta todas as acusações e inconvenientes atribuídos à velhice e expõe todos os exemplos e considerações pelos quais pretende provar que sempre é possível à velhice ser feliz.

RESUMO

Cap. I - Dedicatória a Tito Pompónio Ático, amigo e conselheiro de Cícero. Foi o seu principal correspondente e o editor de grande parte das suas obras.

Apresentação dos interlocutores.

Cap. II - Início do diálogo: Cipião e Lélio admiram-se de que Catão enfrente a velhice com tanta facilidade. Catão responde que a velhice, longe de ser um fardo pesado, é consequência das leis da natureza. A verdadeira sabedoria consiste em obedecer a essas leis.

A pedido de Lélio, Catão começa o discurso sobre a velhice:

Primeira parte: Cap. III a V

Responde, em geral, às recriminações que são dirigidas contra a velhice:

Afastamento da vida activa. Debilitação do corpo. Privação do prazer. Proximidade da morte.

A causa dessas queixas está nos costumes e não na idade. Dá os exemplos de Platão, Sócrates, Énio, Quinto Fábio, Górgias.

Segunda parte: Cap. VI a VIII, IX a XI, XII a XVIII, XIX a XXIII

Contém a refutação, pormenorizada das quatro acusações precedentemente enunciadas.

1. A velhice não afasta necessariamente os homens da vida activa porque há uma actividade muito própria dos velhos: muitos continuam a servir a pátria com a sua prudência e autoridade; outros entregam-se ao estudo das letras e das ciências; alguns, ao cultivo das terras. Portanto a velhice não é necessariamente ociosa, mas activa.

2. Se as forças corporais diminuem, em parte devido aos vícios da juventude, permanacem e aumentam as do espírito. A lucidez de espírito mantém-se até à morte em homens de leis, oradores e tantos homens célebres. A força física não é necessária porque as funções que os velhos têm que desempenhar são diferentes. Além disso, também os jovens têm necessidade de conservar as forças do corpo e do espírito.

3. A velhice não priva os homens de todos os prazeres. Priva-os apenas dos maus, perigosos para as nações e para os indivíduos. Não os priva do prazer proveniente dos banquetes moderados, dos estudos, da agricultura, da autoridade, das honras.

4. A velhice não deve ser menos querida, por estar próxima da morte. Com efeito, esta tanto ameaça os novos como os velhos. A morte dos jovens é mais violenta e custosa que a dos velhos. À morte segue-se uma vida eternamente feliz; portanto, em vez de a temermos, devemos desejá-la.

Cap. XXIII (84) - Resumo e Conclusão: Catão deseja aos dois jovens uma vida longa para que possam certificar-se, com a experiência, da verdade das suas palavras: Haec habui, de senectute quae dicerem. Ad quam utinam perueniatis! ut ea, quae ex me audistis, re experti probare possitis.


DE AMICITIA

Desiludido com a política e deprimido pela morte da filha Túlia, com 62 anos ( um ano antes da sua morte) Cícero procura apoio na reflexão filosófica e compõe algumas obras: uma delas sobre a amizade.

Como acontece com outros diálogos de Cícero, designadamente com o Cato maior de senectute, e na sequência da tradição helénica, o título completo deste texto – Laelius de amicitia -, presta homenagem à memória de Lélio, que o autor já não conhecera, mas cuja amizade com Cipião Emiliano, o Segundo Africano, ficara particularmente famosa.

Lélio, que acabara de perder o seu amigo, (129 a. C.) a dialogar com os genros Quinto Múcio Cévola e Gaio Fânio sobre a grande amizade entre ele e Cipião e sobre a amizade em geral, um dos mais divinos dons que os deuses concederam aos homens.

Estrutura da obra

Dedicatória

Como seria natural, Cícero dedicou este texto a um grande amigo, Tito Pompónio Ático, seu companheiro desde os tempos de estudante, a quem Cícero recorria quando precisava de apoio e conselhos nos momentos difíceis. Pompónio era um epicurista convicto, rico, que se esquivou desde cedo às intrigas políticas de Roma e se retirou para Atenas.

Preâmbulo (5 primeiros parágrafos)

Enquadramento histórico do diálogo.

Introdução (parágrafos 6 a 15)

Fânio interroga Lélio sobre o modo como conseguiu suportar a perda recente do seu amigo Cipião. Lélio responde que a morte representa a transição para a imortalidade e a conquista da felicidade eterna.

Discurso de Lélio sobre a amizade (parágrafos 16 a 104)

Fânio e Cévola pedem a Lélio que disserte sobre o que pensa ele da amizade ( quid sentias), qual a sua natureza ( qualem existimes) e que normas propõe para ela ( quae praecepta des):

Primeira parte: Lélio e o seu conceito de amizade (parágrafos 17 a 24)

Conceito moral: a amizade nasce da virtude e só pode existir entre os homens bons (uiri boni), não no sentido idealizado e absoluto, mas na perspectiva da sociedade romana: dotados de virtudes como a fidelidade, a integridade, o sentido de justiça, da liberalidade e da constância.

Conceito natural: é o impulso da natureza que leva ao estabelecimento dos laços de amizade.

Conceito final, baseado nos dois anteriores: a amizade é a plena e afectiva concordância em matéria religiosa, moral e política, envolvendo toda a actividade humana.

Segunda parte: origem e natureza da amizade (parágrafos 25 a 32)

A amizade não nasce na nossa carência nem no desejo de obter um bem de que temos necessidade, mas nasce de um instinto natural e irresistível, numa inata inclinação de alma e num certo sensus amoris que nos leva a amar os nossos semelhantes, sobretudo se neles descobrimos o brilho de alguma virtude, pois é esta, afinal, que cativa e atrai o sentimento da amizade.

Terceira parte: normas para a conservação da amizade (parágrafos 33 a 100)

Não se deve pedir a um amigo, nem fazer por ele, nada que seja desonesto.

Trocar favores honestos, zelar pelo bem do amigo, aconselhá-lo com franqueza, adverti-lo com firmeza e afabilidade.

A relação com o amigo escolhido deve basear-se na fides e na confidência, longe de todo o tipo de simulação e de suspeita.

É necessário dizer a verdade com moderação e sem ultraje e escutá-la sem se ofender. É igualmente importante evitar a complacência e todo o tipo de adulação: segundo Catão, por vezes, prestam-nos melhor serviço os inimigos ásperos do que certos amigos de modos demasiado doces.

Conclusão (parágrafos 100 a 104)

Foram as grandes virtudes de Cipião que fizeram despertar em Lélio a profunda amizade que lhe dedicou e que há-de durar mesmo para além da morte.

(Fonte: http://amartinho.home.sapo.pt/escola/latim/latim12/autores/deamicitia.htm)