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ARISTÓFANES
Nasceu por volta de 447 a.C., em
Atenas, e seu pai se chamava Felipe; foi criado provavelmente no meio rural,
talvez em uma propriedade na ilha de Egina. Consta que se tornou careca por
volta dos vinte anos, que exerceu um cargo público — a pritania — no início do
século IV a.C., e que teve dois filhos que seguiram carreira no teatro cômico,
Araros e Filipos. Ele é mostrado por Platão, no Banquete, como um companheiro
agradável, jovial e divertido.
Cleon (fl. 430 a.C. - 422 a.C.), influente político que se destacou em Atenas
após a morte de Péricles (495 a.C. e 429 a.C.), foi diretamente satirizado por
ele e, segundo a tradição, processou-o sem sucesso em 426 a.C. Nova sátira,
ainda mais pesada, motivou um segundo processo em -424, resolvido aparentemente
através de acordo realizado fora dos tribunais.
Aristófanes compôs um total de quarenta peças, e obteve nos concursos pelo menos
seis primeiros prêmios e quatro segundos prêmios. Embora toda sua vida
intelectual tenha transcorrido em Atenas, apresentou certa vez uma de suas peças
no teatro de Elêusis. Sua primeira comédia, Os Convivas, estreou em 427a.C. sob
o nome de Calístrato, o ensaiador da peça, e obteve de saída o segundo prêmio.
Suas duas últimas comédias, Cocalos e Eolosicon foram encenadas por seu filho
Araros após -388. Acredita-se que o poeta tenha morrido pouco depois, em algum
momento entre 386 a.C. e 380 a.C.
Obras sobreviventes
De toda sua obra somente onze comédias sobreviveram mas, em compensação, todas
puderam ser datadas de modo razoavelmente preciso: Os Acarnenses, 425 a.C.; Os
Cavaleiros, 424 a.C.; As Nuvens, 423 a.C.; As Vespas, 422 a.C.; A Paz, 421 a.C.;
As Aves, 414 a.C.; Lisístrata, 411 a.C.; As Tesmoforiantes, 411 a.C.; As Rãs,
405 a.C.; As mulheres na Assembléia, 392 a.C.; e Pluto, 388 a.C..
Acarnenses, Cavaleiros, Vespas, Paz e Lisístrata tratam da vida política;
Nuvens, Tesmofóriantes e Rãs criticam a vida intelectual; Aves, Mulheres na
Assembléia e Pluto são alegorias, ou comédias de fuga (Starzynski, 1967).
Restaram também numerosos fragmentos de suas outras comédias, que permitiram
reconstituir, ao menos em parte, o argumento de algumas delas.
Características da obra
As comédias anteriores a 400 a.C. mostram duas preocupações básicas: fazer o
público rir e criticar as instituições políticas e intelectuais da Atenas
daquela época. E, em meio à linguagem viva e pitoresca dos diálogos, também
estão presentes trechos de grande beleza poética, notadamente nas odes corais.
Todos os recursos cômicos imagináveis foram usados com grande maestria pelo
poeta, desde a sátira mais grotesca até a malícia mais sutil: situações
ridículas, cenas fantásticas, personagens alegóricos, caricaturas de personagens
humanos reais e deuses, pilhérias, ironias, jogo de palavras, trocadilhos,
mal-entendidos, exageros, substituição de palavras esperadas por outras
inesperadas, paródias (dos autores trágicos, principalmente), neologismos,
provérbios...
Aristófanes recorria também com freqüência à licenciosidade e à obscenidade, o
que sem dúvida pode chocar os desavisados leitores modernos. Não se deve, no
entanto, esquecer que o pudor de nossos tempos desenvolveu-se somente nos
últimos 200 anos, e que os antigos encaravam com muito mais naturalidade esse
tipo de gracejo. Além disso, as festas dionisíacas que originaram a comédia
derivaram de antigos rituais de fertilidade em que o elemento sexual era um
componente crucial.
As críticas de Aristófanes atingiam a tudo e a todos: os chefes políticos, a
Assembléia, os tribunais e os juízes, os militares, os poetas trágicos, os
filósofos, o povo em geral, os velhos, os jovens, as mulheres... Mas as
intenções morais por trás das críticas eram muito sérias: o poeta defendia
sempre os valores antigos, a vida rural e, especialmente, a paz — tão desejável
durante a Guerra do Peloponeso.
Nas duas últimas comédias nota-se uma redução expressiva das partes corais, o
desaparecimento da sátira política e uma importante atenuação da sátira pessoal,
o que coloca ambas no terreno da "Comédia Média", ou pelo menos em pleno período
de transição. É possível que uma das últimas obras de Aristófanes, Cocalos,
apresentada por seu filho Araros entre 388 a.C. e 380 a.C., tenha inaugurado
alguns aspectos da "Comédia Nova", introduzindo na comédia alguns aspectos
românticos que caracterizariam posteriormente o gênero.
Seus méritos poéticos, no entanto, não foram muito apreciados pelos eruditos
alexandrinos — eles conservaram suas obras, aparentemente, pelos simples fato de
serem a fonte mais pura do dialeto ático antigo...
Pouco se sabe de certo a respeito da vida pessoal de Aristófanes. Grande parte
das informações disponíveis, sugeridas pela parábase das comédias que chegaram
até nós, têm sido desconsiderados cada vez mais pela crítica moderna.
Para nós Aristófanes é o principal representante da "comédia antiga" e, ainda
hoje, suas peças podem ser consideradas verdadeiras obras-primas do gênero
cômico.
Fonte:
http://www.netsaber.com.br/biografias/ver_biografia_c_4833.html
LISÍSTRATA
SINOPSE
Cansadas de uma guerra que já durava 20 anos, as
mulheres de Atenas, de Esparta, de Beócia e de Corinto (cidades gregas mais
duramente atingidas pela guerra), chefiadas pela ateniense Lisístrata, decidiram
por fim às hostilidades usando de uma tática pouco convencional: uma greve de
sexo. Para melhor conseguir seu objetivo, ocuparam na cidade de Atenas – a
Acrópole, e tomaram conta do Tesouro. Os maridos não resistiram à greve e
concluíram um tratado de paz, depois de uma série de peripécias de grande efeito
cômico apesar da ousadia dos detalhes.
Lisístrata de Aristófanes foi uma tentativa real de
acabar com uma guerra de verdade. Na época em que foi escrita a peça (411 a.C.),
Atenas atravessava um período dificílimo de sua história. Abandonados por seus
aliados, os atenienses tinham a 24 quilômetros de suas cidades as tropas
espartanas. Essa luta fratricida enfraquecia a Grécia toda, pondo-a a mercê dos
bárbaros. Inspirado por um profundo sentimento de patriotismo e humanidade,
Aristófanes se fez porta-voz de todas as esposas e mães gregas e, por intermédio
de Lisístrata, lançou um veemente apelo em favor da paz, não somente aos
atenienses, mas a todos os gregos. Infelizmente a mensagem de Aristófanes não
foi ouvida e a guerra continuou, arruinando a Grécia, e as guerras continuaram,
mutilando o mundo.
Lisístrata e a 'greve das pernas cruzadas'
pernas cruzadas' Personagem é mulher de traficante e
quer acabar com guerra do tráfico em releitura de Ferréz para clássico de
Aristófanes
Flávia Guerra
'Vocês não sentem saudade do tempo que o morro era de
paz? Sei que os maridos de todas estão nas facções. Vamos agir. Só há uma saída
pra conseguir a paz. O plano é este: não fazer sexo!'
Esta é Lisístrata, a personagem de Aristófanes, que convence suas companheiras a
negar sexo aos homens para conseguir a paz entre atenienses e espartanos. A
diferença entre a Lisístrata grega e a de Lisístrata: Sexo, Drogas e Greve, no
Teatro Fábrica, é que a atual mora no morro, tem um marido traficante.
A peça, com direção de Débora Dubois, é uma adaptação do escritor Ferréz à
comédia Lisístrata ou A Greve do Sexo, do século 5º a.C. O texto de Ferréz faz
muito mais que divertir. A realidade se impõe ao entretenimento. Uma greve de
sexo rende situações hilárias e Ferréz, que estréia agora no teatro, sabe
aproveitá-las. Suas mulheres entram na tal greve para acabar com uma guerra que
não existia nos tempos de Aristófanes: a do tráfico.
Qualquer semelhança com a 'greve das pernas cruzadas' que mulheres e namoradas
de integrantes de gangues de Pereira, uma das cidades mais violentas da
Colômbia, fizeram em setembro para convencer seus companheiros a entregarem as
armas não é mera coincidência.
Séculos vão e vêm e a violência, o jogo de poder entre homens e mulheres,
potencializado pelo sexo e pela discussão do papel feminino na sociedade não sai
de cena. 'Incrível esta história. Isso não vai acabar tão cedo', diz a produtora
e atriz Rennata Airoldi. 'A época de Aristófanes não se aplica mais a nós, mas
toda guerra tem um paralelo. E a nossa tragédia é o morro. Hoje, a mulher visita
o filho na Febem, o marido na cadeia, cria os filhos sozinha. Por outro lado, o
moleque quer entrar no tráfico para ter poder e a mulher que quiser. O nosso
pênis ereto é a arma na mão', aponta Débora.
A escolha de Ferréz, que mora no Capão Redondo, não foi por acaso. 'Queríamos
primeiramente encenar a peça. Mas a Débora sugeriu trazê-la para o tempo atual e
falar da guerra que temos no Brasil, a das drogas, a social. Para isso, era
preciso alguém que falasse disso com verdade. Pensamos em Ferréz', conta Rennata.
Ferréz leu o original e aprovou.'Nunca tinha pensado em adaptar nada. Mas o
texto ainda é atual. Tem debate político, reivindicação, personagens que não
aceitam o sistema imposto', conta o autor, que extrapolou a questão da guerra de
sexos. 'Quis falar de questões importantes como o uso da camisinha - muita gente
não sabe que não se deve abrir com o dente (risos) -, gravidez precoce.'
O machismo arraigado na sociedade também ganha destaque. 'Tudo é extremo na
perifa. Nego tem preconceito até com a mãe. Machismo atrapalha tudo. Triste uma
sociedade em que se tem de andar com apito no peito para avisar se for atacado.
É um universo estereotipado, que ninguém vê', conclui o autor.
(SERVIÇO)Lisístrata: Sexo, Drogas e
Greve. 75min. 12 anos. Teatro Fábrica São Paulo - Sala 2 (80 lug.). Rua da
Consolação, 1.623, 3255-5922. 6.ª e sáb., 21h30; dom., 20h30. R$ 20. Até 26/11
Fonte:
http://www.estado.com.br/editorias/2006/10/07/cad-1.93.2.20061007.18.1.xml
Aristófanes – As Nuvens
Luciene Félix
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-Romana da
ESDC
mitologia@esdc.com.br
As
Graças procuravam um altar eterno.
Acharam-no na inteligência de Aristófanes.
Platão
Não é de hoje que servimo-nos da
comédia para manifestar nosso menosprezo a certas autoridades públicas, aos
políticos, às instituições, às “celebridades” e aspirantes que, pateticamente,
exteriorizam a decadência moral de uma sociedade. Corrupção, abuso de
autoridade, vaidade e mesquinhez são, até hoje, alvo de críticas veladas sob a
forma de sátira.
Em repúdio à ignorância, à ambição
e a rudeza dessas pessoas o ateniense Aristófanes (455a.C-375a.C) fez do teatro,
seu campo de batalha, para onde transportou as inquietações político-sociais,
educacionais e religiosas de sua época. Sarcásticas, suas comédias são de fácil
e agradável leitura: ricas em jogos de palavras, jocosidade e até obscenidades.
Tendo por alvo as personalidades mais influentes, não poupava idosos ou jovens,
pobres ou ricos.
Da vida do mais famoso comediógrafo
da antigüidade grega, poucos detalhes sabemos, mas por sua obra, deduz-se
possuidor de uma vasta cultura literária. Foi um aristocrata que, detentor de um
espírito ousado, atrevido e insolente, soube traduzir em suas peças, a
inquietação quanto às novidades que considerava demagógicas e oportunistas, e a
desconfiança quanto à nova educação, enaltecendo as virtudes da educação
tradicional.
Autor essencialmente político,
gozando da estima do público, é significativo ressaltar que ele viveu o apogeu
da cultura ateniense e testemunhou o início da guerra do Peloponeso, que
terminou em 404 a.C, com a vitória de Esparta sobre a sua Atenas. Seu alvo fora,
notoriamente, “àqueles filósofos” que pregavam o domínio da arte da retórica a
fim de vencer qualquer litígio, os Sofistas, sábios que, mediante pagamento,
dispunham-se a ensinar a arte do bem falar (e convencer) à platéia. Qualquer
platéia. Aristófanes não poupou Sócrates e o elegeu, errôneamente, como alvo de
sua crítica feroz, julgando-o um dos ícones responsáveis pela decadência de
Atenas.
Apesar de ter escrito mais de
quarenta peças, apenas onze são conhecidas. Sobre a que vamos discorrer, “As
Nuvens”, trata-se de uma crítica contundente ao Poder Judiciário ateniense. A
ironia de Aristófanes já começa no próprio título da peça: “As Nuvens”.
Faz alusão ao ateísmo e ao culto de
novas divindades estranhas como o éter, o ar, a persuasão, em detrimento aos
antigos – por ele considerados os “verdadeiros” deuses. Insurgindo-se contra as
novas propostas pedagógicas e uma certa anti-eticidade por parte dos sofistas,
Aristófanes desejava chamar a atenção quanto as conseqüências de uma inversão de
valores, fruto um novo modelo educacional.
Vamos à peça. O velho simplório
Estrepsíades, outrora abastado proprietário, vê-se agora arruinado e cheio de
dívidas devido a seu casamento com uma perdulária e fútil aristocrata ateniense
e à seu filho, Fidípides, uma espécie de “playboy”, de “mauricinho” que não faz
outra coisa senão gastar em cavalos, dilapidando e obrigando o pai a estar
sempre se endividando. Desesperado e ignorante, ele pensa até em tratar com as
feiticeiras da Tessália, para ver se há um modo de alterar as fases lunares, uma
vez que o calendário de vencimento das dívidas eram lunares. Ao tomar
conhecimento de que há agora um meio de ludibriar os credores, através da arte
da retórica, tenta convencer seu filho a matricular-se e seguir um desses
Mestres, no caso Sócrates. Diante da negativa do filho, decide ele mesmo ir ter
com o filósofo e aprender e dominar essa poderosíssima ferramenta que é a arte
da argumentação. Mas a Estrepsíades falta a capacidade intelectual e isso o
obriga a desistir. Novamente, implora ao filho que vá aprender as artimanhas do
discurso e, dessa vez, consegue fazê-lo aceitar.
O auge da comédia se dá quando o
“Raciocínio/Discurso Injusto” vence o “Raciocínio/Discurso Justo”. O “Justo”,
personifica os valores cívicos, o respeito às tradições e aos mais velhos. Já o
“Injusto” incorpora os novos valores, onde são enaltecidos o hedonismo, a
astúcia e o oportunismo. Animado, o pai não esquece de reiterar a Sócrates: “Não
se esqueça de ensinar ao rapaz o que ele precisa para arrasar tudo o que é
justo”.
É óbvio que Estrepsíades ainda se
arrependerá dessa decisão pois, o “tiro sai pela culatra”! Fidípides aprende tão
bem que se volta contra o próprio pai chegando até a lhe bater, justificando o
absurdo de sua atitude, demonstrando argumentativamente como isso era
perfeitamente legítimo. Retomaremos o diálogo entre os dois Raciocínios: Justo x
Injusto e descobriremos porque o responsável pela vitória do Injusto somos nós
mesmos: o público.
► Saiba mais:
Aristófanes – As Nuvens, Só para
Mulheres, Um Deus Chamado Dinheiro - Tradução do grego e apresentação: Mário da
Gama Kury – 1995, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.
Fonte:
http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_aristofanes.htm
"As Aves" - Aristofanes - trecho
Por MP, Lisboa, Portugal
Aqui fica uma tradução pessoal das Aves de
Aristofanes, esse excepcional dramaturgo helénico, numa das suas
mais interessantes obras cénicas:
(...)
EUELPIDES - Não poderias averiguar, apartir daqui, onde se encontra
a nossa pátria?
PITHETAERUS - De certeza que não; nem sequer Execestides o
conseguiria.
EUELPIDES - Credo!
PITHETAERUS - Tu, amigo meu, continua por esse caminho.
EUELPIDES - Que terrível aldrabice aquela que Filocrates nos fez!!
Esse vendedor aldrabão de pássaros! Garantiu-nos que estas duas aves
nos iriam guiar melhor que qualquer outra ao local onde se encontra
Tereus, o Epopoi, que foi transformado em pássaro; e vendeu-nos este
gaio, um verdadeiro filho de Tharrhelides, por um obolus, e por
trazer aquele corvo, que só sabem bicar-nos.
(Para o seu gaio) Porque é que me olhas constantemente com o bico
aberto? Queres precipitar-nos destas pedras? Por aí não existe
qualquer caminho.
PITHETAERUS - Por Zeus, nem sequer uma trilha.
EUELPIDES - O que diz o corvo sobre o caminho a seguir?
PITHETAERUS - Por Zeus, continua a grasnar as mesmas coisas de
antes.
EUELPIDES - Sim, está bem, mas o que é que diz a respeito do
caminho?
PITHETAERUS - O que é que há-de dizer? Apenas que à força de roer
acabará por comer-me os dedos?
EUELPIDES - Isto é insuportável! Demos tudo o que tinhamos para
ficar com os corvos, e não conseguimos encontrar o caminho. Porque
deveis de saber, caros leitores, que a nossa enfermidade é
completamente distinta daquela que aflige Saccas: este, que não é
cidadão, obstina em sê-lo, e nós, que o somos, e de famílias
distintas, ainda que ninguém nos expulse, fugimos a toda à pressa da
nossa pátria.
Não que incomodemos uma cidade tão célebre e rica como a nossa,
sempre aberta a todo aquele que queira arruinar-se em litígios;
porque na realidade, é uma triste verdade que as cigarras apenas
cantam um ou dois meses por ano entre as folhas das árvores, em
contrapartida, os atenienses cantam toda a vida debruçados sobre
processos.
Foi isto que nos obrigou a iniciar esta viagem e a buscar,
carregados apenas de figos e algumas folhas e bagas de mirto, um
país livre de pleitos, onde tranquilamente viver a nossa vida. Vamos
para Tereus, onde está o Epopoi, para perguntar-lhe se nos locais
por onde passou nos seus aéreos caminhos, avistou alguma cidade como
esta que procuramos.
PITHETAERUS - Ei, tu!
EUELPIDES - O que é que se passa?
PITHETAERUS - Há já algum tempo que o corvo me indica que
há que subir um pouco.
EUELPIDES - Também o gaio olha na mesma direcção, com o bico aberto,
como se quisesse dizer-me alguma coisa: deve haver aves por aqui.
Pronto, sabê-lo-emos se fizermos barulho.
PITHETAERUS - Sabes o que é que tens que fazer? Bate-lhe com o pé e
a pedra.
EUELPIDES - E tu, com a cabeça, por forma a que o ruído seja ainda
maior.
PITHETAERUS - Será melhor, apanhares essa pedra e gritar.
EUELPIDES - Terá de se fazer, claro está! Escravo! Escravo!
PITHETAERUS - Mas, que fazes?! Para chamar Epopoi, gritas:
Escravo! Escravo! Em vez de escravo deves gritar: Epopoi! Epopoi!
EUELPIDES - Epopoi! Terei de chamar outra vez. Epopoi!
TROCHILUS, O CRIADO - (Personificando um pássaro) Quem lá vem? Quem
chama o meu dono?
EUELPIDES - Que Apolo nos assista! Que bico enorme!
TROCHILUS, O CRIADO - Horror! São caçadores!
EUELPIDES - Causa-me um medo irreprimível.
TROCHILUS, O CRIADO - Morrereis!
EUELPIDES - Mas, não somos homens!
TROCHILUS, O CRIADO - Então o que é que sois?
EUELPIDES - Eu sou o Tímido, ave da Líbia.
TROCHILUS, O CRIADO - Ah! Outro desses...!
EUELPIDES - Pergunta a toda a caca que levo nos pés.
TROCHILUS, O CRIADO - E esse aí? Que pássaro é que é? Responde.
PITHETAERUS - O Emporcalhado, ave de Fasos.
EUELPIDES - E tu? Em nome dos deuses, que tipo de animal és?
TROCHILUS, O CRIADO - Eu sou um pássaro escravo.
EUELPIDES - E fostes conquistado por quem? Por algum galo?
TROCHILUS, O CRIADO - Não; mas quando o meu dono foi transformado
num pássaro também quis que eu me transformasse em pássaro, para ter
quem o seguisse e servisse.
(...)
Fonte: http://ecletico.blogspot.com/2005/10/as-aves-aristofanes.html